Não escrevo mais. Não aqui. Só lá.
Last One
Future Awaits
Debts and Dues
Desculpe sei que estou um pouco atrasado, mas acho que ainda dá tempo. Não sei se adiantaria dizer que você é tudo aquilo que me falta. Meu discernimento já não é o mesmo e meu julgamento parece meio fora. Não sei se estou pronto para a falta que você vai me fazer nesta semana, mas eu tenho certeza que não tenho certeza de nada, nem mais da passagem do tempo. Dias ou anos? Horas ou meses? Sístole ou diástole? Seria bom que seu coração tivesse espaço para dois, eu e você, o meu já não mais me pertence. Se eu te devo algo, devo muito mais do que palavras. Devo-te no mínimo o respeito necessário para não dizer besteiras e nem dividir fantasias mirabolantes. Devo-te no mínimo o desejo inexorável de acordar ao teu lado e dormir nas tuas mechas. Devo pelo menos abrir mão de tudo o que me faz eu para me tornar teu e somente existir nos teus olhos. Por que eu te amo. E só.
Diário de bordo, data estelar 03/02/2009
Do You Need To Be Forgiven?
She Told Me To Write²
She Told Me To Write
/music
Of my devotion to your sacharine scent
And to be completely honest
You're not like all the rest
Break
Through the Fire
Need
Snow
Seems like...
Abstractions
Urban
Scare To Death Of Living Without You
Horrorific + Safety
Wrath
Randomness
Free
Triangle
Right Word, Left Hand
Cut
Dark
Mother
Love?! Don't Talk Me About Love...
PS:. Eu sei que eu não postei o tema anterior, esse era mais urgente. ;D
Improv Anywhere
Puzzle
See
Blink
Steal These Stolen Words
Work No Longer In Progress
Bad Move...
Como é aquela palavra...
I Really Want You
Absent Sentient Persona
Halo-What?!
Mistakes of a Rechargeable Brain
Empty Walls, Empty Veins
Dead Kings, Dead Choices
Invincible
Homewrecker, Heartbreaker, Soul Sneezing.
Natural Blues, Unatural Grey
Vultures, Stray Cats And Lonely Ducks
Are You Alone Today? I'm Always Alone
Starshine
Words That We Couldn't Say
Ressurection On The Third Day
The Ghost Of Every Lost Love
Run Like The Wind
Me And Monsterman
Is Your Soul Branded?
I'm Gonna Get My Shit Together
Preciso me recômpor. Ou melhor, cômpor, já que nunca realmente estive no caminho certo. Responsabilidades, pense em responsablidades sr. Orlandi. Você vai acordar mais cedo, dormir melhor, comer direito, arranjar um emprego. Mentira. Mentira. Mentira. Mentira. Vou achar uma garota legal e aquietar o facho. Contentar-me com uma vida simples. Já pensei demais, preciso de uma esposa. Duvido.
Contentar-se é a palavra. Parei de brigar com as limitações. Desisiti das aspirações. Abdico do trono do mundo. O mundo que se exploda. Ser como todo mundo. Único feito todo mundo. Ficar sem fazer nada relevante e esperar pacientemente a aposentadoria de um emprego que eu não gosto. E depois que a aposentadoria chegar, esperar ansiosamente pela morte. E quando ela chegar, agarrar-me à cada coisinha que me mantêm vivo. Parece promissor não?
Dead Like Me
Tenho conversado muito comigo ultimamente. Fico dizendo-me coisas que deveriam ser ditas em outra ocasião. Eu nunca me respondo no entanto. Nunca me disse que não foi minha culpa. Repito o mantra de que a culpa é minha e somente minha. Porque é. E eu nunca minto. Não pra mim mesmo. Não faria sentido.
Me perguntei por um tempo se eu realmente fiz a coisa certa. Não consegui responder. Não me senti com autoridade de me corrigir. E de todas as dúvidas, a que mais me incomoda é se eu realmente deveria estar fazendo isso. Se não é cedo demais. Se qualquer dia vai se tornar passado e parar de me assombrar. Se um dia eu vou parar de olhar por sobre o ombro em todas as situações, como eu faço agora. Ela está me esperando com um olhar confuso. Melhor me apressar.
-“Acho que ela ia querer que eu me apaixonasse de novo.” – Digo a mim mesmo mas soa muito pior do que eu pensava. Repreendo-me. Como ouso falar como se ela estivesse morta? Quem morreu fui eu.
Snowflake
Ser diferente significa que você não teve culhões de ser o que você é. É afastar-se do ser. Negar o ser. Um grito de ajuda e uma súplica de aceitação. Só prova o que todo mundo já sabe. Que não há diferença. Todo mundo faz parte da mesma matéria decadente, pilhas de atómos que por um acaso se importam umas com as outras. E o que é se importar senão só mais um comportamento pré-determinado? Aqui e ali são a mesma coisa. Agora e amanhã são idênticos. Essa linha e a anterior passaram a mesma mensagem. Você vai ver algo diferente toda vez que ler isso, mas sempre vai significar a mesma coisa. Pare. Antes que seja tarde.
The Boy Who Cried Wolf
Supunha que só não via necessidade. Que não entendia a motivação necessária. E que certamente pareceria fingido se saísse de sua boca. Imaginava as palavras arranhando sua garganta enquanto uma voz muito parecida com a sua própria gritava que estava mentindo em sua cabeça. Era como um alarme, toda vez que as três palavras soavam em algum lugar próximo um neon do tamanho de uma cachalote se acendia em seus olhos. 'Mentira' em letras garrafais viam-se à torto e a direito.
Levando isso em conta, considerava que nunca havia ouvido as malditas três palavras. Mesmo já tendo sido alvo de frases do mesmo sentido muitas vezes. E todas elas era como se ouvisse 'deseja um ou dois torrões de açucar?' ou qualquer outra frase igualmente inconspícua. Baseou-se inteiramente neste aspecto de sua existência. Fez o que todo mundo faz, adaptou-se. E tirando a fama de sem coração, levara uma vida normal.
Até o momento em que pela primeira vez um 'eu te amo' soou como 'eu te amo'. E subitamente tudo ao seu redor pareceu apático e sem graça em comparação com o eco da dita frase em seus ouvidos. E quando forçou-se a duvidar da credulidade da situação, um já conhecido luminoso piscou 'Mentira' diante dos seus olhos. As palavras zombavam inquietas em seus lábios mas não tinha certeza se permitiria que saíssem assim sem mais nem menos. Provavelmente não acreditariam, Pedro e o Lobo finalmente fez todo o sentido do mundo.
Cumulus Nimbus
Eu não me apaixono mais por nuvens. Elas sempre somem quando eu não estou olhando. Meus olhos não mais permitem-se desviar dela, nem mesmo para olhar o céu.
Hollow Man
O passado finalmente me alcançou e me encheu de melancolia que não foi bem vinda. A incerteza do futuro me confunde e não tenho certeza se estou preparado. O presente me faz querer gritar e eu não sou capaz mais de organizar meus pensamentos. Ao mesmo tempo quero correr e não tenho forças para me levantar. Ao mesmo tempo odeio e amo. Ao mesmo tempo sou eu e não sou. Vazio. Oco. Fingido. Atuando magistralmente num teatro de máscaras do tamanho do mundo. Não se pode fingir o tempo todo, velho amigo. Não vou durar muito, camarada.
E pensar que aspirei em ser salvador do mundo. Pensei ser capaz de salvar todos os malditos e oprimidos, os fracos e os imprestáveis. Cavaleiro branco, que não faz distinção em nenhum fator. Justiça certeira. Deveria ter desconfiado que chegaria à esse ponto quando comecei a pensar que se o mundo realmente me pedisse ajuda eu responderia um seco não. Quando nada mais me parecia merecedor de salvação. Não tenho ânimo nem para pedir que alguém me salve. Não tenho nem esperança que me salvariam se pedisse.
We Don't Belong To Future
Ele esperou até tudo ter acabado para notar que algo estava errado desde o começo e se arrependeu de coisas que não deveria se arrepender. Típico. A culpa foi atribuída à diversas pessoas até inevitavelmente alcançar seu dono por direito. E quando finalmente lhe pesou sobre as costas já era tarde demais. Queria ter dito o que pensava, e pensado no que dizia. Olhou-se no espelho e não mais a viu. Aliviou-se primeiro, depois chorou. Homens não choram, disse a si mesmo. Não era mais homem. Era outra coisa.
O futuro que não mais existia olhou para trás e não podia fazer nada além de lamentar pelo que não ocorreu. Havia passado toda a sua existência esperando pelo momento anterior à ele. Mas esse momento nunca existiu. Quem sabe agora poderia ser o astronauta que sempre quis ser. Antes de partir escreveu um bilhete para aquilo que não mais era. Lia-se "Adeus" na caligrafia torta e apressada, característica comum à todos os que se cansam de esperar.
O bilhete só era. Nada mais.
Walking Dead
Terra de ninguém, sinistras silhuetas e um homem morto. Parece certo. Soa certo. Tudo se encaixa na paisagem. Sentado ao lado da última residência que jamais terei, na grama seca que incomoda e arranha eu penso no que me foi imposto e no que impus. No que fiz e no que não fiz. Em todas as pontes que foram queimadas até que nenhuma restasse. E mesmo com a crescente insatisfação e a bile subindo pela minha garganta eu me permito fitar o céu quebrado e incorpóreo. Não tenho esperança mas procuro mesmo assim. Por alguma coisa, qualquer coisa. Não tem nada lá. Rio porque já sabia. Rio mais forte porque considerei estar errado.
Levantar-me causa um rangido baixo nos joelhos e projeta longas sombras em minha própria efígie. Ando pelo caminho imaginário que se estende por milhas à frente tentando ignorar a esmaecida luz que passa pelas pesadas nuvens, empalidecendo um ponto aleatório. Estou vivo e não me engano mais.
Wall
A nova muralha vai ser maior e mais forte, para manter cativa toda a corte que se formou em minha cabeça. Palhaços, conselheiros, canídeos e petulantes barões do nada. Se me tornei algo que nunca deveria ter sido, sou inocente como um púbere infante. Ou o que restou de mim.
Todo mundo esconde-se atrás de alguma coisa. Mesmo os personagens criados com o intuito de esconder reais intenções criam seus próprios personagens. Arranjar álibis torna-se difícil quando se é o boneco e o ventríloquo, continuo responsável pelo que um diz enquanto o outro bebe água. Enfeitiçado sigo pelo caminho escolhido pelo dia de hoje. Tapo o sol com a peneira mas não admito que estou completamente desnorteado.
Fell In Love Without You
Talvez meu humor seja temporário. E talvez você seja temporária. Talvez ela seja temporária. Talvez a necessidade de mudança seja a única coisa absoluta. As coisas por dizer as únicas certezas, e os significados ocultos completamente irrelevantes. Talvez lê-la não seja possível ou talvez eu esteja cego.
Quero dormir, mas qual é o sentido se meus sonhos estão maculados com as palavras que eu queria ouvir sair de seus lábios. Quero não querer. Mas até onde sei minhas vontades podem ser somente ilusórias, maqueando intenções que desconheço e que prefiro não desbravar.Que a ignorância seja benção, e que me esqueça de procurar o Santo Graal no próximo abraço. Não sei se aguento uma missão fracassada, iria acabar com minha invencibilidade. Que os torpedos sejam minha bélica salvação.
It's Never Ending
Todas as cartas de amor que não foram mandadas o cortam como navalhas enquanto os ventos da mudança trocam tudo de lugar. Ele deveria ter ido, mas não foi. Tudo que ele tinha que fazer era dizer adeus, mas só conseguiu dizer um engasgado "até amanhã". Ele estava preso. Sua ignorância e falta de tato os únicos a se culpar. Culpar a si mesmo não adianta, não tira o peso das suas costas.
