Não escrevo mais. Não aqui pelo menos. Não posso escrever nada aqui por que aqui não me pertence e duvido muito que um dia tenha me pertencido. Tudo que foi escrito aqui foi escrito pra ela, e não tenho a mínima intenção em perder isso. Não retiro uma palavra sequer do que disse, porque quis dizer cada palavra. Era uma vez. Esse é o meu santuário do que não deveria ter sido. Pra que um dia eu olhe pra trás e me sinta com culpa sem ter culpa.

Não escrevo mais. Não aqui. Só .

Last One

Espera, o que é isso?

É o som das estrelas gritando como fogos de artifício e promessas escorrendo de uma boca que não sorria há anos. É o som de pulmões se enchendo de ar pra gritar o mais alto possível e o sussurro do coração da garota de olhos castanhos quando pele encontra pele.

Nunca ouvi silêncio que dissesse tanto.


Olha. 

Isso não sou eu. É o branco de uma certeza e a esperança encontrada entre os cacos de neon e sorrisos inexplicáveis. É só o espaço vazio entre o mundo e palavras e as pintas no seu ombro. Isso não sou eu.

Mas eu prometo, um dia vou ser tão incrível quanto você acha que eu sou.

Consegue ouvir?

Todos os sonhos iniciados e terminados correndo por dentro dos meus ossos. Talvez um dia você finalmente veja todas as suas perfeitas imperfeições e os olhos encantadores que te fazem ser a mulher da minha vida e perceba que você é linda.

Sou inspirado pela sua ingenuidade e atiçado pela sua insegurança. No dia que não mais puder contar com isso, acabou pra mim.

Future Awaits

Entrei e notei sem querer a sacola plástica com a grande cruz vermelha impressa com tinta não bio-degradável em cima da mesa. Vazia. Notei também ele curvado perto do aquário, preguiçosamente atirando pequenos objetos na água suja e meio opaca do recipiente. Cada uma caía com um espirro e um barulho estranho parecido com aqueles que os eu estômago faz quando não deveria e te deixa desconfortável na frente dos pais da sua recém assumida namorada. 

- Como foi a entrevista? Algum resultado? - Eu pergunto. Recentemente sugeri que ele procurasse algo com o que se ocupar, não se pode passar os dias escrevendo péssima poesia e riscando bigodes em pôsteres de vinte anos atrás. Esperava uma resposta, no mínimo. Por consideração. Um 'Não fui' pelo menos.

Ele olhou em minha direção e atirou algo. Algo pequeno e meio marrom. 

- Aí o resultado. - Em minhas mãos um remédio tarja preta. 500 mg, Haloperidol 30 cápsulas. Vide bula para todas as cinquenta maneiras com que isso fode o seu cérebro. Antes que eu perguntasse o por que ele me disse. - As coisas ficaram meio fora de controle. 

- Como você sai de casa com objetivo de arranjar um emprego e volta com medicação em dose cavalar Daquelas que as madames usam para dormir.

- Para a sua informação, isso não é Valium. Tudo ia bem até que me perguntaram onde eu me via daqui à vinte anos.

- E o que você disse?

- Que me via com uma barba, uma garrafa e três lunáticos, num bar enfumaçado  tramando a derrocada do império das máquinas.

- Você não devia ter brincado numa situação dessas. Esse povo não tem senso de humor.

Seus olhos ficaram fixos e ele andou meio desinteressado até a parede, do lado da janela como se fosse um peão num jogo de xadrez. Depois disse:

- Não brincaria com algo tão sério quanto a queda dos robôs.

A bomba do aquário fazia barulho, mas o peixe havia morrido.

Debts and Dues

Eu já disse e fiz coisas. Disse e fiz coisas minha vida inteira. Tentei pensar em tudo antes, mas nem sempre cumpri com a promessa feita à mim mesmo. Sempre reagi bem sobre pressão, nunca me faltaram as frases feitas. Mas não importa o quanto eu pense, não consigo. Não posso achar as palavras que ela quer que eu diga. Parece falso e forçado. Artificial e aleatório. As palavras não clicam juntas. Saem engasgadas. Não consigo escrever o que ela quer ler por que eu não sei o que ela quer ler. No fundo do meu coração eu sempre soube que eu nunca me conheci o bastante pra dizer até mesmo o que eu queria ouvir.

Desculpe sei que estou um pouco atrasado, mas acho que ainda dá tempo. Não sei se adiantaria dizer que você é tudo aquilo que me falta. Meu discernimento já não é o mesmo e meu julgamento parece meio fora. Não sei se estou pronto para a falta que você vai me fazer nesta semana, mas eu tenho certeza que não tenho certeza de nada, nem mais da passagem do tempo. Dias ou anos? Horas ou meses? Sístole ou diástole? Seria bom que seu coração tivesse espaço para dois, eu e você, o meu já não mais me pertence. Se eu te devo algo, devo muito mais do que palavras. Devo-te no mínimo o respeito necessário para não dizer besteiras e nem dividir fantasias mirabolantes. Devo-te no mínimo o desejo inexorável de acordar ao teu lado e dormir nas tuas mechas. Devo pelo menos abrir mão de tudo o que me faz eu para me tornar teu e somente existir nos teus olhos. Por que eu te amo. E só.

Did you ever had a wet dream? ;3

Diário de bordo, data estelar 03/02/2009

A vista da janela limpa e ampla é a única evidência de que o tempo passa quando tudo o que se passa à minha volta é virtualmente imóvel. A poltrona gasta e pública parece uma casa, do seu jeito de poltrona claro, e o sol me nega o calor mesmo que me ilumine como que reconhecendo a ausência do raio de sol que carrego no peito. Antes de escrever a primeira coisa sincera e realmente válida em quase um mês, li sobre como as pessoas nascidas no começo do ano são mais propensas à genialidade e auto-confiança, eu, em minha ignorância e baixa auto estima, acreditei. A revista também me sussurrou pela tipografia preta e miúda que as pessoas com transtorno bipolar estão inclinadas à ter grandes idéias e desempenho mental melhor quando estão justamente nos picos de depressão e dos ataques maníacos, período esse onde experimentam hipervelocidade nas sinapses neurais. Ao preço de queimar os neurônios pelo esforço sobre-humano e transformá-lo em mais um caso clichê, como se a loucura fosse glamurosa.

A garota à direita me olha à cada três segundos e meio, mas ela não é ela então não me importo.  A primeira e única dama. Alimento a esperanla de que quando a euforia passar e ela me abandonar, que seja na velocidade que ela escolher., lenta de preferência. Assim posso aproveitar o último impulso criativo advindo da depressão final enquanto assisto ela se afastar em slow motion

A's começam todas as sentenças porque os a's começam tudo. Aquilo que não posso prever não acontece antes de ser tarde demais, por isso guardo os z's no meu bolso de trás. Acho que o fim nunca é certo.

Do You Need To Be Forgiven?

Um dia meu fado prevê que eu olhe no espelho e me pergunte se aquilo é tudo o que eu sempre esperei, o que eu sempre sonhei. E eu não vou ter certeza. Eu não preciso ter certeza. Ninguém deve duvidar de algo que nunca foi feito. Se não esperava nada, como tudo o que sonhava deveria parecer?

E nessa hora, tudo o que eu jamais fiz vai parecer claro como água. Tudo pelo próximo momento ao lado dela. Esperando aqui por ela. Querendo dizer nada e qualquer coisa que a fizesse sorrir um sorriso qualquer que fizesse eu sentir qualquer coisa diferente no estômago. Isso provavelmente não fez sentido, mas é completamente verdade.

O trabalho tem sido duro, eu estou crescendo rápido demais e não é tão legal quanto eu achei que seria. Mas se alguém me perguntar a única coisa que eu quero, eu vou responder: "Celofane azul ou vermelho?" ;D

She Told Me To Write²

A primeira vez que a vi, ela virou as costas. Na segunda vez que a vi, disse "oi" mas não pude ouvir uma palavra do que eu disse pois surdo fiquei com o som de seu sorriso. Pois o sorriso dela tem um som peculiar e muito cristalino dentre todos os sorrisos do universo. Algo como o que você gostaria de ouvir num domingo de manhã. Na terceira vez que eu a vi, estava muito ocupado prometendo-a o mundo para realmente perceber que era só a terceira vez que a via. E na quarta vez que eu a vi, ela me prometeu o mundo enquanto tudo o que eu queria sentava na minha frente.

Por nove dias não ouve um amanhecer. Nove noites de vinte e poucas horas. Hoje a luz tímida entrou pelo quarto escuro que era minha percepção de tempo. Um raio de sol.

She Told Me To Write

Dinheiro não é nada se gasto com ela. Um dia não é nada sem a permissão dela. Se eu pudesse, fugiria. Se eu ainda fosse jovem, fugiria até onde ninguém além dela me seguiria. Rei aos dezessete e onze avos. Completo por um metro e sessenta e um fio de cabelo cheiroso. 

Um cartão postal da Terra, gostaria que você estivesse aqui. E gostaria que ela estivesse aqui, para olhar a Terra de longe. Quarenta e cinco esposas, nenhuma delas a certa. Quem vai passar minhas camisas? E quem vai tirar minhas camisas? E quem ficaria feliz com um bom dia, além de mim e dela, claro, por que somos estranhos?

Eu posso voar mesmo sozinho. É o que patos fazem. Fucking quack motherfucker. Fucking quack! Mas não me importa, eu quero as asas dela. Meu anjo. Me dá presentes. Me dá beijos por simplesmente voltar para a casa que é seus braços.


/music

Consider this song a testament
Of my devotion to your sacharine scent
And to be completely honest
You're not like all the rest

Break

As pílulas para dormir e a garrafa de scotch faziam compania à dois copos, um recentemente esvaziado e outro completamente imaculado, e atulhavam a mesa de centro. A maculada figura dela recortada contra a luz azul vinda do aquário na parede, única fonte de claridade. As sombras desenhadas esguias até os pés da poltrona dele do outro lado da sala. Sentado de lado, pernas balançando dependuradas por sobre o apoio de braço, estava o rapaz inimaculável que lançava furtivamente olhares em direção à garota azul. 

- Você se lembra? - Começou ele sem confiança o bastante para olhar em qualquer outra direção além da outra direção que deveria olhar. - Se lembra do dia em que estávamos deitados no sofá de bolinhas da varanda e você me disse que eu cheirava à sabão em pó e café torrado?

- Lembro.- Disse a garota depois de um segundo em que tentou não olhar para o lugar que olhou. O lugar que deveria olhar desde o começo. - Eu tive esperanças de que você me respondesse daquela vez. Quer dizer, você tem resposta pra tudo mesmo.

- Eu sei agora. A resposta. Eu sei. Não sabia antes mas agora eu sei.- Calou-se. Demorou alguns segundos até perceber que deveria dizer mais alguma coisa. - Quer saber? Quer que eu responda? - Aceno de cabeça. - Você cheira ao cheiro que a felicidade deve ter quando o sol bate nela.

As bolhas explodiam como balas na superfície no silêncio que se seguiu. Então uma bomba soou quando o peixe mais vermelho de todos os peixes vermelhos do aquário provocou ondas depois de abocanhar algo boiando e ela disse algo.

- Essa foi, de longe, a coisa mais estúpida que você já disse. Palavra. - Risos ecoaram pelos corredores vazios além do que a bruxuleante luz ambiente permitia enxergar e pararam dando lugar à outro silêncio retumbante.

- Você não acredita mas é verdade. Você me faz notar as mais estranhas coisas quando está perto de mim, como se fosse capaz de expandir minha percepção. Seu cabelo dobra a luz de um jeito diferente do resto das coisas e quando nos abraçamos sinto você mais perto do que o possível. Mais do que qualquer outra coisa poderia chegar.

- Você sabe que isso é fisicamente impossível não sabe?

- Sei sim, mas quem disse que a física importa? Nada é impossível. Eu digo que, se você quisesse, você poderia atravessar sua mão pelo aquário e não quebrar o vidro.