Ela aparece e ele pensa como vai dizer. Como contar-lhe. E mais uma vez sente a força se esvair. Nada mais faz sentido. Todo o esforço, todo o ensaio, toda a precariamente angariada coragem não mais atendem suas recentemente adquiridas necessidades. Tudo que ele precisa é manter-se por perto. Se o medo das mudanças lhe causou as mudanças que lhe aterrorizavam agora, talvez o medo de perder pela primeira vez algo que nunca teve cause a perda daquilo que mais preza. Talvez só tivesse tido o azar de acordar num mundo ao contrário, onde se deseja com todas as forças despedir-se da única pessoa que importa.
Não, definitivamente ainda está dormindo. Ela não pode ser desse mundo. Como se pode lutar contra isso? Adeus? Sim. Adeus velhos hábitos. Se despedir-se uma vez não fosse o suficiente, fazê-lo eternamente sem sucesso é o desespero.
You could use a little magic
Observou enquanto a figura de fraque subia em um meio trote enquanto a salva de palmas ribombava no salão. As mangas do paletó um pouco puídas aqui e ali. E a cartola tinha manchas de uma cor indistinguível. Tinha uma boa postura e uma impressão de estrangeirismo apesar do nome claramente comum. Quando o locutor pontuou-o com adjetivos como “inacreditável”, “surpreendente” e “fantástico” o ilusionista fez algumas mesuras que alegavam humildade. Tinha uma boa aparência vista do lugar onde ela estava, e a voz lhe parecia familiar e usual enquanto ele dizia algo sobre como a platéia parecia animada naquela noite de sexta-feira, tudo isso entrecortado pelos assovios insistentes de seu acompanhante sentado ao seu lado. Ela não achou nada de fantástico nele. Até o momento em que seus olhares se cruzaram e ela instintivamente soube que, se por acaso, ele precisasse de um voluntário da audiência, ela certamente seria escolhida.
A noite prosseguiu em meio a carteiras flamejantes, pombas voando de dentro de mangas e bandeirolas intermináveis. Coelhos foram tirados de cartolas e taças de vinho foram esvaziadas ao som da fanfarra que acompanhava o show. Ela ouviu a deixa para o último truque com uma ponta de euforia, e o seu namorado ainda tentava descobrir como diabos cabiam tantas coisas dentro de uma caixa tão pequena. George nunca foi muito esperto. George era o namorado dela. Ele ficou realmente animado quando ela foi gentilmente convidada a subir ao palco. E ela subiu. Foi ajudada por mãos enluvadas e ficou parada por um tempo estranhamente constrangedor enquanto o rapaz buscava uma caixa alta de trás do palco. George assoviou e acenou, deixando-a corada.
A platéia ouviu atenta enquanto o mágico explicava o próximo truque e ela achou que ele parecia muito maior visto de perto. A cartola o deixava mais alto. Ele girou a caixa, mostrando que não haviam portas escondidas, e sem fazer perguntas guiou a moça até o seu interior. A porta se fechou iniciando um rufar de tambores que durou o suficiente para que ele gracejasse pelo palco fazendo floreios e sussurrando coisas ininteligíveis. As batidas ritmadas pararam ao mesmo tempo em que a porta se abriu, revelando nada mais do que vazio em seu interior. As pessoas aplaudiram e gritaram por quase um minuto enquanto o mágico se curvava afetadamente. Ele começou a se despedir e dizer que estaria de volta no mesmo horário na semana que vem. Virou-se pra ir embora com um rodeio da capa de forro escarlate quando uma voz se ergueu da platéia.
-Ei! Onde está a moça? – Era George, incrédulo.
-Talvez em outra dimensão meu bom homem. – Respondeu o mágico com um sotaque fingido na voz. – Quem sabe para onde as coisas vão quando afetadas pela minha mágica?
-Traga ela de volta!
-Não posso. – Todo o salão prestava atenção na discussão recém iniciada.
-Como não?! Onde já se viu um truque de desaparecimento sem reaparecimento depois?
-A garota reaparecer no fim é opcional. As coisas simplesmente não estão sempre dentro da minha esfera de poder.
-Você tem que trazê-la de volta! Ela é minha! – A raiva começava a aflorar nas faces do rapaz e as pessoas a sua volta temiam que ele fosse fazer algum tipo de besteira.
-Você não acha que é um pouco de egoísmo de sua parte? Ela agora poderia estar em um lugar melhor, e mesmo assim, sem pedir sua opinião, você a quer de volta. Quer que eu a arranque de um lugar que talvez seja onde ela pertence de direito para voltar a esse mero mundo. Como eu disse, ela voltar é opcional.
-E eu quero ela de volta. Pronto, tem a sua opinião seu maricas. Agora traga ela de volta!
-A escolha não é sua. É dela.
-Ela deve estar num alçapão embaixo do palco não é mesmo? Ana! Ana! – Ele gritou. – Se você pode me ouvir grite de volta! – Silêncio. Incredulidade. Raiva. – O que você fez com ela! Traga ela de volta! – Sem perceber que estava se repetindo e assustando uma boa parte das pessoas à sua volta ele continuou a inquirir.
-Não acredita em mágica meu caro? Ela está nos olhos de cada um de nós. Procure-a!
E com outro rodeio desapareceu. Só a capa restava no lugar onde antes estava. E George desconsolado destruiu metade das mesas do salão até um gerente chegar e perguntar o que estava acontecendo. Quando questionado sobre o paradeiro do tal mágico o gerente só pode dizer: “Do que você está falando? Nenhum mágico se apresenta aqui”. No caminho pra casa George viu de relance alguém que muito lembrava sua namorada andando de mãos dadas com uma figura que lhe pareceu familiar, mas que não tinha exatamente certeza da onde o conhecia. Talvez se vestisse um fraque. Naquela noite ele teve pesadelos com pombas e cartas de baralho, e uma parte particularmente assustadora onde caía dentro de uma escura cartola sem fundo.
Acordou pensando ser quinta-feira. Ligou a T.V. enquanto preparava café da manhã. Um comercial sobre um cereal estava passando. Tinha um brinde dentro da caixa, todos os cereais têm um brinde hoje em dia. Este tinha um anel mágico que supostamente revelava mensagens escondidas. Parando pra pensar ele pensou que seria bem legal ter um anel mágico. Se virou para perguntar à sua namorada o que ela achava mas parou no meio da frase quando percebeu que ninguém estava escutando.
All Hail Queen Bee And Baby Duck
Sofrerei as consequências por minhas escolhas sem arrepender-me de nenhuma, minhas convicções estão acima dos pudores a mim impostos, que outro se envergonhe pois, por ser tão previsível e palerma! São muitas pedras no meu caminho, muitos espinhos para atravessar, muitas batalhas para um só homem. Ainda que esse homem seja eu, soberano do que não é, nunca foi e nunca será. Que as provações caiam ante minha persistência tal quais as árvores sucumbem ao laborioso lenhador.
Mas mesmo eu, que sou teu, não posso conter-me. Pois tú senhora, és a maior provação à que me propus. Que a ira dos deuses caia sobre meus ombros, a aceitarei de bom grado, mas que não me permeie com dúvidas alimentadas por teus belos lábios. O perigo vindo da boca de uma rapariga há de fazer tremer pois não até mesmo o mais turrão dos homens. Se a mera visão de tua silhueta me manda de volta à época em que era feliz, que efeito não terá em mim o som de tua voz? Mesmo que me diga "Odeio-te tanto quanto possível, és a mais vil criatura na face desta terra" a mim entoará poemas de exaltação aos primaveris encontros às escondidas. Pois não reconhecerei perfídia em tão meigo timbre, e nem enganação em tão serena face. Pois és tú o maior medo que guardo em mim. E fará-me correr feito criança grande se assim desejares.
-O que você está fazendo? - Perguntou o companheiro de quarto com uma expressão confusa ao supreender o mancebo em suas roupas de dormir gesticulando pelo quarto.
-Ensaiando. É uma peça da escola.
-E eu nem sabia que você fazia parte do grupo de teatro?
-Nem eu.
-E como se chama?
-Eu? Como você não sabe? A gente mora junto faz meses já, você realmente deveria começar a prestar atenção nas pessoas...
-A peça! Eu sei como você se chama. - Interrompeu ele.
-Ah!"Óde à Queen Bee e Baby Duck".
-Baby Duck?! Quem diabos se chama Baby duck?
-Eu. - Silêncio.
Thoughts Of A Dying Atheist
A surpresa a qual me referi não é pela ausência do pequeno border collie que alegrava minhas tardes de domingo, mas sim pelo fato de que eu realmente não quero morrer. Nunca pensei na minha vida como algo que se esvaneceria pouco a pouco, no fundo eu sempre soube que eu iria morrer com um estrondo. E antes de me arrepender por algo que eu fiz também. Mas me apego feito um covarde à cada molécula de ar, inconscientemente imóvel na frente do meu assassino. Isso é deprimente. Em mais de um aspecto. Quando você passa quase toda a sua vida se dizendo quando acorda que esse poderia ser o último dia, preparando-se para morrer a cada amanhã que chega, você certamente espera uma certa apatia nessa hora. Acho que ela está atrasada. Ah! Aqui está ela.
Bem, acho que não há como evitar. Nunca tive nada então não tenho que me preocupar com testamentos. Que alívio, eu não consigo lembrar do nome de ninguém que mereça nada. Parece que hoje foi o dia errado pra destratar as minorias étnicas. Bem feito pra mim. Espero que eles tenham plástico na vida após a morte. Por que? Porque se existir plástico na vida após a morte significa que há uma vida após a morte, o que seria mais interessante do que simplesmente ir dormir e não acordar. Dormir com os seus miolos pintados numa parede. Que a eterna danação caia sobre os meus ombros então. Desde que haja plástico. Foi uma péssima vida. Definitivamente péssima. Exceto por...
Ela me vem à cabeça, ouve-se o disparo, eu desviei. A bala encrustada na parede na altura onde a minha cabeça estava segundos atrás é o único lembrete de que ali ouve um confronto depois que ambos corremos, eu e meu ex-pretendente à assassino. Ele corre para fugir das autoridades, e eu corro para fugir da miséria que a minha vida se tornou desde que eu a abandonei. Ela vai me aceitar de volta, com certeza. Quantas pessoas podem dizer que desviaram de uma bala só por um momento a mais em sua compania?
Shadow
- Já aconteceu tanta coisa. Parece que uma vida inteira já se passou e eu nem cheguei aos vinte ainda. - Silêncio. - Eu estava me lembrando das coisas que eu fiz até agora. Acho que deveria ter feito mais, mas estou tão cansado, parece que me exauri ao máximo só para alcançar esse ponto. Irônico né?
Para um observador menos atento os detalhes passariam despercebidos. Porque esse é a definição de um observador desatento, senão não deixaria passar detalhes como este. Uma brisa passou, desarrumando o cabelo do rapaz, consequentemente o da sombra também, enquanto sua expressão mudava para uma de entendimento ao mesmo tempo em que os lábios da sombra se mexiam de forma compassada, dizendo algo que ninguém mais ouviu.
- É. Eu pensei nisso. Lembra daquela vez em que eu quebrei a perna? Você não teve culpa, eu me lembro. Um acidente que poderia ter sido evitado se eu tivesse dado ouvidos a você. Sinto muito por ter te feito ficar em casa tanto tempo. Mas se serve de algum consolo, eu também fiquei entediado. E o natal que eu arruinei porque estava possuído por satan? - Três segundos se passam e uma risada ecoa pelo ar morno. - Eu sei que não era satan, era só um resfriado. E eu sei que não era ectoplasma o que foi parar no bolo de nozes quando eu espirrei. Eu tinha acabado de terminar com aquela garota que eu conheci no supermercado lembra? Satan foi culpa dela. Me fazendo esperar do lado de fora enquanto chovia como se fosse a continuação do dilúvio. - Ele se cala e se contenta em olhar adiante e acenar positivamente com a cabeça a cada alguns instantes em sinal de concordância. - Você tá certa. Eu mereci aquilo.
O sol mergulhava em direção ao horizonte e alongava todas as sombras, não só a dele, pelas paredes. Mas ele tinha certeza que era o único que se sentia esticado também. Era engraçado, fazia cocégas. A lua apesar de bem menor também já se fazia visível e equilibrava o céu evitando que ele simplesmente pendesse para o poente. Se sentia grato por isso. Se o céu pendesse ele talvez virasse ao contrário eventualmente e todos os mapas teriam de ser refeitos. Os sons da rua, apesar de baixos, ainda podiam ser ouvidos claramente e uma buzina não intencionalmente deu a largada para um pensamento que ele gostaria de definir como simultâneo.
- Você já percebeu que eu sempre acabo estragando tudo? - A expressão dele mostra a falsa ofensa claramente enquanto ele vira a cabeça num movimento lento para fitar a parede. - Eu não queria sinceridade. - Diz num tom de voz quase apático. - Mas continuando. Só parece que não importa o quão duro eu tente eu sempre faço a escolha errada. A garota do supermercado. A vizinha do quarto andar. Aquela ex-colega de escola que tinha uma queda por mim à eras atras. Talvez eu não tenha nascido pra acertar com as mulheres. O que quer dizer que você não vai ter bebezinhos sombras tão cedo. - Outra pausa para um risada forçada. - É. Eu sei que você não quer isso. E não importa o quanto você me diga eu sempre vou discordar. Do mesmo jeito que você sempra vai falar que eu fico péssimo com meu terno cinza, mas eu gosto. Preto combina com você, não comigo.
Um tom avermelhado tingiu o céu e ele subitamente ficou com fome, mas sem motivo aparente. Os últimos raios de sol se espreitavam por cima da borda do planeta e ambos sabim que a despedida era inevitável. Mais tarde ele se perguntou por havia dito o que disse a seguir mas não chegou à nenhuma conclusão digna de nota.
- Me alegra saber que ao menos tenho você. Uma hora eu vou acertar e aí tudo vai ficar bem. Você vai ter um monte de bebezinhos sombras correndo pela sombra do playground e eu vou ser o padrinho de todos eles. Garotas vêm e vão, mas sua sombra é única. Até mais, te vejo de manhã.
Ele se levantou e não entendeu porque sua sombra não fez o mesmo. Ela ficou parada por uns instante e olhou-o como se pudesse ver através de sua nuca. Parecia chorar mas é difícil dizer. No outro dia ela não estava lá. Quando ele perguntou por perguntar à sombra da luminária da cozinha onde ela estava descobriu que tinha fugido durante a noite. Ele se sentiu traído da pior maneira possível. Um homem sem sombra não passa da sombra de um homem.
Find yourself
Tenho uma faca no meu bolso. Proteção você diz. Más intenções talvez. Os dois quem sabe. Na verdade, mais uma questão de comodidade. Nunca consigo abrir as embalagens de balinhas de goma com formatos engraçados, posso garantir que elas foram feitas para que qualquer pessoa com o mínimo de pressa falhe miseravelmente na tarefa de abrí-las sem desperdiçar metade do conteúdo pelo chão. E eu sempre estou com pressa para abrí-las. E eu nunca quero desperdiçar metade do conteúdo pelo chão. As pessoas pisam nele.
Algumas moedas tilintam no meu bolso. Eu gosto do som. Nenhuma delas é válida no entanto. Não como dinheiro pelo menos. Acho que elas valem o,ooo3 centavos de níquel se eu derretê-las. Mas eu não tenho meu isqueiro comigo. Elas são mais utéis inteiras e em formato de moeda. Nunca se sabe quantas fontes dos desejos você pode encontrar por aí não é mesmo. Você não precisa de dinheiro quando você tem desejos. Dez cruzados novos por um unicórnio é um ótimo negócio.
Por via das dúvidas estou com um mapa. De New Hampshire. E eu nem sabia que tinha um Old Hampshire. Mapas são importantes para duas coisas. Não se achar e se perder. Ou será que era o contrário? Tomara que eu ache o xis onde está enterrado o tesouro. O tesouro não importa, mas o xis me interessa bastante. O motivo do xis ser mais importante é simples. O xis demarca o lugar. O fim da viagem. Quando não se tem objetivos, o poder de estabelecer objetivos é essencial. Então, quando eu tiver o xis, minha jornada para a jornada infinita chegará ao fim.
Block
Enquanto pensava no que fazer com a fatia de tempo que tinha acabado de ganhar já que abandonara o projeto genial que tinha começado trinta e dois segundos mais cedo, um outro projeto genial acabava de chegar à sua cabeça e ele mais uma vez abriu o editor e fitou o branco da tela. Ele ouvia gritos para que ele fechasse o maldito programa dentro da sua cabeça e logo depois resolveu obedecer por que era um pouco assustador. A idéia não era boa mesmo. Convencer-se foi mais fácil do que pensou. Ele ouviu uma voz do lado direito de sua cabeça, uma voz que lhe lembrava de casa. Uma voz familiar de mulher que ele há muito queria ouvir. Que diferente das críticas incessantes dentro de sua cabeça era ao menos real.
- Hmmm. Parece que você não está fazendo muito progresso.
- Na verdade eu estou sim. - Pausa. - Eu só estou testando quantas vezes eu poderia fechar o programa antes dele travar, sabe como são essas coisas. Muitas idéias, não quero começar antes de ter certeza que não vou ser prejudicado por uma falha técnica.
- Sei. - Ele pensou sobre o quanto aquele tom de desdém o incomodava. - Eu acho que você está experimentando um caso agudo de bloqueio de escritor.
- Sabe, isso é engraçado. - Ele ri um pouco. E depois se pergunta porque está rindo. Sente a presença e o hálito quente perto de seu pescoço enquanto a voz ria de uma maneira muito mais elegante que ele mesmo. - Isso não é exatamente possível por dois motivos. Primeiro, eu estou tendo um monte de idéias. E segundo, eu não sou um escritor.
- O bloqueio só te impede de escrever, não de ter idéias. Você sempre teve idéias. Nunca soube o que você pensava. - Ela sorriu. Ele sabia mesmo sem ter olhado, quase como se os sorrisos fizessem barulho. Ele ainda não havia tirado os olhos da tela. E inconscientemente havia re-aberto a ferramenta mais utilizada nos últimos dias. - É o que você faz melhor, por que você não consegue mais fazer?
- Não é mais como antes. Falta algo.
- Você tem tudo o que precisa, não falta nada. Seus dez dedos, um computador, algumas idéias que não fariam sentido pra maioria das pessoas e até uma caneca com café.
Ela apontou e ele pôde ver no canto do olho somente um lembrete da pele dela e se amaldiçoou por ter feito isso no mesmo momento. Sabia que agora a conversa havia acabado. Respirou fundo e apoiou o peso no encosto da cadeira que respondeu com um rangido estridente muito alto em relação ao silêncio acentuado pela falta de conversação. Ele girou no acento e vislumbrou o lado que antes estava às suas costas com um olhar pesaroso. Se sentiu um caco e disse para as paredes.
- Antes eu tinha você.
Missing
E você acha que aquilo que você perdeu está perdido pra sempre e nunca mais vai voltar a ver aquela adorada coisa. Mas mesmo assim as vezes elas aparecem de volta, e você esquece delas depois de um tempo. Se não fosse pelas coisas perdidas acho que tudo ficaria meio monótono. Alguém sempre sente falta de alguma coisa. E as vezes essa coisa é uma pessoa ou alguma outra coisa que não deveria ser tratada como coisa.
Quando você perde uma peça de um quebra-cabeças ele fica inutilizado. Nunca mais vai ser completo e coisas assim. Mas eu monto eles mesmo se estiverem faltando peças. Não me incomoda. A falta de peças não te impede de montá-los, só de terminá-los. E a graça é montar. E assim que você aceita que vai existir um ou dois buracos na imagem, eles se tornam tão completos quanto qualquer outro.
-"O que você tá fazendo?"
-"Montando um quebra-cabeças."
-"Ah que legal! E é que figura?"
-"Paris à noite. Só que com uma cratera perto do Arco do Triunfo. É meio pós-apocalíptico."
Hollow
O buraco que o amor corrói dentro de suas entranhas é o preço da ilusão que te mantêm vivo por tanto tempo. E quando isso vai embora você faz a escolha mais importante da sua vida. Com o que pretende enchê-lo? Faz toda a diferença do mundo. A única coisa que não pode ocorrer é simplesmente deixar pra lá. Ser oco. Você nem ao menos é uma pessoa desse jeito. Mas de novo, por que alguém iria querer ser uma pessoa completa pra começo de conversa?
Showtime
Talvez se tudo fosse em outra ocasião, ou se as coisas tivessem transcorrido de outra forma, ou ouso dizer, se eu não fosse eu, eu teria uma outra opinião quanto ao assunto. Mas quero que saiba que nunca faltei com a verdade. E que realmente teria aberto mão de tudo que possuo e de tudo que reconheço como sendo meu por um pouco mais de tempo. Pela possibilidade de tê-la ao meu lado.
Milhões de vozes me dizem para fugir e não posso renegar o que eu sou. As pessoas devem mudar ou morrer. E você me mudou, tudo que era 'eu', tudo que respirava 'eu' se equilibrava perigosamente perante sua presença. Me impedi de aceitar a queda. Vou-me embora antes que não mais possa me reconhecer. Antes que morra.
Aqui me despeço. Como um garoto assustado que reneguei à anos mas que ainda assombra-me com sua humanidade em esparsas ocasiões. Eu que sempre te olhei como quem olha um precípicio. Com um senso de profunda admiração por sua beleza natural, e uma pitada de um sentimento muito parecido com interminável terror por sua grandeza. Adeus, raio de sol...
Farewell
Isso que um adeus significa. Isso é o que o adeus significará. Continuarei ensaiando enquanto precisar. Angariando coragem aos poucos para a ocasião. Se eu disser. Não. Quando eu disser.
Running
Mas o que seria do mundo sem as coisas fúteis que te fazem esquecer que não há nada com o que se importar que não seja fútil. E o que é um homem sem algumas cicatrizes e dores para se lembrar além de um manequim? Cultivo minhas dores com o maior carinho. E as visto toda vez que necessário. E se meu pé me impede de te seguir, também me impede de fugir mais uma vez.
Last Time
Vendo que o volume não havia igualado a importância da afirmação ele permitiu-se relaxar e voltou a pensar na sequência de fatos que deveriam ocorrer para que fosse claro a desistência e como obtê-los de maneira satisfatória.
-"A última vez. Ou eu desisto dela de uma vez por todas ou eu nunca mais penso em fazer tal sacrilégio." - Repetiu mais uma vez resoluto. Mais baixo dessa vez. Todo cuidado é pouco e uma decisão dessa importância não deve ser espalhada aos quatro ventos.
Estranho como ele não conseguia mais lidar com essas situações do jeito que sempre lidava. Não deveria existir uma última vez para se desistir. Nunca houve. Desistências sempre foram e sempre serão definitivas. Estava se tornando em tudo que sempre disse que nunca se tornaria. Essas ocasiões devem ser tratadas de forma racional e não feito um estudante da sétima série com dor de cotovelo. No fundo ele queria desistir e esquecer. E mais fundo que isso ele queria que não acabasse nunca. Essa sempre foi a razão de ele dizer essas palavras. Não mudou nenhuma vez. Em nenhuma das dezessete noites em que ele deitou-se de bruços e ficou pensando nas pequenas coisas que certamente impediriam que aquela vez fosse a última.
I never did you any good...
-“Isso é bom... muito bom.” – Disse ela sem graça. Fingindo não ter olhado insistentemente para o ferimento.
-“Eu tive um tempo pra pensar. Em tudo que eu deveria pensar sabe. Consegui definir tudo que eu tenho feito de errado e decidi que não vai acontecer de novo. Ficar parado, sozinho com seus pensamentos é perigoso. Pode te levar a fazer as decisões erradas, mas tenho certeza de que não é o caso. Ousaria dizer até que foi melhor assim.”