- Como?

- Simplesmente esticando ela atráves da coisa toda. É tudo uma questão de expectativa, quando eu te tenho nos braços, não espero que nos separemos e então fica difícil saber o que é você e o que sou eu. Se você não esperar que sua mão encontre resistência da parede, mas se concentrar na água por exemplo, esperar sentir a água, você atravessa.

Como que em desafio ela se levantou prontamente, marchou até o aquário virando as costas e esticou a mão. O barulho surdo dos dedos finos batendo no vidro acabou com o suspense e ela sorriu vitoriosa.

- Você não está tentando. Devia se envergonhar.

Ela bufou e deu as costas mais uma vez. Fechou os olhos e tentou se lembrar de como se sentia quando ele ria para ela. Esticou a mão e sentiu os pelos do braço levantarem-se quando sentiu a sombra de uma presença ao seu lado. Continuou a esticar e parecia que esticaria seu braço até o infinito, o impacto com o vidro não veio. A umidade na ponta dos dedos a assustou e ela puxou a mão molhada pingando no carpete. Virou-se eufórica para a sala vazia e não conseguiu se lembrar quem esperava sentado torto na poltrona oposta.

Through the Fire

Ninguém podia exatamente dizer como e quando havia começado, mas todos os envolvidos poderiam afirmar com todas as letras que estava sendo excruciantemente doloroso só ouvir a coisa toda. Antes que eu pudesse botar meus pensamentos em ordem, esse cara já estava em cima da gente feito uma harpia, guinchando como se quisesse rachar todos os vidros num raio de três ou quatro quilômetros. Duck estava muito ocupado pensando coisas que seriam perigosas para qualquer diabético de tão doces e melosas para realmente prestar atenção em qualquer outra coisa além  dos sonhos que rolavam dentro daquela cabeça. E o Ears certamente não entendia metade da situação. Tanto que fez a coisa que não se deve fazer quando se lida com esse tipo de pessoa. Rolou os olhos atrás da cabeça e perdeu o foco demonstrando o desinteresse. Ok, aqui vamos nós.

- É exatamente por causa disso que não há mais chance de salvação para a juventude de hoje em dia! Não se interessam pela palavra do Senhor! Escute aqui mocinho, o único motivo que me fez desperdiçar meu tempo com os tipos como você é a inexorável vontade que foi incutida em minha alma de levar a salvação para todas as almas atormentadas que existem por aí. Tentando demonstrar que todos merecemos o reino dos céus! - O terno de cor estranha e um livro sem importância debaixo do braço. Ninguém suspeitaria que ficaria tão inflamado assim por uma simples mostra de sinceridade. Até tentei remediar a situação mas não existe tempo pra pensamento racional com essa gente. - Mas eu desisto! Que suas almas todas queimem nos quatro cantos do inferno. E saibam quando cruzarem os portões flamejantes da perdição, que tiveram sua escolha de serem salvos e a negligenciaram.

Então um som parecido com uma lufada de vento, o crepitar de uma fogueira e um grito agudo se seguiram. Labaredas envolviam o pregador e lambiam-lhe o rosto desesperado. Correu em círculos e eu foquei os olhos na causa da dor. A chama-piloto na ponta do cano longo denunciava o lança-chamas situado nas mãos frias do sujeito. O sorriso fraco e o corpo em chamas refletido nos óculos escuros. Enquanto o calor me fazia suar eu pensei. Ginger. 

- Nada queima melhor do que um cristão. - Ele disse com os gritos ao fundo.

Need

Ele pensou por um momento que um momento não era o bastante para pensar tudo o que deveria pensar. Já tivera sua cota de pensamentos não tivera? Deveria haver algum tipo de programa de distribuição de pensamentos no país, agora mesmo se sentia monopolizando todos eles e isso era errado. Pensou que tudo estava perfeitamente do jeito que deveria estar antes que a conhecesse e que, provavelmente, continuaria estando se nunca a tivesse encontrado, mesmo que não estariam perfeitamente bem já que nunca a teria conhecido. Na verdade, só três pessoas ness hemisfério poderiam acompanhar essa linha de raciocínio, e duas delas não eram nem pessoas.

Ela também deveria estar bem feliz antes de conhecê-lo, pensou. Era lógico. Talvez não tivesse do que reclamar no jeito que as coisas iam antes. Talvez ela estivesse plenamente satisfeita exatamente do jeito que as coisas eram.

Deu três passos em direção à porta que separava o quarto do quarto de mundo que ele achava que conhecia, a intenção clara de desanuviar a cabeça e esquecer tudo o que tentara pensar nos últimos minutos expressa nos passos apressados. Parou ao som do *beep* familiar do aparelho de celular em cima da mesa. No batente que agora parecia intransponível ele disse para qualquer coisa que pudesse ouvir:

- Qual é a palavra que se usa para definir a extrema necessidade de algo que você nunca achou que algum dia fosse precisar para começo de conversa?

Amor, as paredes responderam, mas ele não ouviu. Não com os ouvidos.

Snow

Seria a neve branca como a pele dela ou a pele dela é que era alva como neve? Não seria mais certo afirmar que ela era apenas pálida por compraração ao envenenados lábios rubros que carregava? Pálida como um cadáver.

Como se chama a princesa envenenada pela feiticeira má? Morta. Como se chama o príncipe galante que vêm salvá-la de seu destino tenebroso? Necrófilo.

Seems like...

Na sombra o branco parece azul, o vermelho parece roxo, meus pés parecem longe e a solidão parece maior.

De olhos fechados a música parece viva, meus cotovelos parecem formigar, eu pareço dormir e ela parece que está aqui.

Com a janela aberta o quarto parece maior, o frio parece constante, o mundo parece entrar e eu pareço sair.

Agora o tempo parece parado, a vida parece cruel, o universo parece sem sentido e eu pareço morrer.

Abstractions

Se correr é andar mais depressa e pensar é falar sozinho mais depressa, amar não seria simplesmente morrer mais depressa?

***

Não sei como passar meu tempo sem você, então eu vou só me sentar e tomar meu café até que você decida o contrário.

***

Consumo eu a cidade consumista, ou ela me consome por simplesmente estar aqui? Consomem a si mesmos. Eu e a cidade.

***

-O que se leva da vida são as cicatrizes que te marcam para sempre como gado da dor. Tenho orgulho das minhas e você devia ter orgulho das suas.

-Isso aí! Fodam-se os band-aids.

Urban

Helmut vivia com uma arma debaixo do braço todos os momentos. Defender-se de todos os possíveis perigos que o cercavam e o atacavam a cada segundo. Ninguém nunca suspeitou até tarde demais, era incólume em todos os sentidos. Ele e sua Mauser passaram por todo o tipo de problemas e aprenderam que sozinhos não são nada. E só conseguia dormir com o volume da Parabellum sob o travesseiro. Quando dormia.

Passou a ver inimigos em todos os cantos desde que havia voltado da guerra. E seu psicólogo o disse que ele deveria mudar de ares, ir para o campo ou ago do gênero, mas Helmut adorava sua cidade, e lhe doía vê-la sendo invadida por esses tipinhos. Jurou defendê-la à todo custo. E é isso que fez nos últimos quinze anos.

Amarelos, comunistas, viados, pretos. Ninguém roubaria a cidade de seu controle e nem mancharia a imagem que tinha na cabeça. A cidade seria exatamente como a deixara em 1944. A segunda guerra de Helmut começara. Ele contra toda a escória urbana.

Scare To Death Of Living Without You

Sem rumo. O que fazer quando se perde o rumo além de seguir direto para a única luz que você jamais teve em toda a sua vida? Quando tudo o que você sempre disse que não era bom o bastante para conseguir pode ir embora em um piscar de olhos antes que você perceba se mereceu ter e perder? 

Sem ela você não é nada. Você não é você, não sem ela. A falta dela faria mais falta do que a falta do seu próprio coração, coração esse que você desejaria que tivesse ido embora pois não mais serve para nada além de doer e sussurrar o nome dela à cada batimento. O que acontece quando o mundo ergue um muro entre o que você mais quer e suas mãos? Quando você é impedido de retomar o controle nem que lute com todas as forças? Quando até mesmo a idéia de lutar parece vã?

Você se submete às exigências do mundo, mesmo que isso te transforme num homem quebrado? Ou quebra antes diante do pensamento de não mais ter o que você se acostumou a ter como guia em definir você mesmo? O medo é o coração do amor. E eu não sei o que faria se estivesse no lugar dele.

Só peço uma coisa, promete que não vai me abandonar? Não posso imaginar a idéia de te perder. E nada vai entrar no meu caminho.

Horrorific + Safety

Olhos são importantes. Para tudo. São como as janelas da alma dizem. Eu digo que são mais do que isso. São as janelas do ser. Só se é, só se pode saber que é, pelos olhos. Dizem tanto quanto é possível. 

Olho os meus sem saber o que pensar. Creio que não é a mesma coisa. Não os olho diretamente, é como se o espelho me roubasse a essência. É diferente em tudo. Me parece que não existe nada dentro deles. Parecem os olhos de quem já viu horrores demais, sofreu demais sem saber. Cansados e vazios. Os olhos dela não. Os olhos dela são indescritíveis. São ingenuamente brilhantes. Me fazem sentir seguro. Uma segurança que promete, que me dá vontade de passar o resto da vida assando marshmallows num isqueiro. Olhos de mil tons, que devem refletir as mil facetas que os habitam. Quisera eu entender aqueles olhos.

Mas não entendo. Acho que nunca entendi e talvez não entenderei. Talvez não seja algo possível, entendê-los. Pessoas tem conversas pelos olhos. Diálogos inteiros e cheios de nuances imperceptíveis. Nunca tivemos esse tipo de conversa, talvez por que nossos olhos sejam diferentes. O que olhos como os meus, que mais parecem olhos de um assassino ou de uma amarguês imensurável teriam em comum com o mais doce olhar da face da terra? Nada. A única coisa que meus olhos dizem é "salve-me". O que vê nos meus olhos?

Wrath

A princípio foi difícil me acostumar, não só por ser um trabalho novo, mas uma realidade completamente diferente. Não é o trabalho mais comum de todos, nunca em toda minha vida esperei acabar num necrotério. Vivo. Acabar num necrotério e vivo, melhor dizendo.

- Hei, adivinha esse! - Disse meu companheiro de função em algum lugar à minha esquerda enquanto eu anotava o número no pé de um corpo quase irreconhecível estirado na mesa. Nós criamos um jogo no mínimo interessante para entreter as noites frias e vazias por aqui, basta só adivinhar a causa mortis de um cadáver sem olhar a ficha de entrada. É mórbido sim, mas você acaba se acostumando. - Vou dar uma dica, é um dos sete pecados capitais.

- Vejamos... - Comecei fazendo uma introdução básica do sujeito. - Caucasiano, casa dos trinta. Possivelmente casado, indicado pela descoloração no dedo anelar esquerdo e a cara de infeliz. - Uma risadinha abafada do meu comparsa me fez sorrir sem motivo. Claro que não era uma das caras mais felizes do mundo, o sujeito estava morto. Aponto para uma série de detalhes que me chamaram a atenção. - A face rubra indica batimento cardíaco acelerado. Tem algumas manchas vermelhas, como arranhões e coisas do tipo, e bem... a ereção. - Parei para pensar por um instante, não era uma cena muito difícil de se imaginar. - Luxúria. Cocaína mais amante. O coração não aguentou, devia ser um sedentário.

- Errado. - Me surpreendeu, mas não muito. - Calibre 22, parte de trás da cabeça. O sujeito morreu por causa da mais pura e simples ira. - Virou o cadáver e pude ver o buraco no crânio, já vazio e com longas sombas sob a luz fluorescente da bancada.

- Ok.... Eu posso lidar com isso. Qual é mesmo o placar? 33x17?