-“Acho muito digna essa sua atitude. Querer melhorar é o primeiro passo pra...”
-“Adeus.”
Ela pára no meio da frase e ele se afasta mancando. Ele mudou. Mas nem tanto quanto possa parecer. Talvez as coisas sejam como elas são. Como deveriam ter sido. E serão de agora em diante.
Cold day, baby
Se mexeu no assento e colocou as pernas mais perto do corpo, quase em posição fetal, para tentar espantar o frio. Não conseguiu. Um casal de namorados estava no banco à sua esquerda e ele olhou meio de lado para eles, abraçados, como se o frio não importasse tanto. Diziam que o amor te deixa burro, e pelo jeito deve esquentar também. Amor é uma coisa estranha, ele pensou. Não que já tenha tido um. Quer dizer, já. Mas os únicos que ele conhecia eram o amor próprio, os amores perdidos e os amores de dedos cruzados. Normalmente não sentia falta. Mas tinha que admitir. Estava frio como o inferno.
Happy Valentines Day
Realmente estou apaixonado. Também não quer dizer muita coisa, exceto que eu talvez me curve mais baixo do que nunca se a situação pedir. Contra a vontade e engolindo o orgulho mas curvado. Mas também, não vou me enganar. Não daria certo. Seria bom demais pra durar, e eu sou velho demais pra ter sonhos como esse.
Enquanto ouço o jazz abafado da cafeteria, entrecortado pelas vozes altas de seus consumidores satisfeitos, eu penso que certamente teria sido melhor me enganar. A realidade é um saco. Comendo minha superfaturada refeição percebo que não sei que diabos é blueberry. E bebericando o café amargo descubro que ou eu amo essa mulher mais do que qualquer outra coisa, ou eu tenho sérios problemas psicológicos. Pena, por um momento tive esperança.
Really?
E as pessoas estão por aí procurando por esse alguém. O que torna o fato de achar esse alguém e perder algo muito triste. Como se você tivesse ainda menos peças do que começou entende? Sua alma reconhecendo seu contraponto em outra. Essa é a definição de alma gêmea. O que acontece quando a outra alma morre?
Estou morto. Porque ela está morta. E sem ela nada é familiar. Sinto que estou desaparecendo.
-Auto piedade não é muito sua cara. - Digo depois do discurso entediante do bêbado que mal conheço. Talvez auto piedade seja a cara dele.
-Eu estou cultivando sabe. Pra poder se tornar aversão e autodestruição. As garotas gostam disso.
Ele diz isso e toma mais um gole da cerveja em sua mão. Eu olho pra frente em direção ao balcão e deixo o silêncio reverberar em meus ouvidos. Um bar vazio numa tarde de domingo. Esse cara apareceu depois do meu sétimo Brandy. Ele sentou aí e começou a falar sobre coisas. Pergunto quando ele acaba de tomar um gole excepcionalmente longo:
-Mesmo?
-Claro! Como você não sabe disso?
Não sei o por quê, mas me sinto envergonhado.
Shrooms
E nas nuvens que pareciam rasgos no firmamento vejo a mensagem "Terra do contrário". Não me parece promissor. Vejo uma figura de costas ao longe. Corro até ela e percebo que cheguei rápido demais apesar da distância, a criatura estava andando de costas. Era baixa o suficiente pra passar abaixo do meu braço se quisesse, embora achasse que não seria de sua intenção fazê-lo. Trajava uma gravata por dentro da camisa desabotoada e as cuecas por cima das calças. As meias cobriam os sapatos de veludo despareados. Era muito parecido com um velhinho, mas jovial o bastante pra ser confundido com uma criança. Ele me percebe e fala:
-"Adeus."
-"Onde vai?" - Questiono-o.
-"Para onde eu estou, ou talvez pra onde você está."
-"Eu estou aqui."
-"Então você também está aqui. Mas você não parece estar aqui porque aqui é onde você deveria estar. Você parece estar aqui porque não queria estar." - Tomo um momento para absorver a mensagem confusa e retruco apontando para as nuvens.
-"Estamos na terra do contrário?"
-"Absolutamente não." - Diz com um largo sorriso faltando dentes.
-"Então não estamos na terra do contrário?" - Isso tudo é confuso demais.
-"Absolutamente certo. Essa não é a terra do contrário. Tem algum lugar onde você não deveria estar?"
É, vai ser uma longa tarde.
Prisma? Espectro? Qual o coletivo de cores?
“Você precisa descansar.” – Disseram-no. Ele não descansou. Nunca descansou antes. Não antes de conseguir tudo o que queria. Desde pequeno tentando provar alguma coisa. Sempre foi um garoto estranho. Atrapalhado, do tipo que abre portas pro lado errado e tromba em latas de lixo. Quem diria que aquele garoto seria o partido mais cobiçado com 32 anos, dono da mais renomada revendedora de arte do hemisfério sul do planeta. Quinhentas galerias espalhadas pelo mundo. Tudo começou com um só quadro.
Quando estava na escola ele pintava ocasionalmente. Nas aulas de arte. Nada mais que natureza morta e coisas assim. Até que teve um impulso pelo impressionismo. Não me entenda mal, o impressionismo não é bem arte. Um chimpanzé míope faz um quadro tão bem quanto aquele esquizofrênico do Pollock se tiver guache o suficiente. Tudo que o garoto fez foi escolher as cores, e dirigir com o carro do pai por cima. Eu chamo de loucura. Eles de genialidade. Por causa das cores. Relações inexistentes e sinapses ilusórias entre tons de amarelo? Marcas de freada e óleo de motor. Mas o garoto realmente tinha um olho pra cores.
Escolher cores não é bem aquilo que se faz quando se compra aqueles livros de colorir. Alguns chamam de bom gosto, outros decoram uma tabela de o que combina com o que. Ele simplesmente olhava. As cores, dizia ele, sempre me pareceram vivas. Esse pensamento o levou longe. Sua visão de verdes brilhantes, olivas ocreados e coisas assim renderam o título de conosséur de arte moderna. E milhões
Com 22 anos sentiu o peso do estereótipo e namorou sua primeira super-modelo. Ele realmente gostava de mulheres. Só era atrapalhado demais pra fazer algo. A comunidade homossexual o acusou de tentar esconder sua natureza. Virou polêmica, ganhou as manchetes. Tornou-se um garanhão e trocava de super-modelo com a mesma freqüência que as super-modelos trocam de roupa e vomitam o almoço. Parece ridículo, mas virou o bad boy da indústria de arte. E quando alcançou o topo do mundo, jovem o suficiente pra fazer tudo de novo... Me desculpe... Mas é engraçado. Hahaha... Desculpa, sério.
- O que está fazendo? Primeiro você me conta minha própria história, ai começa a rir quando VOCÊ entra na história. Deve ter um bom motivo doutor.
- Obviamente. Eu fui à faculdade menino-gênio. A ironia, é que justo num check-up de rotina. Seu mundo acaba. Você se sente invencível do alto do seu Bugatti parado ai em frente e da super-modelo da semana. Tudo isso conseguido graças a esse seu talento nato de ver as cores de uma maneira completamente diferente das outras pessoas.
- E o que tem de engraçado nisso? É um dom. Uma forma de comunicação com os deuses da arte.
- Mantenha-se com as pinturas, prosa não é seu forte. O engraçado é que esse tal dom que você cita. É um tumor. Não sei como deixaram passar tanto tempo. Percepção alterada, visão noturna fraca, ataxia... Tudo indica tumor cerebral. Seis centímetros. Córtex visual. Inoperável. Você provavelmente não dura mais um dia.
-...
-Compreendo o que você quis dizer. Tenho a solução pra você. Deveria ligar a TV no canal 15. Casablanca. Arte de verdade. E em preto e branco.
Niver? De novo?
Di, não és nada mais do que uma pilha de carbono inexoravelmente se movendo rumo ao total esquecimento. Isso é um elogio. Ser finito é uma benção. Mas apesar da finitude, não duvide da validade dos seus feitos aqui. Porque aqui é tudo que existe. Sofra as mudanças que não permitirão que se reconheça na velhice de bom grado. E aceite a solidão de se tornar um homem.
Um brinde aos amores perdidos e encontrados, aos amigos distantes e aos deuses mortos. E que você dê ao diabo o que ele merece todos os dias daqui pra frente. Feliz aniversário Di.
Worthless
O dito e falsamente assumido valor das palavras está em quem as ouve. A ilusão que elas trazem. Seja a ilusão de eloquência, de apreço, de aceitação. Essas ilusões constróem sua rede social. E mesmo quem despreza esse tipo de envolvimento se esforça ao mínimo pra cumprir seu papel como força motriz dessa ilusão. Senão, porque diabos escreveria? Porque expressar-se por um meio que possa ser interceptado por quem o despreza? Talvez superior seja uma alegoria. E talvez inferior seja um estado de espírito. E talvez cidadãos das profundezas sejam crianças assustadas num mundo de adultos.
Er.....
E tudo isso causado pelo que? Não sei, não vejo ela à dois dias.
Id
Foi aí que eu percebi que não tinha acordado ainda. E quando eu finalmente acordei, não era eu. Não era eu quem eu queria ver no espelho. Mas também não queria ver nenhuma outra coisa. Talvez não quisesse ver nada. Nada além do necessário. Se ao menos pudesse escolher o que chega aos meus olhos. Seriam só os seus olhos dignos de tal feito.
Ligação anônima. 19:35. Quarta-Feira. Polícia local.
Senhor, o senhor está sob efeito de algum tipo de narcótico ou substância que possa alterar sua percepção?
Claro! Tem um maldito E.T. na p**** do céu!
Desistente
Poderia dizer que não estou desistindo dela, só avançando numa direção contrária. Mas seria mentira, e eu desisti de me enganar. Talvez eu secretamente goste de destruir minhas aspirações. Só pra poder vê-las ir embora. Como se desistir do que você poderia ser lhe trouxesse um bem maior do que o que você poderia ser de fato. Ou ainda eu esteja só fazendo tempestade num dedal e realmente não esteja desistindo. Só não me esforçando pra nenhum objetivo em especial.
Limitar-se não é fraqueza, é um modo de adequação. A moral é uma forma de repressão da mesma forma que a gravidade é uma forma de repressão. Te impede de voar livre, mas também te impede de flutuar sem rumo pra morte certa. Você não pode ficar feliz pelo fogo esquentar sua comida e irritado por ele queimar seu dedo. Escolha um lado. Antes que não tenha escolha nenhuma.
Amnésia
Também me esqueci do que acredito. Faz muito tempo. Minhas doutrinas não duram o suficiente. Me esqueço delas no primeiro sinal de inconsistência fundamental. Talvez se eu me esforçar um pouco, acho que envolve dor ou coisa similar. Me pego criando novos dogmas enquanto ando numa rua qualquer. Me esquecerei deles antes de anexá-los no grande livro de regras ilusório que rege minhas opções e opiniões.
Porque a vida my dear friend, é esquecer do que lhe é inconveniente. Ignorar o que lhe é desagradável. Divinizar o que lhe é prazeroso só pra poder esquecer e fantasiar o quanto divino era tal coisa. Lembre-se de disso antes que eu esqueça. Ah, quer saber? Esquece.
Answers
As respostas estão aí. Em cada canto do mundo. E por que não estariam? Cada imperfeição na parede é a solução de algum impasse mundial. Cada força atuante num corpo caindo podem ser todas as variáveis que precisamos pra explicar a origem da vida. Só não as encontramos ainda porque não sabemos pelo que procurar. As respostas não são respostas a não ser que haja perguntas. Sem perguntas as respostas são só padrões de poeira e manchas de copos em mesas de madeira. É frustrante saber que no limite da sua percepção, lá no cantinho da sua visão periférica pode se esconder a solução pros seus problemas e não poder acha-la porque ela some toda vez que você vira sua cabeça pra prestar atenção. É uma idéia ridícula. Como esconder o Kilimanjaro atrás de um abajur.