Randomness

É verão em pleno outono? É outono na lua, isso posso lhe garantir. Talvez não possa garantir mais nada. Sofista seria eu se tirasse minhas conclusões de outros lugares senão minha própria cabeça, tem coisas demais nela. Não vai fazer falta. As estrelas correndo em minhas veias permeiam meu ser com o que não quero mais. Não quero porque não tenho como conseguir. Sístole, diástole. Sístole, diástole. Love me, love me not. Love me, love me not. Quero, não quero. Morto. Sem mais sístole, diástole.

O tempo perdido não existe. Não se pode perder o que não existe. Tempo é percepção, as forças influenciando objetos com o intuito de fazer você olhar e pensar: 'Nossa, estou tão velho'. Eu perdi a percepção uma vez. Dormi e 8 horas sumiram. Ainda estou procurando-as, se alguém achá-las por favor me avisar. Quarta à direita depois dos últimos cacos de homem. Inadequação, fuga à regra, passível de punição simplesmente por não se encaixar. Encaixar-se significa perder o "eu" em benefício do "nós". A terceira pessoa do singular é realmente tão importante? Se importante fosse não seria ela a primeira? Esses jovens de hoje em dia não sabem o que fazem.

As vezes, não ter a mínima idéia é uma coisa boa. No resto das vezes é simplesmente entediante. As vezes o tédio é uma coisa boa. No resto das vezes é só algo sem nome porque "tédio" já havia sido usado. A diferença entre "uma garota" e "a garota" é "um". Um rapaz confuso. Um pensamento pernicioso. Um beijo não dado. Um gole a mais na taça da aleatoriedade. Randomicidade controlada. Disfarce suas intenções com o acaso. Funciona sempre. Com sempre eu quis dizer aleatóriamente. E com aleatóriamente eu quis dizer nunca.

Nunca diga nunca, a não ser que cite essa frase. É obrigatório o uso de "nunca" nesse caso. Você não pode falar "peixe-espada diga peixe-espada". Não soa o mesmo. Sei que fere o livre arbítrio, mas o que se pode fazer quando se está ferido além de ferir o próximo? Ferir o anterior? Ferir-se-ão todos. E tenho dito. Dito e desdito. Desisto. Do que? Ué, disto. Isto dito, gostaria de por favor pedir minha conta. Desacredito. No que? Isto. Maldito. 

Nuvens fofas, arco-íris-es, o sorriso dela, patinhos e nuvens fofas. Estou triste. Estou alto. Estou altamente triste. Não tenho medo de altura. Tenho medo de largura. Han Solo atirou primeiro, mas não fez perguntas depois. O mundo quebrou. Não fui eu.

***********

Tinha me esquecido completamente desse texto. Se não me engano a Aretha postou esse no blog dela.

Free

Correr. Mas só longe o bastante para te fazer sentir minha falta. Uma passagem de primeira classe pra uma noite a sós. Seu nome nela. Sua pele é como um lar, doce lar. Sei sem precisar provar. 

Não quero escrever sua história, me contento em ser uma página na qual você desenhe estrelas e corações e vire logo em seguida. E quando você revê-la, você se envergonhe e ria. E rasgue com a expressão corada de reprovação, aceitação calada de que um dia fez algo estúpido. O tempo passa e os sorrisos se fecham, as costas se viram e o mundo passa por cima de tudo que você achou que iria permanecer intacto.

Pode ser livre de mim, ou livre comigo.

Triangle

Sendo aquela a primeira experiência que ambos tiveram, o nervosismo e o sentimento de não-concordância era inevitável. Até mesmo seres sapientes provenientes da quarta lua de Júpiter tem calafrios quando enfrentam o desconhecido, numa escala menor talvez, talvez as borboletas no estômago se tornassem pouco mais do que traças. Andando pelo pasto de uma fazenda anônima no interior de um país anônimo, os dois seres vagamente antropomórficos anônimos não podiam evitar o desconcerto de serem inexperientes nesse tipo de situação.

- Não compreendo, esclareça-me se puder. Como alguém deixa as reservas de energia chegarem ao nível mínimo, mesmo nós tendo passado por cento e quatorze postos de abastecimento. - Começou o mais alto dos dois com uma voz calma que ressoava mais tempo do que o necessário no ar noturno. - Mesmo sendo constantemente inquirido sobre a necessidade de dito abastecimento por seu companheiro de viagem e passageiro. Cento e quatorze vezes exatamente. Pode me explicar? - Perguntou com a voz desconexa e sem emoção e uma abrupta mudança na direção do olhar.

- O fato de eu ter um medidor quebrado nunca me fez falta nenhuma. Minha nave pessoal não voa mais do que dois anos-luz longe da minha casa e nunca tive que me preocupar em recarregá-la mais do que uma vez a cada quatro meses. Fato esse que você tinha conhecimento. E mesmo assim você insistiu em me arrastar para essa jornada estúpida! Eu podia estar em casa agora! Assistindo Grey's Anatomy!

Os pés pisando a grama molhada faziam barulho em contraste com o silêncio da falta de conversação, uma quieta declaração de empate argumentativo. O crepitar das chamas não mais se fazia ouvir, mas as chamas que envolviam o veículo extraterreno meio quilômetro atrás ainda alaranjavam o céu e criavam uma torrente de fumaça ocre. Um comentário preparou-se para ser lançado, um chamado para a incrível semelhança entre a harmonia dos sons característicos da paisagem rural e a sexta sinfonia da filarmônica de Sirius III, quando um click que pareceu fora de propósito soou em algum lugar à esquerda, arruinando a composição lírica e também, mesmo que secundariamente, indicando uma arma engatilhada sendo apontada para a direção geral dos viajantes.

- Mãos ao alto seus pederastas! Ninguém invade minha propriedade pra ficar fornicando nos meu arbustos e sai inteiro pra contar a história pros seus amiguinhos serelepes. - Disse um fazendeiro sujo e mau encarado, com os pés descalços e calças que poderiam andar sozinhas até o armário caso o dono morresse. A barba grisalha e embaraçada escondendo o fato de que ele não tinha nenhum dente de sua arcada original.

- Eu acho que isso é algum tipo de ameaça à nossa integridade física. -Disse numa voz deslocada o mais baixo, completamente ignorando o homem. - Esse pedaço de madeira me aparece um aparato disparador de projéteis, o que vamos fazer?

- A maneira mais fácil é levantar os membros superiores em sinal de submissão e usar uma aproximação verbal. - Respondeu o outro enquanto lavantava as mãos lentamente. Foi rapidamente mimetizado pelo primeiro. -Por sorte eu estudei os costumes desse planetóide esquecido. Parece que a abordagem mais segura quando se é um ser extra-terrestre é justamente admitir o fato de ser um. Esses primatas são céticos e auto-centrados demais para admitir que hajam outras formas de vida. Senhor... - Dirigiu-se finalmente ao fazendeiro, que apertava um olho na mira da espingarda desconfiado. - ... nós somos só uma dupla de seres superdesenvolvidos que entraram acidentalmente na atmosfera terrestre através de um salto dimensional na região que vocês denominam como Quadrilátero das Bermudas.

- Triângulo. - Disse o homem sem nada particularmente digno de nota na voz.

- Sim, aceitamos. Dois torrões por favor. - Sorriu afetadamente o alien, satisfeito.

Right Word, Left Hand

As vezes as coisas não saem do jeito que deveriam sair. As vezes o que você acha certo é diferente do que é certo. As vezes você não é. Não sendo. Indo e pensando onde e o que não deveria. Querendo o que não ia querer se pudesse escolher. E você acha que perdeu uma oportunidade, mas na verdade nunca houve nenhuma. E você se contenta em amaldiçoar as circunstâncias e renegar coisas importantes. E desistir. Não, desisitir não é a palavara. Desistir é para quem tenta. 

Intento. Um tento. Lamento por lamentar-me tão alto. É de minha natureza fazer barulho quando não devo e falar demais sobre assuntos que deveriam manter-se escondidos e assegredar-me de coisas que deveriam ser cuspidas antes que me matem. Falta de prioridade, oh sim, prioridade me falta. Existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia, e existem menos coisas que me fizeram sofrer o quanto sofri do que dedos em sua mão esquerda. Muito menos.

Cut

As flores cheiram ao cheiro do cabelo dela, e não o contrário. E todo o mundo parece que vai explodir, tem aquela aura de antecipação em todas as coisas. Como se tudo importasse e a economia funcionasse. Era uma vez e ela era minha. E duas vezes. E três. Uma deusa. E as cenas se repetem. Sorrisos preocupantemente despreocupados. E continuidade, e sentido, e narrativa e cronologia previsível. 

- E...... Corta! - Ouve-se a voz esganiçada de um homem pequeno demais para ser tão importante.

E o mundo é cinza. E meu rosto dói de fingir sorrisos. As flores não cheiram à nada, são plástico. E ela é só uma garota comum. Ela não é minha nenhuma vez. E eu sou só um cara grande demais para ser tão desimportante. 

Dark

Escrevi em celulose com meu lápis preferido o futuro que permeava o reino além do reino de meus sonhos. As palavras certas e contadas e, de todas as maneiras que eu conheço, perfeitas. Joguei tudo fora quando percebi que não existem palavras sinceras e que nenhuma era realmente real ao que diz respeito à realidade das coisas.

Escrevi um nome em meu coração, com uma agulha de ouro que piscou pra mim num bar. Sangrei horrores mas, por sorte, ela estava por perto e, depois de equivocadamente realizar a manobra Heimlich no meu já frágil abodômen, cuidou de mim até que cicatrizasse. Escrevi outro futuro depois disso, por insistência mesmo, apesar de saber que os lápis só servem para escrever passados dos quais nos arrependemos.

Escrevi uma realidade então, uma em que os lápis pudessem fazer o que eles bem entendessem. E dentro dela dizia: "E ele disse 'eu te amo' no lugar mais bonito do mundo e, mesmo ele não sendo digno de tal confiança, ela acreditou nele mesmo assim, rindo-se pois ele não usava calças. E ele disse. 'Gostaria de me seguir e esquecer de tudo e todos? Pois eles não importam e eu não ligo. Seguiria-me para um lugar onde o uso de calças não é imposto?'. E ela diria. 'Não há nada nesse mundo ou nos outros que eu queira mais.' E então eles dão-se as mãos e se lembram que sabem voar."

Tudo que se escreve não tem importância na noite mais escura. Lápis perdem-se. Papel rasga. Corações quebram. No fim, só o que fica marcado no cantinho mais escuro da alma permanece.

Mother

- Ei! Querem saber de uma coisa? - A pergunta quebra o silêncio no quarto bagunçado e mal arrumado onde três jovens tão bagunçados e mal arrumados quanto o ambiente em si. Latas de alumínio, embalagens plásticas e outros detritos comuns à adolescentes de classe média sob as ondas estéreo do rock industrial de má qualidade e o odor característico de bebida com venda proibida à menores. Assumindo que o silêncio significasse um "vá em frente campeão" ou um "surpreenda-me" o interlocutor continuou. - Eu tive a idéia mais estranha ontem... Achei até ridícula no começo, mas pensando bem, até que faz sentido.

Recebeu um grunhido como resposta, que veio de algum lugar atrás do sofá onde estava sentado e incrivelmente perto do chão, o que indicava a presença de um ser sentiente deitado no chão e depois de alguns segundos, talvez gastos em uma tentativa de avaliar a situação, o outro ser sentiente olhando bobamente pela janela disse, meio ao vento, meio ao léu, com uma voz sem nenhum entusiasmo.

- E que idéia genial seria essa, Einstein?

- Vê se faz algum sentido isso. - Entusiasmado e com olhos brilhando ajeitou-se no sofá. - Eu acho que todas as mães do universo são suscetíveis às leis de Asimov. - Disse com um tom de gravidade como se tivesse acabado de revelar o mais obscuro dos segredos. Tendo em vista que não surtiu o efeito desejado e ninguém havia ficado muito impressionado, decidiu explicar a última sentença. - Asimov. Leis. As três leis da robótica.