Voyeur
O que um maníaco por controle faz quando encarado com a própria impotência? Quando a megalomania e senso de superioridade são jogados fora como que atirados pela janela sem motivo. Quando não se reconhece mais nada além da própria sombra, e tudo o que se pode fazer é esperar e observar. Bio-espectador. Audiência da própria vida.
The world is on mute
Yellow brick road
No fim das contas, todo mundo está fugindo de alguma coisa. Como se foge é diferente. Do que se foge é diferente. Mas todo mundo foge de alguma coisa. Eu fujo o tempo todo. Fujo de mim, fujo dos outros, fujo até das fugas as vezes. E quando eu menos espero os copos estão se bebendo sozinhos e eu estou bem na beirada da minha pequena ilha indolor, criada para minha própria segurança. Empoleirado ali, abismo de todos os lados, em meio palmo de terra firme. Então eu olho para o precipício e o precipício me olha de volta. Ele diz: - Pula! - E eu penso em pular. Desistir, parar de correr. E quando eu me inclino pra frente e movo o pé em direção ao vazio, eu sempre acho um outro degrau mais abaixo. Os precipícios no fim das contas são precipitados demais. Sempre se pode escolher a estrada mais longa.
Colorblind
Minha vida tem se desbotado devagar de uns tempos pra cá. Perdendo a cor. Mesmo o amarelo mais forte parece queimado e esgarçado, como se tivesse sido consumido por coisas que consomem cores e que eu não consigo nomear agora. Elas não têm mais vida. Minhas palavras todas soam iguais aos meus ouvidos. Como se eu estivesse contando a mesma história o tempo todo. Os elogios parecem falsos e as injúrias parecem chacotas. Até as próprias chacotas ganharam ares de pastelão.
A pressão não é mais tão forte, e mesmo se fosse eu não ligaria. Meu universo se resume a um monte de “não estou a fim” e “depois eu faço”. Falta aquela vontade de cada lufada de ar que entra em meus pulmões. Vontade. Não me sinto à vontade pra falar disso. Não tenho me sentido à vontade com nada ultimamente. Não tenho vontade de nada ultimamente. Espero por esperar. Faço por fazer. Por costume. Por conveniência não. Porque nada convêm mais.
A apatia que pintou meu mundo de cinza e tons pastéis deve ser caracterizada como o mal do século. Ou no mínimo da década. Não consigo mais me apaixonar a cada esquina. As vitórias e êxitos não têm mais importância do que as falhas e derrotas. Nada mais importa. Só... Só...
A man got to do what a man got to do
Hobbie = $²?
Imagino com seria se eu tivesse que entregar um livro num prazo bem curto e ai minha inspiração me deixasse. Ou em como eu ficaria escrevendo noites a fio quando a inspiração batesse e as pessoas me perguntariam se eu não estava trabalhando muito por causa das olheiras na minha cara. Penso também nas quantidades massivas de café que eu tomaria, porque é de café que os escritores se alimentam. Essa profissão tem toda uma atmosfera que me agrada. O café, as noites em claro, os bloqueios mentais, o rótulo de vagabundo. É uma pena que é inviável. Quem sabe eu não escreva um livro. Mas não como profissão, como hobby. Não quero perder o meu prazer em escrever transformando isso em ganha-pão. Seria triste demais. O que os escritores fazem como hobby?
Instant Generation
Nós temos os messengers instantâneos. E séries legais. E a popularização de muita coisa. E não temos uma grande guerra. Já é um começo. Temos gatos fluorescentes, e anti-alérgicos também. E video-games. E redes sociais com amigos de mentira. E temos vidas de mentira. E pessoas de mentira nas redes sociais de mentira. Tenho certeza que tudo isso um dia vai valer pra alguma coisa.
E quando eu ficar velho, e as gerações passarem, vou achar defeito nos avanços delas também. E me gabar que na minha época as coisas eram baratas e que as pessoas se conheciam. Vou reclamar que as pessoas são rasas, mesmo eu sendo tão fundo quanto uma colher de chá.
Rumo? Quem precisa disso?
Contemplai ó meros mortais! O vasto império construído com fugas e esconderijos! Poeira até onde a vista alcança. Você tem de se orgulhar disso. Talvez eu nunca tenha sido dono de nada, justamente porque tentei demais evitar que alguém me dominasse. E nessa brincadeira orgulhosa, minha vida veio e passou. E eu acenei sorrindo enquanto ela passava ao meu lado. Viajando de cidade em cidade. Sem um nome fixo, sem um endereço fixo, sem uma cama fixa. Sem rumo, indo pra onde meu nariz aponta. Tentei levar uma vida sem preocupações, e errei por muito.
Band-aids
Ás vezes é estúpido ver um marmanjo com um band-aid colorido. Porque quando você cresce, os ferimentos são diferentes. Você não rala os joelhos, não corta o dedo empinando pipa, não cai da cama. Mas crescer traz ferimentos bem piores. Ferimentos que nem os band-aids curam. Aqueles ferimentos emocionais que se curariam sozinhos se você não os cutucasse. Aqueles que você finge não existir, mas minam sua vida pouco a pouco. Esse tipo se torna freqüente depois de um tempo.
Preferia quando todos as dores se resolviam com um band-aid colorido, um beijo e mertiolate. Quando você ganhava doces porque as pessoas queriam te compensar por ter sentido dor ai invés de reabrir as velhas feridas. Se você se cortar fazendo a barba ou arranhar o braço na rua, coloque um band-aid colorido. Remende-se por dentro. E finja que não dói. Quem sabe a vida não te dá um doce.
Felicidade
-“O que é felicidade pra você?” - Essa foi a hora em que eu me arrependi de toda aquela história de fazer perguntas pra conhecê-la melhor. O problema em se fazer perguntas pra conhecer alguém melhor é o fato de nem sempre ter as respostas pras perguntas que fazem à você. Ela está rindo satisfeita, sabe que eu não vou conseguir me safar dessa, não sem me abrir ou falar algo estúpido. Será que ela fez de propósito? Não importa, eu tenho que responder. Tem só um limite de tempo que você consegue enrolar quando alguém te faz uma pergunta.
A felicidade é uma coisa estranha. Acho até meio decadente. Não quero ser feliz, porque se eu for perco o sentido. Por isso toda essa ilusão de felicidade é inalcançável. Porque se você alcançar, adeus vida. Mas não nego que experimentamos felicidade em doses todos os dias. Ou pelo menos uma vez por ano. Sei lá. Nas coisas pequenas. Na realização das vontades. Não posso dizer isso. Vai parecer inconseqüente e irresponsável. Se eu estivesse rolando no tapete com ela agora ao invés de ficar fazendo perguntas sem sentido, eu com certeza estaria feliz. Meu tempo acabou.
-“Então? O que é?” - Ela perguntou de novo, quanto tempo passou? Dois minutos, talvez três. Ela parece irritada. Definitivamente mais de cinco.
-“Felicidade é poder estar com quem você gosta em algum lugar.” - Finalmente digo.
-“Isso não é de uma música?”
-“Não. Definitivamente, eu me lembraria. Que tal uns beijinhos agora?” - Eu me movo pra mais perto dela.
-“Não até você me dar uma resposta satisfatória!”
-“Ah, você sabe que você quer. Vai te deixar feliz...” - Felicidade... Por enquanto.
Are you high?
Não é normal encontrar pessoas nos telhados de prédios. A não ser quando elas querem se matar. E eu não quero me matar. Não tenho intenção nenhuma de mergulhar na calçada. Alguém poderia morrer. Talvez até eu. Mas mesmo assim, você me acha aqui. Com as mãos nos bolsos, um anel no dedo e uma pergunta. A pergunta é: “Porque diabos esse anel está no meu dedo?”. A resposta eu não sei, porque se eu soubesse eu não estaria aqui em cima congelando até a morte.
O problema com os anéis, é que eles costumam significar coisas. E nem sempre as coisas têm significado. Desde que esse maldito anel achou o caminho pro meu dedo, tudo mudou. E eu só posso culpar a mim mesmo. A idéia foi minha afinal de contas. Grande cena sabe. Lágrimas e tudo mais. Uma platéia, um sim e BAM, estou noivo. Aí que entrou o maldito anel. Outro problema dos anéis é mais específico, eles não são muito baratos.
O sol começa a descer e o céu fica laranja como aqueles peixinhos dos comerciais de comida pra gatos. Como se os gatos comessem peixes dourados o tempo todo. O sol parecia maior, como a porta de um forno aberta, com toda aquelas coisas incandescentes e laranjas. Daria uma ótima visão pelo meu retrovisor, se eu tivesse um retrovisor comigo. E eu estivesse fugindo. O que começa a ser uma boa idéia. O motivo é, como já disse antes, a mudança.
Um terceiro problema dos anéis, pelo menos os que significam algo, é que eles mudam as pessoas. E como os relacionamentos são compostos por pessoas, bem, você entendeu. Pense nos relacionamentos como uma daquelas coisas laranjas incandescentes com que fazem os anéis. Elas são maleáveis e cheias de possibilidades. Só que as coisas incandescentes são, como posso dizer, incandescentes. Incandescente não é um adjetivo bom. Então se usam ferramentas, por que as coisas são incandescentes demais pra se usar as mãos, pra transformá-las em anéis e não só em varetas. Mas ninguém pergunta se talvez as coisas incandescentes querem ser anéis ou varetas. Tenho certeza que algumas gostariam de ser astronautas ou coisas do tipo. Então, os relacionamentos são como as coisas incandescentes, e os anéis são as ferramentas que transformam os relacionamentos em varetas. Ou qualquer outra coisa.
Os relacionamentos deveriam sempre ser inesperados e imprevisíveis. Porque os relacionamentos são relativos. A partir do momento em que se define como um relacionamento vai ser, ele vira um contrato. Uma mera obrigação. Eu não gosto de obrigações. Ninguém gosta de obrigações. Eu gostava dela, sabe a garota com a qual eu vou me casar em dois meses. Gostava quando ela não me ligava a cada dois minutos pra me dizer algo como “Os convites estão na gráfica.” ou “Você tem que cortar o cabelo antes de se casar”. Meu celular está tocando, melhor me livrar disso. É uma boa queda até lá embaixo. Espero que não acerte ninguém. A gente era imprevisível, eu e ela. Agora nem tanto, ela só fala sobre o casamento, e eu só concordo com tudo.
Não tínhamos hora ou lugar, só vontade de se ver, então nos víamos. Agora só a vejo nos fins de semana e olhe lá. Só queria deixar ela com os olhos brilhando mais vezes, como costumava fazer. Quem sabe se eu aparecer no trabalho dela com um terno cor de rosa e um buquê de flores e chamá-la pra almoçar na Tailândia? Provavelmente ela vai dizer que está ocupada, e que tem que resolver algum problema com o vestido da dama-de-honra. Aquela gorda, aposto que não acharam o número dela.
Então eu só imagino. Imagino que o resto da cidade é só uma grande fonte dos desejos, e que todas as pessoas lá embaixo estão se afogando na fonte. E que a aliança que me aperta o dedo é uma moeda da sorte, e que vai me conceder um desejo. Então eu me levanto na beirada do prédio, fecho os olhos e jogo aquilo que um dia foi incandescente em direção aos afogados lá embaixo. A parábola que descreveu foi magnífica e provavelmente o conjunto de fatores que interferiram no trajeto explicasse o universo, mas eu não vi porque estava ocupado demais fechando os olhos e desejando que todo o mundo voltasse pra quando eu era inesperado. E também desejei que um dia ela me perdoasse. E decidi que a partir de agora vão ser só céus queimando no meu retrovisor até que tudo volte pro que deveria sempre ter sido.