- Ah sim! Essas... Certo, prossiga. - Virou-se na janela a fim de encarar o discursante com um interesse crescente. O sujeito no sofá notando isso entrou naquele transe onde os indivíduos falam mais rápido do que você acha possível mas não exatamente te olham nos olhos por que estão muito ocupados falando mais rápido do que você achava possível.

- É tão simples! Tão óbvio que chega a doer! A primeira regra é: "Nenhum robô deve executar qualquer atividade que possa oferecer risco de vida à qualquer humano". Você já viu uma mãe oferecer deliberadamente risco à integridade física de alguém? - Sem esperar resposta ele continuou no mesmo ritmo. - Não! Quer dizer, às vezes mas não aos filhos, o que prova meu ponto. Quando elas oferecem risco à outrras pessoas elas estão sob as leis comuns, só são mães em relação aos filhos então... estou certo.
A segunda lei diz: "Robôs devem executar todas as ordens vindas de um humano, desde que tais ordens não desobedeçam a primeira lei". As mães tem o histórico de ceder às vontades dos filhos sem muito esforço. O que me deixou inclinado a achar que talvez não seja coincidência. E a terceira lei diz: "Um robô deve preservar sua integridade física a não ser que isso o faça desobedecer as duas primeiras leis". Isso talvez explique os sacrifícios que as vezes acontecem. Pensa bem! Todos os comportamentos inexplicáveis do instinto materno podem ser explicados atráves da aceitação dessas leis como regentes dos seres nesse estado. - Explicou tudo muito rápido e teve que recuperar o fôlego logo em seguida. Passaram-se só alguns segundos até que o silêncio fosse quebrado pelo cara na janela. Sentou-se ao lado dele e disse:

- Mas como você explicaria as famosas palmadas? - Perguntou, achando que talvez tivesse achado um furo no argumento.

- A lei número zero, que precede todas as outras. Diz assim: "A integridade de um ser humano pode ser colocada em risco caso a integridade da humanidade esteja em risco". Com uma livre interpretação desse artigo, nós temos o conceito de mal necessário. A dor infligida tem como função corrigir comportamentos perigosos e/ou não dignos de apoio, logo, o desencorajar esses comportamentos classifica-se como uma proteção do indivíduo de um risco maior. - Sentiu-se vitorioso, mas por pouco tempo.

- E os casos onde as mães abandonam toda e qualquer estrutura familiar? Casos de infanticídio e coisas assim. Como você explica isso? - Levantou a voz mais do que o necessário.

- Falha técnica! Os níveis estatísticos de caos desse tipo são basicamente os mesmos da chance de um cérebro positrônico desenvolver defeitos de meta-cognição. Na base de 1 para 1 milhão e quinhentos. Meu argumento não tem falhas! - Acusações foram feitas e alguns decíbeis foram superados rapidamente. Mais ou menos como em um debate político, os argumentos se foram e os comentários maldosos sobre as mães começaram a aparecer. A voz detrás do sofá fez se ouvir por sobre a balbúrdia.

- Ei! STR-50042?!

- Eu. - Disse quem começou isso tudo.

- Cala a porra da boca.

Love?! Don't Talk Me About Love...

Fez sexo sem amor com a máquina de refrigerantes que, como qualquer outra amante, negou-lhe o prazer originalmente intendido. Sorveu o líquido avidamente, uma vã tentativa de forçar garganta a baixo o que parecia ser um coração pulsante em plena fuga rumo à um peito mais feliz, mas na verdade era só a bile lentamente afogando-o dentro de si mesmo.

Pulou cega e prontamente todas as músicas românticas da playlist que o ensurdecia, o que causou um movimento quase robótico e a repetição das mesmas cinco músicas sobre perda com arranjos modernosos durante o dia inteiro. O calor humano e o inumano o faziam suar e transformava seus pensamentos em bolas fumegantes de ira e auto-reprovação. Deveria ter percebido que as pupilas dela não dilatavam-se quando o via. Que a linguagem corporal era dúbia. E que o perfil psicológico a impedia de fazer as coisas que para ele eram normais. E que estava tentando explicar o inexplicável. Ela o queria mas o falso pudor gritava mais alto. O amasse talvez, mas temia consequências fantasma.

- O amor... - Disse ele mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa em especial. - ... é como ver uma supernova de perto. Vem quando menos se espera com uma explosão e te envolve com todas as cores desse e de outros universos e faz você se sentir parte de algo imensamente maior do que você pode conceber. E quando vai embora, te deixa incapaz de sentir qualquer outra coisa. Cego e inválido. Como a dormência e insensibilidade de um tetraplégico.

- Próxima estação... Paraíso. - Disse a voz metálica nos falantes do coletivo sacolejante sobre os trilhos subterrâneos e claustrofóbicos enquanto ele se ria sozinho. "Bem vindo ao inferno" pensou amargo e indiferente.

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PS:. Eu sei que eu não postei o tema anterior, esse era mais urgente. ;D

Improv Anywhere

- O que você pensa que está fazendo? - Perguntou meu eu depois que eu, o verdadeiro eu, comecei a fazer as coisas de uma maneira diferente do que o normal.

- Improvisando. - Respondi secamente enquanto me equilibrava num pé só em cima da lata de refrigerante em cima do armário da cozinha que agora jazia no chão perto da porta.

- Por que motivo? - Indagou ele (eu), por que eu (ele) sempre fui bom em indagar as coisas.

- Ela mandou. - E eu achei que isso explicava tudo. Mas não explicava. Mas eu achava mesmo assim. Mas não explicava não. Não, mesmo.

- Você tá fazendo errado. - Disse ele, claramente atento ao fato de que não explicava nada. Digo, a minha explicação.

- Vai me ensinar a improvisar agora é? Se você não sabe, eu improviso desde que tinha só um dente e agia como se tivesse dois. - Perguntei num tom que eu achava extremamente ácido, mas dificilmente era. Provavelmente era só cítrico. Como soda limonada.

- Improvisar significa justamente fazer algo sem ser mandado ou alguém esperar que o faça. Você está, oficilamente... - ênfase no "oficialmente" como se ele fosse algum tipo de autoridade - ...improvisando errado.

Talvez ele (eu) realmente seja uma autoridade e eu (não ele) não soubesse. Me senti estúpido e parei de improvisar. Odeio quando eu (ele) sai vitorioso. Ele (eu) me conhece à bastante tempo, acho que não é difícil de ver que eu estou perdidamente apaixonado.

Puzzle

- Realmente não te entendo. De verdade. - Ela disse rindo. Ele pensou em todas as vezes em que pensou em todas as vezes nas quais ele não soube o que fazer, como agir e reagir em relação à ela... à eles.

- Você é tão espontâneo e... - Ela procurou a palavra certa com um esforço aparente. - imprevísivel de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Você fica tendo as idéias mais esquisitas. - Disse olhando para longe, sem focar em nada específico, com um ar de quem está satisfeita com o que acabou de dizer e ele pensa em todos os maneirismos e comportamentos passíveis de múltiplas interpretações que ela demonstrava e em todas as conclusões precipitadas e, em sua maioria, erradas que eles o levaram a tomar.

- Eu nunca sei o que vai sair da sua boca e, em metade do tempo, eu nem consigo acompanhar seu raciocínio nem imaginar o por quê de você ter falado aquilo. E eu acho que te amo mesmo assim. Você é o meu quebra-cabeça preferido. - Ela terminou de falar e olhou nos olhos dele como quem espera um resposta. E ele pensou em como nunca soube se era ou não verdade cada coisa que ouvia ou se as certezas eram só peças pregadas em si mesmo pelo senso de romantismo irrequieto e mimado que o tomava toda vez que ouvia a voz doce dela. Ela o confundia. Sempre fora péssimo em enigmas e certamente odiava quebra-cabeças.

See

O peso que desaparece das minhas costas quando eu tiro a capa de viagem encharcada dos meus ombros e jogo sobre o balcão da taverna mal cuidada nessa cidade esquecida por deus, ou qualquer coisa equivalente, é um alívio e respiro com mais facilidade logo depois. Tem sido tempos difíceis, a má sorte me acompanha. O destino pode ser muito cruel com os errantes como eu. Os guardas reais da última cidade me levaram o único espólio decente que consegui arrecadar em mais de seis anos e no caminho para cá fui atacado por bandidos. Levaram meus apetrechos de performance e o meu violino também. Além de me deixar com uma costela doendo e um nariz sangrando. Como se não fosse o bastante, chove constantemente desde aquele dia e eu tive que fazer os últimos dois dias de viagem com as mesmas roupas molhadas. Atualmente um bagre tem como morada minha bota esquerda. Tenho dó do Sorento. Esse é o nome do meu violino, Sorento. Nessa umidade, sem os devidos cuidados a madeira apodrece. Meu parceiro de viagem na mão de ladrões truculentos, que desgosto. 

Não sei nem por que cheguei até aqui. Minha intenção era vir até essa cidade e pegar uma balsa até a capital além-mar, com o intuito de fazer fortuna com a minha música, mas agora sem Sorento não faz sentido. Que se dane. Me sento em um dos bancos e paro de amaldiçoar minha sorte e começo a amaldiçoar minha pobreza enquanto procuro os trocados em meus pertences. O teto do bar é baixo e o balcão de sólido carvalho, uma monocromia irritante se me perguntassem. O cheiro forte de arenque defumado que emana, bem, do arenque defumado pendurado nas vigas do teto enche minhas narinas e me dá náuseas. O que se há de esperar de um lugarejo perto do mar além de pescadores sujos e fedorentos que penduram arenques no teto de seus locais de trabalho? A luz alaranjada das velas dá ao lugar todo um ar ébrio e lúgubre e deixa a noite mais escura por comparação. O som das gotas de chuva na janela é tão alto que nem mesmo eu posso ouvir o meu pedido, então mudo para um lugar mais distante e repito um pouco mais alto do que o necessário o apelo por algo para acalmar a sede. Minha garganta arenosa é prioridade e eu não ligo para a sujeira no copo quando sou atendido pelo sujeito com cara de javali do outro lado do balcão.

Olho sem realmente prestar atenção para a garçonetezinha pequena das tranças muito louras e sem querer procuro por semelhanças entre ela e o taverneiro. Não encontrando nenhuma característica particularmente suína na moça deduzo que ela deve ser a esposa dele e não sua filha, o que me faz compadecer-me profundamente da pobre. Escreveria uma música se pudesse, mas não tenho nem o arco, nem as cordas de Sorento à mão. Seria uma balada de tristeza, de maldição ao fado e ao fardo que a donzela carrega. Meus devaneios são interrompidos quando dois camaradas entram pela porta, fazendo soar o sininho acima do batente, molhados como se tivessem acabado de emergir do mar feito oferendas rejeitadas. Riem feito doidos, parece que não se veêm há tempos.

- São todos uns maricas! Ouça o que eu te digo Hans. Esses acadêmicos tentando explicar tudo com aqueles instrumentos todos. Pensam que a gente é burro. Eu só acredito no que eu vejo, e é assim que tem que ser. Foi assim que meu pai viveu e assim eu vou viver! - Disse o mais desarrumado e rude dos dois enquanto guiava o outro aos bancos próximos da porta.

- Não é bem assim Noah, é uma questão de pensamento analítico e raciocínio lógico. Estudei muito nos últimos cinco anos e posso lhe garanti... - Começou o outro, que era claramente mais civilizado do que seu companheiro, mas foi interrompido.

- Eu não procuro te desrespeitar de qualquer maneira, pois tenho você como irmão e entendo seu desejo de sair dessa cidade. Galgar uma vida melhor que a de pescador não é algo para se envergonhar. Mas eu sei de muita coisa que você nunca poderia imaginar, e coisas que essa sua ciência não explicaria nem em um milhão de anos. - Se endireitou e tomou um ar de quem sabe o que fala e tomou um gole da bebida recém servida pelo taverneiro que agora escutava atenciosamente a conversa. - Lembra-se do velho cego que mendigava aqui em frente? O velho Jonah?