Mais zeros do que se pode crêr
Ele a viu. E gostou. Muito. Definitivamente uma nota 8. Ele tinha esse estranho hábito de dar notas às garotas que via. E essa era definitivamente uma nota 8. E ainda estava longe. Provavelmente ganharia uma nota melhor conforme se aproximasse. Não era uma regra sabe, mas normalmente acontecia. Exceto aquela vez em que tinha dado 7,86 pra uma garota à uns 30 metros e quando ela estava à três percebeu que era um garoto. Aquilo foi estranho. O que importa é que tinha uma nota 8 vindo em sua direção.
Normalmente as notas variavam entre 1 à 6 quando estava sóbrio. E entre 8 e 30 milhões quando estava bêbado. As notas acima de 6 quando sóbrio eram raras, então tinha que prestar atenção. Ela andava um pouco calma demais em comparação as pessoas a sua volta, como que inafetada do alto do seu metro e sessenta. Era 8,1 agora porque ele era do tipo que gostava de garotas baixas. Já conseguia ver o branco dos olhos quando decidiu que ela era definitivamente uma nota 8,4 por causa dos olhos castanhos mais camaleônicos que já tinha visto. Jurou de pé junto que tinha visto-o mudar de verde pra castanho claro e depois pra amarelo. E quando ela passou por ele, e ele viu a grossa aliança de compromisso no seu dedo-onde-alianças-de-compromisso-devem-ser-colocadas, ele decidiu. Temos um novo recorde senhoras e senhores.
Incoming Call
-”Você poderia pelo menos chorar feito uma menina no seu quarto, debaixo das cobertas. Tá um frio desgraçado aqui.”- Aperto a jaqueta no corpo pra tentar me esquentar. Não funciona. - “E poderia também levantar do tapete.”
Ando até a janela e fecho. Eu não tenho que perder a ponta dos meus dedos por causa dessa situação. Ele se mexe um pouco e sai da posição fetal que estava pra poder me encarar.
-”Ela foi embora.” - Meio óbvio isso não. Parece que tem mais. - “Eu estava apaixonado, e ela foi embora.”
Deixe-me dizer uma coisa sobre esse cara. Ele sempre estava apaixonado. A cada duas semanas ele entra nesse estado e pede pra casar com alguém que ele conheceu na lavanderia ou na fila de um fast food qualquer. Isso era o que ele fazia de melhor, se apaixonar.
-”Sabe amigão, você tem que superar isso, um dia você vai encontrar alguém certo pra você. Eu encontrei a Juliana não encontrei?”
-”Sua namorada se chama Mariana.” - É verdade... Bem, não vêm ao caso.
-”Tanto faz, o que importa é que a Adriana não vai ser a última mulher da sua vida. Recomponha-se, você é um partido e tanto.”
-”Você acha?” - Não.
-”Claro!”
-”Mas é tão frio sem ela por aqui.”
-”Você sempre foi um chorão. Qualquer vadia que te larga e você fica aí molhando esse tapete seu.”
-”É de estimação.”
-”Não importa! Você tem que crescer!” - Eu sempre falo assim quando essas coisas acontecem. E sempre dá certo, agora ele vai duvidar que pode superar, chorar mais um pouco e em mais ou menos duas horas ele vai me ligar e a gente vai tomar uma cerveja num bar. E ele vai se apaixonar de novo. É uma rotina bem estúpida se você quer minha opinião.
-”Mas e se eu não conseguir?” - Falei. Eu não erro nisso. Tiro minha jaqueta e jogo perto dele.
-”Toma.”
-”Pra que?”
-”Se ficar frio demais.” - Meu celular começa a tocar. - “Preciso atender isso.”
Saio do apartamento e assim que sei que não posso mais ser ouvido pelo caco de homem que está lá dentro eu atendo.
-”Oi amor. Não, tô aqui ainda. Ele vai superar, sempre supera... Você quer que eu vá aí?” - Sorrio feito uma criança. - “Isso não pode esperar? Não! Como eu imaginava. Então me espera do jeito que você está. Tchau, tô chegando.”
A maçaneta gira e meu companheiro sai com o rosto vermelho e vestindo a minha jaqueta. Ele sempre quis ela, disse que era o que me fazia ser eu. E ele também queria ser eu. Eu dou uma desculpa pra pular a nossa ida ao bar, mas digo pra ele ficar com a jaqueta. Ele acha que é a minha preferida, mas não é. Ela é gasta e velha. Mas eu não posso contar isso pra ele, acabaria com o gesto. E também não posso contar que a última ligação recebida do meu telefone partiu de uma certa Adriana. Estragaria tudo. Estragaria uma amizade de anos. E amizade não tem preço.
Hey Kiddo
-“Certo, já saio. Até amanhã, apareço na mesma hora” – Deixo sair uma risada rouca que não realmente chega a ser uma risada, mais um grunhido. Mas não me movo um centímetro em direção à saída. Estou bem confortável aqui.
-“Sem piadas espertinho. O que diabos você vêm fazer aqui no meu bar afinal de contas? Não é como se eu tivesse uma boa indicação nos guias de lazer.”
-“Quer ouvir minha história?” – Assumo o silêncio como resposta afirmativa. - “É tudo culpa da CIA.” – Rio desdenhosamente um pouco alterado pela anestesia etílica.
-“Claro, a CIA.” – Ele consegue ser ainda mais desdenhoso da minha mentira, realmente eu não quero me abrir com um barman. Ele continua. – “Olha aqui kiddo, não sei você, mas eu já ouvi muitas histórias, e sei reconhecer uma falsa quando vejo.”
-“Bem, então eu acho que não te devo explicações. Eu só estou esperando.” – Esperar não é legal. Nunca gostei de esperar, por nada nem ninguém. Até agora. Estranho como as coisas mudam.
-“Esperando pelo que? Criar raízes nesse maldito banco.”
-“Estou esperando o fim do mundo. Ou ela voltar. O que acontecer primeiro.” – Sete dias é um atraso considerável. Mas ela nunca foi muito pontual.
-“Bem, uma notícia pra você. Ela não vêm! Ela não veio ontem, não veio hoje e certamente não virá amanhã! Agora recomponha-se e saia já do meu bar!” – Acho que se lamentar é bem irritante.
-“Sabe, eu gosto de você. Me lembra meu pai, gritando e coisa e tal.” – Enxugo o resto do copo que esperava meio cheio entre meus dedos. Ou deveria dizer meio vazio. – “Mas infelizmente não posso fazer isso.”
-“Só olhe pra você! Parece um mendigo! A quantos dias você não dorme?”
-“Sete.” – Dois deles chorando feito uma garota. Mas isso não vem ao caso.
-“Você tem que dormir rapaz.”
-“Não posso.” – Não que eu não tenha tentado.
-“Tem uma explicação pra isso também? Já sei, a CIA não te deixa dormir.”
-“Ela não deixa.”
-“Pensei que ela tinha ido embora.”
-“Você está certo, ela foi. E é por isso que eu não posso dormir. Se eu ver ela de novo em meus sonhos e ela não estiver lá quando eu acordar, bem... o fim do mundo vai chegar mais cedo.” – Pelo menos pra mim. Sentir falta de alguém que nunca realmente esteve lá, sentimento estranho. Não tenho realmente muito a perder. Quando estou acordado, ou seja sempre, não é como se eu tivesse vivo. Estou muito fraco pra fingir que não me acertou em cheio.
-“Ei, eu sei que você está com problemas mas... você não pode se flagelar assim. Vai pra casa, falar com seus amigos, fazer besteiras. Coisas de garotos da sua idade. Você é muito novo pra ficar ai sentado junto desses perdedores. Certo kiddo?” – É, talvez eu seja. Talvez eu devesse ir pra casa. Talvez eu devesse só ir pra casa e me recompor. Eu posso ficar aqui sentado e lamentar por ela, ou me levantar e ser derrubado por qualquer outra.
-“Não posso.”
-“Você está realmente me irritando! Por que?”
-“Ela levou meu carro. Eu estou preso nesse lugar faz uma semana.” – Aquele tipo de silêncio que só ocorre quando alguém falou algo muito inapropriado toma conta do lugar. Foi algo que eu disse? Não.... acho que não.
-“Você... quer uma carona?” – Ele está desconfortável, como se tivesse pedindo pra dançar com sua própria irmã.
-“Achei que nunca ia perguntar. Então, porque insiste em me chamar de kiddo?”
Carta pra mim mesmo
Você realmente precisa dormir mais. E não me venha com a desculpa de que você tem coisas pra fazer porque você não tem que fazê-las. Essa é a graça em ter uma posição de comando, é poder delegar as suas responsabilidades. O que você tá querendo provar? Que é de confiança? Não acha isso meio recalcado? Alguns dias atrás aposto que concordaria comigo. A verdade da sua procrastinação imprópria do seu próprio sono é simples. Você está com medo. Medo da sua cabeça. Mas acho que já fiz meu ponto, e você deve ser capaz de lidar com isso de agora em diante.
Tenho assistido sua ascensão e queda com uma passividade vergonhosa. Admito isso. Mas esperava que a queda demorasse um pouco mais. Te vejo caindo em espirais de fumaça e me corta o coração pensar que você realmente poderia ser o melhor. Em qualquer coisa. Você não se lembra, mas teve momentos em que me confidenciou que pensou seriamente que poderia voar. Poderia só pular e ficar flutuando imune à gravidade. Porque as leis da física não se aplicam a quem as questiona você disse. Mas isso faz muito tempo, e agora você não se julga capaz nem de consolar alguém que precisa.
Auto-subestimar-se é uma forma de suicídio sabia? É o que eu ouvi numa música. Mas você fica aí, com seus amores de dedos cruzados e historietas sem nome e sobrenome achando inútil mudar o mundo. Achando que não há nada de bom pra deitar sua vida sobre. Que não há nada em que se apoiar. Te desejo boa sorte. Nos vemos lá embaixo, quando sua queda interminável acabar.
Janelas
Elas tem importâncias diferentes para pessoas diferentes, isso que eu tentei demonstrar. E nisso, as janelas não diferem de qualquer outra coisa. É tudo uma questão de escala. Estamos na escala errada. É o que eu acho pelo menos. As pessoas se preocupam com o que vai ter pro jantar, com a aparência as unhas dos pés, com a limpeza dos quartos, com a maldita presidência. A única falha do meu raciocínio é que eu não tenho um substituto. Eu poderia dizer que o certo é se preocupar com o que realmente importa, mas eu não sei o que seria isso. Talvez eu também esteja na escala errada.
Bend over her will
Obviamente não vai ser uma conversa. Incrível como o anel brilhante na mesma mão que o carrega pra essa situação e permeia seus melhores sonhos (e seus piores pesadelos também) não a inibe em nada. Sabe, o mínimo de remorso cairia bem. Ele sabe o quanto se sente culpado, e não é nem ele que tem uma família pra perder. É um relacionamento estranho entre os dois. Sempre foi. Como se o universo conspirasse pra juntá-los. Sempre foi muito bom, desde a primeira vez.
Mas isso já faz anos. Ela continuou, seguiu seu caminho. Ele estacionou onde estava, onde era cômodo. Mas nunca realmente se separaram, assim como nunca realmente estiveram juntos. Eram só momentos roubados quando se encontravam, longe dos olhares inquisitórios. Como se não fosse óbvio. Até mesmo um desconhecido apontaria como certa a relação entre eles. Ela nunca soube ser muito sutil. Característica preocupante pra esse tipo de envolvimento. Mais de uma vez tentara desistir, abandonar esse estilo de vida e crescer um pouco. Não podia ficar se arriscando desse jeito. Mas é como se fosse um vício. Ele sempre recaía. Como uma mariposa em volta do fogo. Não podia reclamá-la como sua, mas também não podia evitar orbitar em volta de sua majestade.