- Me recordo sim. Ele esteve por aqui desde que eu me lembro, acho que desde sempre. As crianças costumavam jogar pedrinhas em sua caneca de esmolas só para ouvir ele agradecer daquele jeito dele.

- Você se lembra Wilbur? - O tal de Noah se dirige ao taverneiro que se assusta pelo ríspido convite a adentrar à conversa.

- Nem me fale naquele bêbado. O pobre diabo vinha gastar as malditas pedras aqui. Me dava prejuízo, não conseguiar negar-lhe o alcoól. Aqueles olhos vazios me assustavam. Faz um bom tempo que não o vejo.

- Pois bem. - Continuou Noah. - Ele mesmo. Eu vi com esses dois olhos algo inexplicável envolvendo aquele velho. Faz uns dois anos. Estava um calor do inferno e a pesca não estava rendendo muito então fiquei por terra com o intuito de consertar minhas redes. Então esse sujeito apareceu, vindo da estrada norte. Aquela poeirenta e que não vai dar em lugar nenhum. Chegou sem montaria e sem um grão de poeira no corpo. Usava um manto pesado negro como a noite mesmo com o sol à pino, botas de montar laqueadas com arreios que brilhavam feito estrelas e aquelas calças apertadas de pederasta engomadinho. Parecia um nobre, era pálido igual leite azedo igual a todos os outros nobres que eu já vi, mas tinha os cabelos bagunçados como os de um bêbado. Como se tivesse acabado de acordar. O maldito andava como se não visse nada ao redor, assim com a cabeça erguida. Como se flutuasse inafetado por nada simplesmente por que tivesse nojo do chão.

Ele cuspiu no chão como se também sentisse nojo, não sei exatamente do que, e isso me incomodou bastante. Terminei a minha bebida e pediria outra mas sei que seria atendido de uma maneira menos que agradável por ter interrompido a maldita história. Essa caipirice de ouvir contos de qualquer um que apareça. E justo eu, um artista, um homem do mundo, preso aqui ouvindo essa história fajuta. E o pior, sorvendo cada palavra como se fosse a última que fosse ouvir em vida. Não é minha culpa, o personagem tem um carisma. Tanto que todos os ocupantes prestavam atenção, de maneira esquiva talvez, mas não menos digna de nota. Queria que eu e Sorento conseguíssemos tal platéia por ventura.

- O sujeito andaria por cima das casas se pudesse, tal era sua obstinação em chegar ao porto. Senti enquanto andava atrás dele meio que hipnotizado a impaciência que o tomava. As ruas eram irritantes, tornavam o caminho maior, desviavam-no do que ele queria. Temi sem saber por que. Então quando passava nesta rua! - Apontou para fora com um entusiasmo desnecessário. - Não sei como o velho Jonah o percebeu, seus passos não faziam barulho, mas mesmo assim ele sentiu sua presença. Então o velho disse: "Uma esmola para um homem que ficou cego de raiva, senhor".

- Cego de raiva? Ele não era cego de nascença? - Interrompeu Wilbur o abestalhado taverneiro.

- Não interessa! Foi isso que ele disse. - Repreendeu-o impaciente o narrador inculto. - O sujeito estranho parou ao lado do velho Jonah e olhou para baixo. Foi tão inesperado que eu me desiquilibrei e caí quando percebi. Como não obteve resposta ele insistiu balançando a caneca: "Compadeça-se de minh'alma senhor. Já não posso ver." Foi então que o sujeito esquisito disse, com uma voz fria como o inverno e alta como um trovão. - Foi aumentando o tom de voz e então com todos os trejeitos descritos do sujeito ele o imitou. - "Pois então veja!" - Uma pausa dramática onde a moça loira soltou uma exclamação de surpresa. - Ele encostou os dedos nos olhos do velho Jonah e, eu juro pela tumba de minha querida mãe que é verdade cada palavra que eu digo, o velho piscou duas vezes e seus olhos já eram pretos e brilhosos como os de um garotinho, ele olhou mesmerizado em volta e correu feliz uns dois ou três minutos falando coisas sem sentido. Depois passou a agradecer repetidamente e mais de uma vez tentou beijar as botas do sujeito mas sempre era repelido por ele. Se contentou em rastejar atrás dele beijando o chão em que ele havia pisado. 

O pescador terminou a bebida e continuou enquanto uma expressão estupefata brincava nos rostos dos seus ouvintes.

- O sujeito então andou em silêncio até a avenida que é usada para levar os barcos até a praia no verão e de lá direto para as docas com o velho atrás dele. Espiei da esquina do açougue do Steinberg enquanto ele andava por sobre o píer e quando ele chegou ao fim dele, que o Nosso Senhor me salve mas ele simplemsnte desceu como se fosse um degrau e continou andando normalmente por sobre as ondas! O pobre Jonah pulou atrás dele mas tenho para mim que morreu afogado pois não mais o vi. O sujeito andou direto para o poente até que eu não pude mais vê-lo.

- O que você acha que aconteceu lá? - Disse Wilbur, depois de um silêncio contemplativo que havia contagiado a taverna inteira, enquanto entregava outra bebida, cortesia da casa, ao pescador. Curiosidade explícita em seu tom de voz.

- Eu acho que... Deus que me perdoe, mas eu acho que era o diabo em pessoa. Um teste para a minha fé. O pobre homem foi seduzido e acabou morrendo. - Tomou um longo gole, claramente satisfeito. - E você, o que acha Hans? Tem como me explicar isso? - Se dirigiu ao companheiro que abria e fechava a boca como um peixe sem saber o que dizer. 

- Bem... Você disse que estava calor. Talvez o sol tenha derretido os seus miolos Noah. Os seus e o do velho Jonah. Me aprece a única explicação plausível.

- Pois eu acho que é tudo uma lorota mal contada. - Disse um dos homens sentado numa mesa no fundo do bar antes que o pescador tivesse a chance de responder a hipótese. - Acho que é tudo invenção desse aí.

- Insinua que eu sou um mentiroso seu excomungado! - Irritou-se o pescador derrubando o banco e marchando até a mesa. - Anda! Levanta! Vamos resolver isso!

- Bateria num aleijado? - Riu o sujeito sentado.

- É o Skip, ignore ele, ele é meio rabugento por que não consegue andar desde que caiu da escada da pensão. - Explicou Wilbur sem realmente ver o que estava acontecendo. 

- Pois alguém deveria ensinar à esse inválido alguns mo... - Não terminou. A porta escancarou-se como se tivesse sido chutada por algo maior que um cavalo de carroça e uma silhueta se via recortada no batente. O sino tocou, mas eu não ouvi. E um sujeito, alto e magro entrou no salão. 

Tinha o manto negro como a noite e seus pés não tocavam o chão. As sombras lhe cobriam o rosto mas os olhos brilhavam como dois rubis. Mesmo sem vento a capa tremulava e emoldurava as botas laqueadas de maneira harmoniosa. Os cabelos emaranhados não ficavam quietos, mudando de posição constantemente. Por um segundo todos ficaram parados, no outro todos correram para dentro da noite gritando, menos eu e, bem, o aleijado. O esquisitão então virou-se para Skip e disse:

- Por que não correu?

- Por que não posso. - Disse Skip com a ironia ressentida de quem não pode andar.

- Então corra. - Estalou os dedos e o som ecoou nos meus ouvidos por mais tempo do que eu achava possível. Skip levantou-se e andou resmungando até a porta como se não tivesse ficado impressionado. Ele então virou-se para mim e eu senti minha alma congelar. Lutei com o medo a fim de responder seu olhar. Não consegui então me curvei com uma reverência e disse:

- O senhor por um acaso não teria por aí um violino teria? Sou um violinista que não pode tocar.

Blink

Ela devia ser feliz antes de você. Ela provavelmente era. Você só está afastando-a dessa felicidade. E você nem sabe. A voz que canta "sinto sua falta" te chama ao telefone mas você não atende. Tem medo de que ela te diga todas as coisas que você não queria ter dito a si mesmo nos últimos dias. Ela é feliz sem você, e você nem sabe. Será que é tarde demais para lembrá-lo do que você é? Antes que as coisas se repitam e as lamúrias brinquem em seus lábios sem sair até te deixar louco. Então tudo que você tem te lembrará de alguma forma dela. Por um instante tudo deixou de ser verdade e a realização do fato te acertou feito um chute nos dentes.

Agorafobia. Um lobo atrás da porta e um dragão em cada canto escuro. Esperando. Esperando sua espera chegar ao fim. Cafeínado até o cerebelo, vigília constante. Se você fechar os olhos tudo o que não foi seu vai sumir. Talvez o mundo inteiro. Ela te faria feliz, mais do que qualquer outra coisa. E ela estaria infeliz e você nem saberia. Você não sabe de nada. Seria capaz de esquecê-la num piscar de olhos? Esqueça e ela será feliz. Pisque por ela.

O sol bate no seu rosto do jeito certo, que te faz apertar os olhos por detrás desses seus óculos e você parece despreocupado. Quase acredita. O sorriso falso e é o cara mais feliz deste lado de Alpha Centauri. O calor infernal e as caras e bocas das expressões ensaiadas se completam. Ouça a voz da sua consciência. Feche os olhos por um momento que seja. Deixe-se piscar.

Steal These Stolen Words

Como violões falam amargamente bordões, visões sexuais. O anjo existe, acho graça. O inferno está cheio de lágrimas e sentimentos. Recôndito de perpétuos turbilhões, espectros e aspérrimas sombras mortas. Eternamente ébrios e enxovalhados vagabundos. Humanos por definição, fantasmas histéricos por lembrança minha. Saudade das pálidas ninféias, ou talvez da palidez ninféiaca da saudade dela. A castidade obscura de um lobo atrás da porta. Quem está aí? Além dos vagos aromas que me deixam de lado em busca de outros mundos. Mantenha o mundo perto do que te interessa e longe dos vícios e derradeiras ânsias.

Andando pela enorme rachadura que se fez em meu futuro, algo como o enterro de um sonho vivo. Ou talvez mais um acidente de carro. O sol não é o sol. Uma manhã sem os raios da estrela é só mais uma noite vazia. Saber que procura algo não te faz especialmente inclinado a achá-la. Sempre estão no último lugar em que se procura. As coisas que se perdem, obviamente, não os amores perdidos. Esses estão sempre no primeiro lugar em que se pensa não estar. Completamente diferente. Último natal ganhei o monótono ritmo de pensar que me afastou das coisas que eu queria fazer. Neste quero um coração, ouvi dizer que estão em falta.

Work No Longer In Progress

Ele escrevia pois se não o fizesse esqueceria. Se os pensamentos ficassem muito tempo na sua cabeça eles seriam certamente desviados de seus sentidos originais, tornando-se apenas devaneios, inferências e fantasias e não mais interpretações puras de sua visão de mundo. O pensamento cru expresso de forma aleatória e impensada é o único meio seguro de se trasmitir a insegurança e incerteza enraízadas em qualquer raciocínio. Regra não escrita de como escrever.

Ele escrevia sobre um cara que escrevia sobre ele mesmo em terceira pessoa. Abusava do pretérito imperfeito e das interrogações. Os vícios de linguagem e trejeitos mais do que suficientes para desqualificá-lo da disputa pela próxima cadeira na Academia Brasileira de Letras. O que era um nome idiota, alguém aí já viu um "B" bombadinho? Escrever por escrever. Escrever para que ela lesse. Essa era sua história. Acontecia um momento de cada vez. Se desperdiçava um segundo de cada vez. E quando ele não mais estivesse por aqui, a certeza de que essas palavras seriam tudo o que conteriam sua alma o mantinha são. Elas estariam ali, talvez provocando o choro de saudade de alguém que o amava, talvez acalmando a dor provocada por sua ausência. Deixando bem claro que era amor, desde a primeira vez que a olhou nos olhos pensando se era amor ou não. E que todas as vezes em que ele tomou a resposta como duvidosa, um beijo era mais do que necessário para mandá-lo de volta ao caminho certo e convencê-lo de que era um bobo.

Bad Move...

Estava correndo o mais rápido possível. Em sua perspectiva auto-centrada até mesmo mais rápido que a luz. Coma poeira leis da física e senso comum! O mundo moderno está cheio de perdedores. Ele estava decidido a não ser um deles. Sem nenhum motivo aparente, só decidira que não seria. Estava entediado, não podia criar boas justificativas entediado. Quando percebeu que correr não adiantava, que não podia fugir da máxima da existência, já era tarde. Resfolegava feito um cão com lentes de contato. Lentes de contato com pequenos gatos desenhados. 

O seu nome tinha o mesmo som do fracasso. Não do jeito certo da frase, mas você entendeu. Era um desperdício de tantas maneiras diferentes que nem ele sabia contar tão alto. Mas não eram todos perdedores? Sem exceção. Num mundo com sete bilhões de pontos de vista, cada qual com a seu próprio critério para a definição de perdedor, a sobreposição é completa. Todo mundo. Perdedores. Não é de se estranhar que as pessoas fiquem deprimidas. Ele já havia se acostumado. Acostumar-se com qualquer coisa em doze segundos é uma das características genéticas que ele adoraria poder passar para sua prole ainda por vir. Se houvesse prole. 

O universo, decidiu ele, era uma péssima idéia pra começo de conversa. O conceito não estava certo. O universo tinha que ser à prova de idiotas. O problema com as coisas à prova de idiotas é que elas normalmente subestimam o nível de idioticidade dos idiotas. Então o universo acabou só sendo à prova de pessoas muito burras. O que definitivamente não era a mesma coisa. Pessoas muito burras não usam o vaso da maneira certa, os idiotas colocam a cabeça nele.

O relógio bateu um milhão para a meia noite. A hora onde nem todos os gatos são pardos (nem gatos, mas sim guaxinins) e o céu tem três cores diferentes com o mesmo nome. Hora onde todos os sonhadores sonham a mesma coisa e nenhum deles entende nada. A hora da eterna ausência. E se perguntassem à ele, ele lhes diria que era a melhor do dia. Claro, se ele existisse.

Como é aquela palavra...

Escreveu uma carta para ela mas jogou fora. Não existiam mais palavras por serem ditas. Sem mais mensagens dignas de serem transmitidas, pelo menos por vias comuns e sem graça tais como palavras vãs e sem sentido. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. As palavras repetidas várias vezes perdem o sentido. Ou talvez elas nunca tenham sentido e a gente só acha que elas têm. De qualquer forma elas não mais serviriam. Servem somente de muletas para um ego cansado demais para apoiar-se nas próprias pernas.

Só queria que ela o curasse. Que lhe fosse um porto seguro em meio à tempestade que não parece ter mais fim. Um felizes para sempre depois da escuridão da incerteza, quando os vilões sem rosto nem coração são derrotados e esquecidos. Mas não haviam vilões. Nem tempestades. As feridas sim haviam, e muitas. O destino, disse ele, é uma vadia sem coração que adora jogar sal nas feridas alheias. Esse é seu único prazer. E era mesmo. 

- Como é mesmo aquela palavra? Aquela palavra que se usa para descrever o exato momento onde você percebe que não existe mais você, não como uma entidade separada, mas só como parte integrante de uma coisa maior formada por você e quem você ama?

- Não existe essa palavra.

- Pois deveria existir.

I Really Want You

Não quero um salário maior. Não quero um Nintendo. Não quero Nikes novos. Não quero uma sósia da Angelina Jolie. Não quero a Angelina Jolie em pessoa. Não quero a ruiva dos olhos puxados, nem o amorzinho besta de infância. Não quero a namorada pré-adolescente nem a loira pequena. Não quero ir para o céu. Não quero $100 mil em barras de ouro (que valem mais do que dinheiro). 

Quero ela. E só ela. Quero um beijo dela, para selar meus lábios e me impedir de falar alguma besteira. Quero que ela me esquente quando o tempo estiver frio e eu esquecer o moletom, por que eu sou estúpido assim. Quero ficar com ela para sempre, e fazer milhões de bebês com o meu nariz e os olhos dela. Quero andar por aí com uma estrela no dedo e duas nos olhos, por que eu a amo. É só o que eu quero. É pedir demais?

Absent Sentient Persona

- Aceitaria um lembrete constante de que ela não te pertence?

-Não obrigado, vou prosseguir para a simulação do abuso de opióides regulamentados por lei através de sons binaurais no meu canal auditivo. Talvez seja só uma coisa de macho alfa. Maldito orgulho. Fuja de si mesmo, não existe incerteza com o vicodin deixando sua mente nublada, extirpando sua capacidade de julgamento, limitando sua percepção. O mundo indolor ao alcance de um botão. Play.

-Homens não fogem.

-Sou um garoto. Um garoto bobo. Um garoto bobo e viciado. Dos que fogem antes de perder.

-Bem, acho que a coragem é inerente ao ser. Em qualquer nível. Demonstre alguma.

-Não serei então. Meramente existirei. E engana-se quando taxa-me como covarde. Não é covardice. Apenas poupo dos possíveis arranhões o brilhante mundo ilusório que criei às duras penas. Já não vivo sem ele. Contento-me com sonhos esparsos e interpretações dúbias. Faça de conta. Faça você mesmo. Faça a diferença. Faça alguma coisa. Qualquer coisa.

Halo-What?!

Ela é, no fim das contas, só uma garota. Uma garota boba. Como todas as outras garotas bobas da face da terra. Ele é um bobo. Não é mais um garoto, mas bobo do mesmo jeito. Ela não tem noção do efeito de suas ações nas pessoas à sua volta. Não vê que as interpretações podem ser muitas. Que as coisas devem ser claras, deixar dúvidas não é saudável. Ele simplesmente chegou ao ponto onde a destruição das ilusões que criou seria um alívio. Se todos os seus sonhos fossem esmagados agora mesmo por um pé gigante ele estaria feliz. Seria uma definição. Ele é bobo porque se apaixonou. Ela por deixar ele apaixonar-se.

A halogeneidade do caminho o incomoda. O brilho hepático das lâmpadas de iluminação pública deixa tudo muito deprimente. Num mundo ideal, a luz seria a luz e não essa coisa que não é nem uma coisa nem outra. Ora, não existem mundos ideais. Num mundo ideal, ele não criaria mundos ideais. Por que tudo seria ideal. Idéia de jerico essa. Tentar conter a imaginação é como segurar um sabonete, quando menos se espera ela voa fora de controle. Bobo. Metáfora boba para explicar algo ininteligível. Milhões de passos distante, algo ininteligível usou uma metáfora boba para explicá-lo. Sentiu a orelha arder e disfarçou fingindo tropeçar. Ótimo, ninguém percebeu.

Drip. Uma gota mancha o concreto num passo futuro. Drip. Mais uma. O gotejar constante tem um ritmo sem explicação. Drip. Drip. Drip. A garota dos sonhos bobos chora quando ele sonha em abandonar tudo. Mais um mundo ideal que passa voando por seus pensamentos, só um lampejo de idéia. Não fantasie o que não pode cumprir. Seria bobo. Não diga bobagens, seu bobo. Se as palavras são tudo o que ele tem a oferecer, o que ele expressa por elas?

Num mundo ideal, ele sabia. Num mundo ideal, para ela palavras bastavam.

Mistakes of a Rechargeable Brain

O silêncio lhe arranha os ouvidos. A falta do barulho o deixa inquieto. Presta-se muito mais atenção aos barulhos quando não se tem barulho nenhum. Estranho. O som dos pés arrastando pela calçada não fazem-se ouvir e os batimentos de seu coração são somente sussurros comparados ao zumbido dos pensamentos passeando feito mosquitos dentro de sua cabeça. As coisas são o que são, ou são o que parecem? O que quer que seja, não são como deveriam ser. Num mundo ideal, ele não existia. Num mundo ideal, nada além dela existia. Num mundo ideal, ele tinha baterias no pequeno dispositivo sonoro que o impedia de ter esse tipo de pensamento.

-Você não pode amá-la mais do que já ama. Já não é suficiente? - Disse a luz à sua volta.

-O suficiente para toda a eternidade e um dia. - Ele responde devaneando.

-Tem razão. Não é o suficiente. - A luz acrescenta o sub-entendido depois de um segundo, com um tom monótono que só a luz pode ter. Como se luzes fossem capazes de emitir som. Num mundo ideal podem. E num mundo ideal, seria o suficiente.

Quando ele põe as mãos nos bolsos, sua sombra prega-lhe peças, hora retratando-o como uma figura antropomórfica, hora como um borrão indefinido no concreto. Díficil definir uma sombra. Não há profundidade. Não pode-se saber claramente o que acontece quando o sol some. As coisas devem ser feitas às claras. Porque no silêncio, ele não tinha a coragem de adivinhar o que os outros pensam.

Empty Walls, Empty Veins

Paredes que recitam e copos que bebem à si mesmos. Uma casa como outra qualquer. Pois o que não o mata, só te deixa mais estranho. E o que te deixa mais estranho é o que te define. Seja o que for, não seja uma parede. Porquinhos da Índia são bonitinhos mas não são porcos e nem da índia. Só porque eles não tem paredes, só gaiolas por onde o mundo entra e não sai, eles são o que quisemos definir na situação. Nunca esteja à mercê de reles enganadores, diz a alvenaria. O rapaz não lhe dá a devida atenção, uma nota de sanidade turva-lhe a face.

Declama aos três ventos e uma leve brisa que vinha do mar, quinhentas milhas ao leste do que deveria ser a direita do último pensameto puro que tivera, um poema incompleto sobre a unidade das coisas. Fagueiro como há muito não o era. Melancólico como há muito se acostumara a ser. Uma promessa de neon a pintar-lhe os lábios e o brilho nos olhos mais falso que se pudera criar na face deste universo. A doce melodia das palavras não ditas, ou das ditas em hora malograda, a verter de todas as torneiras fechadas e as fotos que nunca foram tiradas penduradas nas paredes do seu subconsciente dividem sua atenção entre o que é e o que fora seu. O riso lhe escapa para nunca mais voltar. Volta arrependido por que não era o mais livre dos risos, melhor riso contido em cara familiar do que gargalhada tresloucada no rosto de ninguém. 

Fosse ele mais curioso e um tanto mais atento perceberia que ferira a mais superficial das camadas da realidade. Culpa de uma topada que ocorrera da última vez que fora acalmar a sede no meio da noite.Talvez a noite esteja no meio do dia sem querer. Excusa-se por um momento e o dia toma-lhe o lugar que era seu por direito. Volta a interromper na claridade somente para provocar-lhe a ira flamejante. E é assim que as vezes o sol fica mau e todo mundo acaba queimado de bobeira. O ardor privando-lhes dos abraços e afagos que suas almas anseiam por conseguir. Se a realidade estivesse ferida, seria um problema maior, mas sendo a injúria mais emocional não teria remédio. Contemplaria a vida de uma perspectiva magoada e distorcida, simplesmente porque um dia a realidade comportou-se como uma garota.

Dead Kings, Dead Choices

As possibilidades que se desdobravam o forçariam a tomar uma decisão em breve. Definitivamente tinha que pensar no seu próprio futuro, mas por outro lado, não queria fazer parte de um futuro no qual ela não estivesse incluída. E ele sabia que não devia deixar uma mulher que ele não tinha influenciar sua cabeça, pôs-se então a escorraçar todo e qualquer pensamento que fosse remotamente ligado à ela. Acabou sem ter o que pensar.

Não queria decidir nada. Tinha decidido isso e isso lhe bastava. Alguns diziam que ele tinha talento, um jeito de dobrar as palavras. Era mentira, um exagero. Mas ela gostava do que ele escrevia, deliberou consigo mesmo por um momento. Decidiu que podia ser verdade no fim das contas.