E ali, preso no doce abraço dela, no banheiro feminino de um salão de festas com a mais fina decoração de casamento, ele mais uma vez se pergunta por que um dia ele sequer tentou se afastar dela, por que isso poderia estar errado de alguma forma, por que ele tentava se afogar em álcool todo o santo dia, nada disso faz sentido porque agora, o mundo lhe parece certo. As juras de amor eterno são as mesmas de sempre, vãs como sempre. Em breve nem todo o amor do mundo poderá limpar a lama que cobre sua alma, lama que ele entrou por vontade própria. O monstro residente em seu peito ri satisfeito com a ironia do momento. Realmente é irônico. Ele pensa.
-“Estranho, mais cedo quando disseram: ‘Pode beijar a noiva’ eu podia jurar que se referiam ao noivo.” – Ela riu, sem querer tinha dito alto. Ele riu. Gargalharam como adolescentes que um dia foram. Mas bem no fundo ele sabia que a piada era ele. Sempre ficou péssimo de smoking.
Moebius
-“Sabe, você me conquistou na primeira vez que disse oi. ” – Ele começou depois de um daqueles silêncios constrangedores. – “Você lembra? Você estava linda aquele dia.”
-“Não seja ridículo.” – Ela disse rindo secamente – “Quer que eu acredite que você se lembra?”
-“Como poderia esquecer? Eu sei tudo sobre você. E gosto de tudo em você. Gosto quando você fica nervosa e morde o lábio pra te impedir de falar alguma coisa. Gosto quando você inclina a cabeça e uma mecha de cabelo não sai de cima dos seus olhos. E o seu pescoço fica exposto. É tão bonito. Sabe, com o risco de parecer um idiota, mas eu acho que te am...”
-“Ama nada!” – Só agora ele percebeu que ela estava chorando. – “Você é incapaz de amar! Você fica falando essas coisas, e fazendo as pessoas acreditarem, mas você não consegue nem mesmo convencer a você mesmo! Eu vejo nos seus olhos! Quantas vezes você já disse essas mesmas palavras?Dez? Talvez vinte vezes?Eu não quero ouvir isso de você, cansei das suas mentiras!” – Ela esperou por um segundo, talvez por dúvida, talvez esperando uma resposta que nunca veio. Talvez ela esperasse uma prova de que estava falando bobagem, e que seria diferente, mas vendo a resignação nos olhos dele, levantou e saiu batendo a porta.
Ele se sentiu puxado de volta à realidade por uma voz familiar.
-“Tudo bem com você? Parecia perdido.” – Questionou uma jovem com olhos sonhadores e cabelos inquietos sentada do outro lado da mesa.
-“Sim. Só estava pensando em quando a gente se conheceu.” – Ela riu.
-“Eu me lembro... Fazem três horas.”
-“É...” – Ele já sabia como ia acabar, perdeu a conta de quantas vezes teve essa conversa. – “E mesmo assim, acho que tive sorte. Você me conquistou na primeira vez que disse oi.”
* O título se deve a teoria de moebius. Uma dobra no tecido do espaço-tempo que não tem saída. Tudo que aconteceu, acontecerá de novo.
Aniversário aleatório
É como uma obrigação. Você tem a obrigação de lembrar do aniversário de todas as pessoas que você conhece. Mesmo que você não dê a mínima pra elas. É como um contrato que se faz quando se conhece alguém, ou pelo menos quando se pergunta o dia do aniversário. Você fica a partir daquele momento compromissado à desejar a mesma coisa que dezenas de outras pessoas vão desejar no mesmo dia. Porra, quantas vezes ele nasceu? Porque ouvir a mesma coisa cem vezes? Não caiu a ficha.
E praqueles que ainda não perceberam, hoje é o meu aniversário. É, é, já ouvi. Feliz aniversário e blá blá blá; Cadê o diabo do meu café?
KA-BOOM!
E pra parar esse monstro criador de viúvas, só você. Um homem contra a força destrutiva de 44 toneladas de dinamite. E o pior, com o tempo limitado. Sabe aquilo que dizem. Aquilo que sua vida passa diante dos seus olhos quando você está perto de morrer. Não é verdade. Você olha pro dispositivo de detonação aberto na sua frente por detrás da sua roupa reforçada, mas incapaz de resistir a tal explosão. Você tira o capacete porque ele atrapalha sua visão. O tempo está passando, 30 segundos agora. Você reconhece o padrão de ligação dos fios, fica feliz por um segundo, mas depois percebe que não é tão simples.
É um modelo não muito comum, mas você aprendeu como desarmá-lo na semana passada. Lembra-se muito bem daquele dia. Você ficou lá sentado por 3 horas, numa sala abafada, encarando um monte de caras barbados com cara de poucos amigos. Ouve o instrutor falando sobre aquele padrão obscuro de detonador. Alguém entra pela porta. Parece a secretária, deve ter uns 25 anos e é linda, está usando uma daquelas saias cinzas bem curtas. Todos os olhares seguem-na pela sala. Ela interrompe o instrutor e entrega um bilhete pra ele. Enquanto você derruba seu lápis propositalmente com a intenção de ver por baixo da saia dela ela se dirige pra saída e o instrutor fala. “O fio que impede o dispositivo de estourar seus miolos é o ...” – Você se abaixa só mais um pouco, quase consegue ver. Azul! É azul.
De volta pro presente, você tem que fazer uma escolha. Você corta o azul. O tempo parece parar, como se a terra começasse a rodar mais devagar do que o de costume. E então tudo vai pelos ares.
Quarta
Ele chegou em casa e percebeu que não tinha nada para comer, percebeu pelo bilhete da mãe na geladeira dizendo que deveria comer fora e que o dinheiro estava em cima da mesa. Foi pro quarto depois de pegar o tal dinheiro, jogou a mochila num canto, os tênis no outro, ligou o rádio e deitou pra pensar na vida. Pensou no trabalho de química, pensou na suspensão recém recebida, pensou na Claudinha do 3º ano. E quando cansou de pensar aumentou o volume e pegou o telefone para pedir alguma coisa para comer. Ligou para um delivery qualquer que estava na geladeira e decidiu que ia dormir enquanto não chegava o seu pedido.
Assim que adentrou no quarto percebeu algo caindo do teto em cima da sua cama, correu para ver o que era. Era um pedaço do teto, do tamanho de um cd mas hexagonal, no verso a mesma coisa. Olhou para cima e viu o buraco deixado pelo objeto, da mesma forma que o que estava em sua mão. Seu primeiro pensamento foi o de que agora tinha como espiar a boazuda da filha da vizinha de cima, Janete do 504. Subiu na cama e espiou pelo buraco, não viu nada. Foi buscar um daqueles telescópios de papelão que se faz quando é criança. Enfiou-o pelo buraco e avistou seu próprio quarto, de ponta cabeça, idêntico em cada detalhe, seus tênis no mesmo canto em que havia deixado, e ele próprio deitado, olhos fechados, balançando o pé no ritmo da música, como estava fazendo a 2 minutos atrás.
Assustou-se e olhou mais uma vez pra conferir. Estava mesmo acontecendo. Decidiu que iria consertar e colocou de volta o pedaço que caiu, ele automaticamente se integrou ao teto e desapareceram as supostas juntas. Voltou ao normal, lá estava o teto, novo em folha. Como se nada tivesse acontecido, deitou e dormiu, porque todo mundo fica cansado em plena quarta feira. Uma quarta feira normal.
Coffee, Sweet Coffee
Era só mais uma manhã, digo, tarde. O sol já passava do meio do céu. Estranho como o sol sempre parece estar no meio do céu, quer dizer, quem sabe em outro lugar agora ele não realmente estivesse no meio do céu... O certo é que já passava do meio-dia de acordo com o microondas, uma das poucas coisas que funcionavam na cozinha de um quarto e sala bagunçado. O fogão era usado como armário, e os armários estavam vazios. A cafeteira jazia ligada preparando mais uma jarra do líquido precioso. Cafeteira a qual fora uma aquisição importantíssima, ele realmente não sabia fazer café de outro jeito.
Ele era só mais um desocupado no mundo. Daqueles que não faz nada que mude o mundo ou jeito de viver de qualquer outra pessoa com quem cruzasse na rua. Vivia de pequenos textos carregados de sarcasmo e ironia sobre assuntos que desconhecia, os quais vendia como peixe na feira para sites reacionários e pseudo-intelectuais. Isso e alguns desenhos mal feitos em papel sulfite. Escritor... dizia que era escritor, mesmo sem nunca ter escrito nada de relevante. No final da tarde, saia e andava pra evitar o sedentarismo, mas só até suas pernas cansarem, o que normalmente o levava até dois quarteirões abaixo, lá tinha uma senhora muito gentil, que sempre o acolhia e lhe preparava um cafezinho. Ficava lá até sentir firmeza nas suas pernas e voltava, ao chegar não se lembrava do que havia falado com a senhora. Se é que tinha falado alguma coisa, normalmente só ficavam um olhando pro outro com suas xicrinhas de café, daquelas antigas, ela tomava duas, ele doze.
As vezes quando se cansava de ficar naquele apartamento, pegava seu player de músicas e pegava o primeiro ônibus que passasse na sua frente, enquanto ouvia a trilha sonora de sua vida. Trilha composta por músicas sobre uma garota que foi embora, mesmo que isso nunca tivesse acontecido, músicas sobre as bebedeiras que ele não tomava e sobre um modo de vida sem preocupações que ele não tinha. Normalmente pensava em como a semana acabava rápido, ou como não lhe sobrava tempo pra nada. Suspirava por suas aspirações perdidas e oportunidades que nunca teve. E se ele fosse abduzido? Não que ele acreditasse nessas coisas, mas se é que existem, bem que podiam acontecer com ele. Ele não era bem o tipo normal de terráqueo caso fosse capturado para experiências. Voltava a noitinha. Quando começava a esfriar nesse país quente como o inferno.
Normalmente só saia pra fazer alguma coisa necessária uma vez por mês. Pra ir ao mercado abastecer-se do necessário, ou seja café, nachos e lasanha congelada, mas as vezes tinha que voltar lá mais de uma vez. Isso acontecia quando o café acabava, o quer dizer que o mês tem sido estressante. Esse era um mês desses. Saiu e não falou com o porteiro. Só tinha mais uma jarra então não podia perder tempo. Quando saiu, trombou com uma desconhecida, sabe a rua é cheia de desconhecidos, e com o choque derrubou o café que carregava num daqueles copos de papelão feios das lanchonetes. Desculpou –se.
-“Olha, desculpa mas é que eu não te vi passando. Não era minha intenção te dar uma queimadura de segundo grau.”
-“Não tudo bem foi um acidente, eu entendo. Porque alguém tomaria café tão quente num dia de sol desses?” – Ela perguntou curiosa.
-“Sol?Ah sim, bem é que... sei lá. Só me ajuda a relaxar. Tem sido estressante.”
-“Certo, se te faz bem. Eu moro ali no prédio da frente. E eu tava entrando no seu prédio pra ver se o seu porteiro podia me ajudar com o meu carro.”
-“Ah, sim. Juvenal! Poderia ajudar a ... seu nome?”
-“Lillian. Meu nome é Lillian.”
-“Poderia ajudar a dona Lillian com o carro dela.” – O porteiro veio correndo prestativo. – “Me desculpe de novo, tenho que ir ao mercado, sabe o café não se compra sozinho.”
E com isso saiu de perto da moça, praguejando por ter derrubado o café. Pôs o player no ouvido e fez o trajeto enfadonho ao som de “Subterranean Homesick Blues”. Ele não demorava para chegar ao mercado, demorava para sair. Enquanto esperava na fila de pessoas comuns com seus carrinhos cheios de mantimentos, pensou em como as coisas deram errado. E em como sempre darão errado. “Que dêem. A menos que tenha café.”-pensou ele. Olhou mais uma vez para o pacote de pó de café em sua mão e pensou que a jarra que tinha feito já estava fria e lamentou. Lamentava muito. Ultimamente pelo menos. Lamentava por não ser mais esperto, por não ter tempo pra ele mesmo, por não ter plantado uma árvore, por não ter feito um filho. Lamentava pelas criancinhas com câncer, e lamentava pela África (menos pela África do Sul), lamentava pelos torcedores que vêem seu time do coração perder. Lamentava mas não se importava. Era só um modo de expiar seus pecados.