Decidiu decidir. Decidiu que nada que ele jamais pudesse escrever, nem eu um mihão de anos, chegariam aos pés das palavras por ela ditas. Decidiu que nada que ele jamais pudesse desenhar ou descrever chegariam aos pés da beleza natural dela. Decidiu que não deixaria um centímetro da pele dela por beijar se a tivesse nos braços. E decidiu que deveria parar de sonhar, já não tinha mais idade para isso.


-"Não tinhas morrido, excomungado? Que fazes aqui que não estás queimando no inferno?"

-"E deixar você estragar tudo? Não seria tão imbecil. Por aquelas bandas não me querem, e eu não quero aquelas bandas por morada."

-"És um masoquista que aspira realeza, isso sim. Um néscio que mais serve de besta de carga do que de sumo regente."

-"A dor não me incomoda, tornou-se companheira querida. Zombes o quanto queira, desejarei para que obtenha o logro em tudo que faças e que o mundo ria junto de ti.  Alerto-lhe porém, que ainda que já não possa mais ver nada além daqueles olhos e talvez até esteja fora de meu juízo perfeito, mas ainda assim sou teu rei enquanto ela for minha rainha."


Invincible

Ele nunca disse que era invencível. Invulnerável. Na verdade, sim, tinha dito, mas nunca tinha acreditado. Nunca tinha levado isso em consideração, nunca havia sido o imortal que deveria ter sido. Ele só espalhou isso aos quatro ventos e torceu por estar certo o tempo todo.

Nunca fora frio e inconcebivelmente inalcançável. Nunca fora distante e reservado. As coisas doíam mais do que ele deixava transparecer, sentia cada uma delas fazer seu estrago. Ele não era nem um pouco invencível. Ninguém é invencível. Nem mesmo quando se está apaixonado e sente-se invencível, com o mundo nas mãos. Isso é ilusão. Tanto não era invencível que estava morto agora mesmo.

Bang! Morto. Bang! Bang! Pra ter certeza. É. Morto mesmo. É estranho numa hora ter quase certeza que se sobreviveria à um ataque nuclear e no outro morrer por um motivo tão besta, pensa ele estirado no chão sangrando mas inabalado de qualquer jeito, as mão sob a cabeça e analisando uma nuvem que se parece bastante com a poça de sangue que se formou em torno dele. É estranho ter morrido uma vez, ressucitado pra então morrer de novo, pensa ele com a respiração complacente de quem sabe que não tem muito tempo. Então ele desiste finalmente:

-"Morri. Bleagh!*careta de dor*."

E se levanta. Enfia as mãos nos bolsos e sai andando na direção para onde as pessoas andam depois que morrem. Acho que é Sul-Sudoeste. Talvez não. Quem sabe as pegadas de pato levem-no até seu inferno particular. Talvez não.

Homewrecker, Heartbreaker, Soul Sneezing.

- "O que é essa angústia? Essa urgência em fugir e essa inexorável vontade de permanecer onde estou?"

-"É amor."

-"Amor? Simples assim? Então é amor o que aperta meu peito e faz minha cabeça rodar desde a primeira vez que olhei dentro daqueles olhos perguntando se era ou não amor o que apertava meu peito e fazia minha cabeça rodar?"

-"É. Isso é amor. O que te faz querer morrer toda vez. E o que vai te matar um dia. É essa coisa que te corrói por dentro e abre um buraco na sua alma. É aquilo que foge com o seu coração e te deixa parecendo um fantasma. Isso é amor, isso e muito mais é amor kiddo."

-"Queria que parasse. Só... só parasse."

Natural Blues, Unatural Grey

Um homem se pergunta se mais alguém ouve seus problemas além de seu deus. Claro que não, mas não custa nada se enganar às segundas-feiras. Andando sem rumo no escuro da noite, mãos nos bolsos. Talvez para protegê-las do frio, talvez para esconder suas reais intenções. Talvez só procurando uma intençãoque lhe sirva em meio aos fiapos da calça mais velha que o último governo.

Um cachorro vadio cruza seu caminho e subitamente ele sente saudades do cheiro da pólvora de um revólver recém disparado em suas narinas. O pelo preto da criatura reluz sob a lampada halógena da rua. Deve ser um mau presságio. Ou será que isso só acontece quando os gatos pretos cruzam seu caminho? Não consegue se lembrar. Não faz diferença, já estava amaldiçoado mesmo. O incomodava não saber para onde ia. Incomodava mais ainda não saber quem era.

Sentiu uma gota bater no peito. Não estava chovendo, o céu sem estrelas de um cinza inatural não tinha uma nuvem sequer. Demorou um segundo até sentir o sal das lágrimas. Se perguntou por quê. Se perguntou sobre todos os por quês, do por quê de tudo não ter sentido algum. Riu. A voz rouca de não ser usada. Achou engraçado por que não conseguiu responder. 

Vultures, Stray Cats And Lonely Ducks

Digo que não sonho por que não sonho, tenho pesadelos. O mesmo. Sempre. Como tudo que é recorrente depois de um tempo você acaba se acostumando. Não deixa de ser desagradável todas as vezes. Ás vezes acordo e tenho a impressão que não tive sonho nenhum, que talvez tenha escapado, mas sempre tenho a sensação de que vi algo. De que as horas de sono não foram vazia, quando me esforço para lembrar lá está ele. É horripilante à sua própria maneira, interminável do jeito que só os pesadelos podem ser.

Um pato, um gato preto e um abutre. O fundo é de um laranja indefinido e tudo parece muito quente. O gato, grande e com aparência de vadio, à espreita do pequeno pato, presas à mostra o tempo todo e saliva brilhando no canto da boca aberta. O pato alheio à tudo isso só anda do seu jeito desengonçado em frente. Sempre em frente. Pateticamente insistindo na árida paisagem. O abutre feito uma maldição, um mau agouro sobrevoa os dois pontos distantes no chão. Descrevendo círculos no céu, cada vez mais baixo. Pios que congelariam sua alma e impiedosos olhos aos quais nada escapa. Mas o que faz essa cena tão perturbadora é o fato de não haver definição. Só expectativa. Sempre acordo antes do desenrolar dos últimos atos da estória.

Não pretendo entender. Não quero, acho. Não quero analisar e tentar definir as coisas que ocorrem. Traçar paralelos e revelar as metáforas envolvidas. Contento me em ser espectador do drama. Não disse nada à ninguém um mês atrás quando ele apareceu e não diria nada a não ser que fosse realmente importante.

Ontem eu vi o final. Um final hiper-realista que só uma mente como a minha podia criar. O gato pulou na garganta da ave com um guincho feio que os gatos fazem, talvez para combinar com a cara feia da criatura, mas errou. O alvo cambaleou debilmente por alguns instantes e por meio segundo tudo pareceu que ficaria bem. Meio segundo. Ouvi o pescoço da ave quebrar sob as pesadas garras do abutre. A carnificina que se seguiu é rápida e desordenada. Pedaços são separados pelo bico sujo do carniceiro com estalidos e sons guturais. O gato roubou uma das pernas e a trilha de sangue faz desenhos engraçados enquanto ele corre. Por fim, tudo que restou foi uma coroa de ossos,

Are You Alone Today? I'm Always Alone

Espaço demais o incomodava. Não incomodava antes, mas agora lhe fazia mal. Por isso abriu mão do conforto e entrou no trem atulhado de desconhecidos sem pestanejar. Sorveu o caos e a leve pressão nas suas costelas (causada por um insistente cotovelo) com a melhor cara que podia criar. Pensou que precisava de alguém que limitasse seu espaço, pensou que não queria um cotovelo junto ao peito, mas outra coisa. E depois tentou não pensar em nada, devanear num trem em movimento não é a mais saudável das atividades, tudo balança muito e ele sempre acaba pensando em mar. Achou sinceramente que tinha conseguido essa façanha quando olhou casualmente para o metal frio que o apoiava.


-"Você acredita em estrelas?"

-"Não. E você?"

Em algum lugar talvez uma estrela gêmea, tão borrada quanto aquela se perguntasse a mesma coisa. Mas eu não apostaria muito dinheiro nisso.

Starshine

Tem uma estrela no meu dedo anelar e eu não sei o que ela significa. Tem uma estrela no céu acima da minha cabeça e eu não sei o que ela significa. Piso no reflexo de uma estrela e me sinto grande. Esmagando estrelas. Sem entender o que elas significam. 

Será que um dia vou entender as estrelas? Achar um significado pra elas? Talve ache. Talvez não. Talvez nem mesmo importe. Mas sei que serão sempre estrelas. Ofuscadas pelos raios de sol.

Words That We Couldn't Say

As palavras são os tijolos que constróem todos os aspectos da vida humana. São o único meio seguro e à prova de idiotas de se comunicar. Sejam elas ditas, não ditas, escritas. Sussurradas nos ventos da mudança ou no calor do marasmo de uma tarde irreal. Frases, períodos, toda uma norma e organização para a simples tarefa de expressar-se.  

Por que palavras são antes de tudo ferramentas. Ferramentas pelas quais os amores são criados e perdidos. Ferramentas que moldam a realidade. Ferramentas subalternas à minha vontade de mudar o mundo. São irreversíveis. Depois de ditas não mais pertencem a quem as teceu. Tornam-se propriedade do receptor. Elas podem ser retorcidas e ignoradas. Jogadas num canto e esquecidas. Totalmente à mercê da interpretação. Do humor. Da opinião de outrem.

Ela tem não a minha palavra, mas todas as minhas palavras. Assim como tem todos os meus pensamentos. Até que suas palavras me digam o contrário. 

Ressurection On The Third Day

This is who I am. Laughing my ass off with the stupidest things you can ever imagine. Saying the more insightful things, not always on purpose. Having a change of mind every two seconds, but never a change of heart. Shattered mind, and still mindless following her sweet figure around. Paying any price for liquid inspiration, and being pricelessly dumb without aparent reason. Drinking an obscene amount of the cheapest wine I could find and still being able to lie for four hours, but getting utterly drunk just by her presence. Writing things no one ever fully understands and never fully understanding what I write.

Never wrote in a foreign language, even if sometimes I do think in a foreigh language. Actually, what could be better at describing a foreign feeling than a foreign language? Foreigness always were a constant, in every universe I've ever been. Like an unwritten rule for existence. A realm I couldn't ever be a king. A foreign king? An intruder? That's a ludicrous idea. On the tangled web I've weaved, it's right to trust any dialect to express the things that come out of my head?

Ducksie Duck is thougher than it looks. A true immortal. He'll keep falling, and falling, and falling, and falling in love. And Honey Bee will continue to catch him everytime. Sometimes quick as a cat, sometimes after a few desperate and endless and uncertain moments. Long live the king. A foreign one after all.

Even if she couldn't ever read this. Even if these words don't mean anything to her. I'm sure, even if assurement is overrated and mostly inexistent, that she aknowledge every meaning, every abstract concept here descripted just by the way I look at her. Couldn't be more obvious if I had carved on my forehead with a silver fork. Shiny things rocks.

The Ghost Of Every Lost Love

Era uma vez algo que não era nada além disso, nada. Era outra vez algo que sempre fora tudo o que quisera ser, mas nunca o tivera sido. Era pela última vez a ilimitada possibilidade de ser nada além de tudo o que quisera ser.

Ilusões não desaparecem. Não esmaecem com o tempo. Principalmente por que elas não existem no sentido certo da palavra. Elas dependem totalmente da crença. Eu acredito em ilusões. Simpatizo com elas. Não suportaria ser um ilusiocida. No fim das contas não sou eu também uma delas? Não seria arrogância minha descartar essa possibilidade? Simplesmente ser fere a vontade. Fere a escolha do que ser. O que você quer ser hoje? Um bebê pato? Talvez prefira criar uma espinha dorsal e deixar de ser um verme.