Saiu do mercado depois de uma boa meia hora de lamentações. Parecia que a fila aumentava cada vez que respirava, tentou prender a respiração mas não deu certo. No caminho de volta uma coisa gritava em sua cabeça, ele nem ao menos disse seu nome. Isso é rude, para não dizer idiota. “Uma garota linda esbarra em você e você nem se apresenta. Que há de errado com você?”. Decidiu, que diria o seu nome a qualquer garota que trombasse com ele de agora em diante. Nunca se sabe, as vezes a mulher que você queimou com café quente poderia ser a mulher da sua vida.
Motivos pro inevitável
Eu não desistiria disso por nada. Eu gosto de estar vivo, mesmo sabendo que a vida é uma merda. Eu nunca vou me meter numa dessas situações. Não sou de fazer pose de herói então provavelmente eu não vou me atirar na frente de um tiro pra salvar um moleque qualquer na rua. Não realmente acredito num ideal tão fortemente que me mataria por causa dele, como aquele monge que atirou fogo no próprio corpo. Qual é o ponto de morrer por uma causa, se depois que você morrer você não pode mais ajudá-la? E por que morrer por amor? Pessoas que se matam pra ficarem juntas do “outro lado” dão ótimas histórias pra cineastas sem criatividade e autores solitários. Todo o papo de “amor sem limites”. Amor não cura nada, não cura a morte. Não existe esse papo de morrer juntos. As pessoas vivem juntas, morrem separadas. Uma pessoa não vale uma vida. E olha que a vida vale bem pouco na minha escala.
Eu particularmente almejo a imortalidade. É o topo da minha lista de coisas pra fazer, logo acima de “Não bancar o esperto com as pessoas”. Em letras garrafais: “NÃO MORRER”. Não é como se eu quisesse que meu nome fosse lembrado por décadas e décadas, por alguma coisa que eu tenha feito. Não quero ruas com meu nome ou estátuas nos parques. Eu quero ser imortal não pelo que eu fiz, mas por não morrer. Não quero ficar vivo nos anais da história, quero ficar vivo no meu apartamento.
Por enquanto (ênfase nessa frase), eu não descobri como fazer isso. A única coisa que se pode fazer é viver até uns 120 anos. Mas é inviável, a única maneira conhecida de se viver 120 anos é abdicando das coisas que te fazem querer viver 120 anos. De volta à estaca zero.
Fotografia é uma categoria do oscar por quê?
Essa história tem que ser a mais importante da vida de um homem, inclusive daqueles que contam histórias. Uma história em que o casal de protagonistas se ama mas se separam uma vez por causa dos infortúnios só pra se reencontrarem e serem felizes é bonita. Uma história em que o mesmo casal se separa duas vezes mostra o quão difícil e imprevisível a vida é. A mesma história com três separações e reencontros já é palhaçada, não quero contar isso pros meus filhos.
Também não quero contar uma historia normal, não quero encontrar a mãe dos meus filhos de um jeito normal, não quero chamar ela pra sair depois de conhecer ela no supermercado ou coisa assim. Tem que ser algo mais empolgante. Porque como eu disse antes, a vida é um filme. Mas esse filme é realmente longo, e ninguém presta atenção durante toda a sua duração. Sua juventude é como se fossem as primeiras duas horas, onde toda a trama e informação relevante acontecem. O resto é como se fosse a visão depois do final de um filme de romance. Sem graça.
Sabe quando o casal se odeia o filme inteiro e acaba junto no fim? Esse tipo de história é a que eu quero contar. Por isso que as vezes me pergunto se eu não amava a Jéssica. A gente se odiava, mas talvez seja isso que eu queria desde o começo, uma história de comédia romântica. Mas é só delírio meu. Eu realmente não gostava dela. Só almejo a historia que eu poderia contar.
É estranho como eu realmente levo a sério esse negocio de filme. Eu realmente falo minhas frases feitas porque eu acho que ficariam boas numa cena. E eu me deixo viver relacionamentos porque dariam uma boa subtrama. Eu sou meu próprio roteirista. E não sou bom nisso.
Quanto a direção de arte, bem você há de convir que quando nunca se tem o melhor anglo das cenas da sua própria vida, o diretor de arte deve ser um incompetente.
Complexo de Atlas
Minha vaidade me impede de aproveitar a falta de bagagem. Como você pode se sentir poderoso se não tem responsabilidades? Chego a invejar o titã Atlas por ter de carregar a esfera celeste como castigo por seus feitos. Se o inferno for como foi retratado em Sandman*, meu castigo seria justamente esse. Carregar o peso do mundo.
Eu quero me sentir feito merda quando eu estrago tudo. Eu quero sentir remorso quando faço alguém chorar. Quero sentir o peso dos meus pecados, como todos os outros. Mas minha consciência não pesa nunca. Eu simulo culpa. Simulo remorso. Simulo pesar. Eu ajo como se nada tivesse ocorrido quando eu não quero perturbar ninguém. Eu exagero uma situação quando eu quero me fazer de forte. Eu tenho Complexo de Atlas.
* Neil Gaiman retrata o inferno como um lugar onde só os que anseiam pelo castigo o recebem. É o lugar onde os que desejam receber o castigo encontram os que querem infligir o castigo, e nada mais. Só permanece nele quem deseja
O Greenpeace deve me odiar.
O problema sobre as árvores é que não se pode escrever um texto sobre elas que comece com “o problema sobre as arvores é”. Não se tem o que falar sobre as árvores. Elas só estão lá, paradas. Não se pode ter um pensamento filosófico sobre elas. Não se pode questionar as árvores sobre nada, porque elas não responderiam mesmo que você perguntasse. As árvores não têm motivos pra se fazer o que elas fazem porque elas não fazem nada. As árvores são diferentes umas das outras mas são todas iguais em um ponto. Não fazem nada. E não dá pra se escrever sobre elas.
Não me entenda mal, eu não sou contra as árvores. Os melhores lápis e livros que eu já tive o prazer de conhecer foram árvores. Só sou a favor de sua substituição por algo mais inspirador. Porque definitivamente não se pode escrever nada sobre as árvores.
Resoluções
• Realmente me esforçar em matemática e física.
• Parar de faltar à toa pra não me preocupar demais no fim do ano.
• Entrar em uma das faculdades que eu designei na minha cabeça.
Essas são minhas resoluções no quesito acadêmico, não tem nada a ver com a minha lista de resoluções pessoais. A única semelhança é que dificilmente eu vou cumprir qualquer uma dessas coisas que eu escrevi.
Needs
Destino sux
O ruim das pessoas que pensam que tudo é culpa delas, ou das escolhas que fizeram, é uma coisa que está subentendida. Ninguém pode ser culpado por tudo, se não for responsável por tudo. Fica implicado o poder que essa pessoa acha que tem. Eu particularmente não acho que tudo seja minha culpa, sim dos meus subordinados.
As coisas erradas...
Considerações sobre o fim
Sal
Dúvidas
Meu professor de filosofia uma vez me disse que os sentidos não são confiáveis porque eles podem ser enganados. Se eu também não sou confiável, como vou perceber o mundo a minha volta? Eu estou me enganando? Por isso não sou confiável? Não posso deixar de pensar que sim. Se fui enganado por mim mesmo então estou enrascado. Talvez tudo que eu acho que sei seja tudo mentira, uma mentira contada por mim mesmo. A realidade bate à minha porta mas suas súplicas caem em ouvidos surdos, melhor, ouvidos não confiáveis. Pode ser paranóia... mas também pode não ser. Pode ser uma teoria desvairada, mas também pode ser plenamente plausível. Se for, nada do que eu diga ou escreva têm valor como verdade ou interpretação válida de fatos. Sou só... um grande mentiroso. O MAIOR mentiroso da face da terra. O único que mentiu tão bem que enganou a si próprio. A chance é grande, mas esse é um título que não me agrada.
Vejo o dia em que o peso dos mundos e vidas diferentes que inventei pra mim será grande demais para meus ombros, como posso não suportar o peso de todos os meus eus? Cada versão dos fatos que conto, um novo eu nasce, o eu que agiu daquela maneira, todos eles vivem na minha cabeça, e eu os acesso enquanto converso. Droga, eles são todos tão parecidos que as vezes eu erro o papel que tenho que interpretar. Minha vida é isso. Interpretar papéis em situações nas quais eu deveria ser sincero. Enganando pessoas que gosto com intuito de protegê-las da verdade, da verdade sobre mim. Que eu não sou nada que elas acham que sou, não sou o amigo carudo que mexe com estranhos na rua, não sou o namorado fofo, não sou o aluno exemplar, não sou o filósofo de boteco, não sou o cara sarcástico com comentários inteligentes, não sou o irmão frio. Sou só um cara com muitas vidas pra poder se importar com qualquer uma delas. Se cada faceta minha tiver um pedaço de mim, bem isso é bem pouco pra cada uma.
Não adianta tentar
Eu realmente queria ter algum outro motivo pra escrever além das coisas ruins que eu penso ou das minhas teorias estupidamente errôneas, mas eu não tenho mais sobre o que escrever. Eu só sei escrever sobre tragédias e coisas ruins em geral, me falta o vocabulário pra ser um pouco feliz. Meu vocabulário se resume à piadas de mau gosto, comentários na hora errada e ficar me lamentando. E a cada dia que passa eu luto pra retirar do meu já escasso vocabulário expressões como “Ai meu Deus!” e “Seja o que Deus quiser”. E inclusive eu tenho que parar de escrever o nome desse babaca com letra maiúscula. Acho que eu escrevia melhor quando eu ficava me lamentando.
L.I.A.R
Apoiamos as nossas relações interpessoais nessas mentiras, mas mesmo sabendo disso ficamos chocados quando se descobre uma mentira um pouco mais elaborada. Por que? Simples, mentir todos mentem, seja por ser embaraçoso, seja por necessidade, seja por profissão, seja por ambição, seja por atração física, seja pelo puro prazer de enganar, o segredo é mentir com moderação. Mas claro que isso é uma mentira deslavada.
Meu reflexo me odeia
Controle
Não são questões fáceis de responder, mas o que fazer nas situações difíceis? Juro que tentei resistir. Mas acabei não conseguindo e amanheci com marcas de unhas nas costas e um sorriso besta na cara. Mesmo não tendo motivo pra tanto. Eu também odeio quando me dizem o que não fazer. Odeio mais isso do que perder o controle, porque quando eu perco o controle, normalmente eu estou bem acompanhado, e a pior das hipóteses é ter fadiga matinal.
Enganos
Vive la France!
Crescendo como uma videira
Já se passaram 3 anos desde que o último resquício do que eu era ontem me desapareceu. Quando eu não procurava achar um sentido pra minha vida, antes de eu começar a julgar primeiro e perguntar depois, antes de eu começar a ter minhas idéias de grandeza, antes de eu contestar as coisas sagradas das pessoas.
Saudades de quando eu não era falso, de quando eu não tinha a impressão de ser ruim, de quando eu era menino. Eu sinceramente acho que é meio cedo pra ter saudades da infância, mas quem disse que eu me importo. Eu arruinei tudo que era bom pro meu eu antigo, eu esmaguei seus sonhos e corrompi seus prazeres com meus novos ideais. Ideais que não durarão o suficiente pra ter valido a perda daquilo.
Tenho pensamentos de velho, num corpo jovem. É a balança da vida ao contrário, uma criança morreu pra um velho viver. Um velho amargo e senil do alto de seus dezesseis anos contemplando tudo ir pelos ares enquanto tem seus devaneios de eloqüência. Troca justa.