O que não foi e nunca e nunca será estão além das definições, pertencem somente ao restrito mundo da crueldade sem limites. Num quarto escuro eu encarei meu verdadeiro eu, acompanhado de todos os fantasmas e aspirações mortas que ainda hoje me assombram. Ele não gostou do que viu, e eu ainda estou tentando tirar o gosto de sangue da garganta depois que a realidade me acertou um soco na boca. Doeu. Muito.

Run Like The Wind

Corra. Fuja. É o que você faz melhor não é mesmo? É seu padrão de comportamento. É você no final das contas. Desista de tudo que te define. Abandone o que aprendeu a conhecer, aprendeu a conviver. Aprendizado inútil. Comece de novo em algum outro lugar. Onde ninguém te conheça. Coloque as máscaras de novo. Foi uma idéia estúpida desde o começo.

Volte ao controle, mesmo que doa. Mesmo que a dor seja insuportável. Corra! Felicidade é só uma palavra. Vá para onde a gramática nao importa então. Cada homem é uma ilha. Um solitário rei de si próprio. Atue de novo. Você era bom nisso. A única coisa em que você era bom, por que você renegou isso? Desperdício. O maior desperdício. 

60 dias. Pouco mais que isso. O tempo passa mais devagar dependendo do seu estado. Envelhecerá anos. Amadurecerá cedo demais mais uma vez. Morrerá de novo. Renascerá como se nada tivesse acontecido. Assim que puder correr de novo. 

Me And Monsterman

O monstro que mora no meu peito não é a mais agradável das companhias. Nem agradável em qualquer maneira. Ele se move constantemente, me mantendo acordado por horas. Nauseado até. Sinto-o revirando-se de uma maneira desajeitada e desconfortável, claramente pela falta de espaço. Como algo tão grande e cheio de garras e dentes pode caber num espaço tão pequeno? Como algo tão grande e cheio de garras e dentes foi parar lá pra começo de conversa?

Ele ri da minha desgraça sempre que pode. Gargalha até não poder mais respirar, o estridente som ecoando nos meus ouvidos. Impossível deixar de ouvir. Comeu minha consciência um dia, aquele anjo que fica no seu ombro direito, e agora sussurra mirabolantes conspirações, desvirtua valores no tempo de um batimento cardiáco. Impossível deixar de ouvir. Cada vez que cedo à sua influência, ele ganha mais e mais espaço, apertando e forçando minhas costelas. Arranha e empurra tudo em seu caminho tirando-me o ar dos pulmões e colocando-o em algum outro lugar onde eu não posso alcançar. Regozija-se. Sabe que não demorará muito até que ganhe. Até que me vença por completo. Baba de antecipação. Diz com a voz grave demais: "Mais um pouco, só mais um pouco". A respiração entrecortada. A certeza no tom de voz. Temo o pior toda vez.

Se uma mulher passa ele diz obscenidades e rosna baixo de satisfação. Tenho asco mas é impossível deixar de ouvir. Domina aos poucos todos os aspectos e sentidos. Pareço ouvir sua voz sair de minha boca em dados momentos. O negaria todas as vezes, e mesmo assim nada me salvaria do desespero por ele criado. O medo de não mais ser eu. Mas ela. Ela consegue. A mera visão de sua doce figura faz o monstro que mora em meu peito ronronar feito um gatinho. E posso respirar de novo.

Is Your Soul Branded?

A sola dos meus Nikes ® trouxeram-me até a cafeteria no meio do shopping center caro demais para a minha renda mensal. O café nem é tão bom, já bebi melhores, mas definitivamente esse é o único com o grande e verde logo do Starbucks Coffee ®. Ouvindo uma música que a Sony ® não me autorizou a ter eu penso em muita coisa e nada em especial. O Nokia ® no meu bolso apita e eu ouço uma voz por cima do movimento que me cerca. Alguma coisa sobre Mc Donalds ® e uma Hewlett Packard ® relutante em cooperar.

Um rapaz com cara de revolucionário wannabe passa em frente ao balcão, resvalando no meu café. Murmuro algo sobre achar inaceitável a Cavalera ® vender revolução enlatada com essas camisetas do Guevara. Será que alguém já patenteou Cuba? Melhor checar. Seja vegetariano, grita uma camisa encabidada por uma garota feia demais para contribuir com a aceitação do apelo estampado. Trademark, Go Green Ltda ®. Etiquetas, nada mais que etiquetas, diz o garoto que tem sonhos molhados com MacBooks™ e Nintendos™.

Na ilha de cafeína cercada por bugigangas por todos os lados, sentado num banco alto e apoiado num balcão voltado para o corredor, eu tenho uma epifania. Todo mundo lá fora é parte de um desfile de animais exóticos. Tipos estranhos sujeitos à analise e medição. E todos do lado de dentro da intransponível barreira de carpete e copos de papelão estão assistindo as cores mudarem diante de seus olhos, eu incluso. Talvez para se encaixar, seja preciso não se encaixar. Compre transgressão. E goste.

Rir-me-ia mentalmente do pobre sujeito com o cabelo indomável curvado numa posição humanamente impossível quando percebi que era eu refletido no espelho da escada rolante. Talvez quem esteja em exposição seja eu, não eles. Se eles são o que eu vejo, talvez eu seja o que eles vêem. Talvez, e só talvez, eu seja a calça surrada, talvez os tênis quase brancos. Quem sou eu? Meu copo diz "Leonardo". Eu acho que ele está mentindo.

PS:. A parte do copo é verdade. Escreveram o meu nome errado no copo.

I'm Gonna Get My Shit Together

Eu tenho que tomar jeito. Definitivamente tenho que me acertar. Não posso viver assim pra sempre. Esse foi o pensamento que me acertou quando acordei uma vez mais atrasado. O som estridente do despertador ecoa na minha cabeça e tenho a impressão, muito mais do que passageira, de que desperdicei mais uma noite. Não durmo há meses. Realmente dormir, não esquivos cochilos aqui e ali. Quando você nunca realmente dorme, nunca realmente está acordado. Tudo é longe. Tudo é a cópia de uma cópia de uma cópia. Mentira. Só estou justificando um comportamento injustificável.

Preciso me recômpor. Ou melhor, cômpor, já que nunca realmente estive no caminho certo. Responsabilidades, pense em responsablidades sr. Orlandi. Você vai acordar mais cedo, dormir melhor, comer direito, arranjar um emprego. Mentira. Mentira. Mentira. Mentira. Vou achar uma garota legal e aquietar o facho. Contentar-me com uma vida simples. Já pensei demais, preciso de uma esposa. Duvido.

Contentar-se é a palavra. Parei de brigar com as limitações. Desisiti das aspirações. Abdico do trono do mundo. O mundo que se exploda. Ser como todo mundo. Único feito todo mundo. Ficar sem fazer nada relevante e esperar pacientemente a aposentadoria de um emprego que eu não gosto. E depois que a aposentadoria chegar, esperar ansiosamente pela morte. E quando ela chegar, agarrar-me à cada coisinha que me mantêm vivo. Parece promissor não?

Dead Like Me

Olho para os olhos pintados da garota à minha frente com uma determinação de aço. Digo ao meu corpo que ela é tudo de que eu preciso. E não me impressiono quando ele responde com certa relutância em prosseguir. Paralisado no meio de um movimento usual. Nunca me ocorreu antes. Dizem que os quadris de uma mulher desviam um homem de seu caráter tão bem, ou melhor, do que uma garrafa de scotch e eu lhes digo que é perfeitamente verdade. Essa é exatamente a minha intenção hoje à noite. Quero ficar o mais longe possível do que eu era. Ou achava que era. Hoje eu borrarei a imagem dela de dentro da minha cabeça.

Tenho conversado muito comigo ultimamente. Fico dizendo-me coisas que deveriam ser ditas em outra ocasião. Eu nunca me respondo no entanto. Nunca me disse que não foi minha culpa. Repito o mantra de que a culpa é minha e somente minha. Porque é. E eu nunca minto. Não pra mim mesmo. Não faria sentido.

Me perguntei por um tempo se eu realmente fiz a coisa certa. Não consegui responder. Não me senti com autoridade de me corrigir. E de todas as dúvidas, a que mais me incomoda é se eu realmente deveria estar fazendo isso. Se não é cedo demais. Se qualquer dia vai se tornar passado e parar de me assombrar. Se um dia eu vou parar de olhar por sobre o ombro em todas as situações, como eu faço agora. Ela está me esperando com um olhar confuso. Melhor me apressar.

-“Acho que ela ia querer que eu me apaixonasse de novo.” – Digo a mim mesmo mas soa muito pior do que eu pensava. Repreendo-me. Como ouso falar como se ela estivesse morta? Quem morreu fui eu.

Snowflake

A ilusão de ser diferente é o pior tipo de ilusão. No final das contas tudo acaba sendo igual. Você é único, igual todo mundo. Diferenças são uma forma de insatisfação. Parecer diferente do esperado é só uma fuga. Uma forma de transgressão que não me agrada. Como se algum tipo de transgressão agradasse alguém. Não existem dois flocos de neve iguais, você diz. Eu digo que eu não ligo. Todos eles derretem do mesmo jeito.

Ser diferente significa que você não teve culhões de ser o que você é. É afastar-se do ser. Negar o ser. Um grito de ajuda e uma súplica de aceitação. Só prova o que todo mundo já sabe. Que não há diferença. Todo mundo faz parte da mesma matéria decadente, pilhas de atómos que por um acaso se importam umas com as outras. E o que é se importar senão só mais um comportamento pré-determinado? Aqui e ali são a mesma coisa. Agora e amanhã são idênticos. Essa linha e a anterior passaram a mesma mensagem. Você vai ver algo diferente toda vez que ler isso, mas sempre vai significar a mesma coisa. Pare. Antes que seja tarde.

The Boy Who Cried Wolf

Das milhares de milhões de coisas que ele não se sentia confortável em permitir-se realizar essa era a que mais o confundia. Não sabia exatamente o por quê, mas sempre sentia a vontade de fazê-la, mas nunca parecia a hora certa. Parecia tão simples. E as pessoas faziam o tempo todo ao seu redor. Era um pouco frustrante pra dizer a verdade. Impossível se sentir parte de algo, sentir-se ligado à alguma coisa quando não se consegue dizer 'eu te amo'.

Supunha que só não via necessidade. Que não entendia a motivação necessária. E que certamente pareceria fingido se saísse de sua boca. Imaginava as palavras arranhando sua garganta enquanto uma voz muito parecida com a sua própria gritava que estava mentindo em sua cabeça. Era como um alarme, toda vez que as três palavras soavam em algum lugar próximo um neon do tamanho de uma cachalote se acendia em seus olhos. 'Mentira' em letras garrafais viam-se à torto e a direito.

Levando isso em conta, considerava que nunca havia ouvido as malditas três palavras. Mesmo já tendo sido alvo de frases do mesmo sentido muitas vezes. E todas elas era como se ouvisse 'deseja um ou dois torrões de açucar?' ou qualquer outra frase igualmente inconspícua. Baseou-se inteiramente neste aspecto de sua existência. Fez o que todo mundo faz, adaptou-se. E tirando a fama de sem coração, levara uma vida normal.

Até o momento em que pela primeira vez um 'eu te amo' soou como 'eu te amo'. E subitamente tudo ao seu redor pareceu apático e sem graça em comparação com o eco da dita frase em seus ouvidos. E quando forçou-se a duvidar da credulidade da situação, um já conhecido luminoso piscou 'Mentira' diante dos seus olhos. As palavras zombavam inquietas em seus lábios mas não tinha certeza se permitiria que saíssem assim sem mais nem menos. Provavelmente não acreditariam, Pedro e o Lobo finalmente fez todo o sentido do mundo.

Cumulus Nimbus

Ele dizia que apaixonar-se é como olhar as nuvens. Você escolhe uma, se afeiçoa à ela, observa maravilhado enquanto ela faz o seu caminho pela esfera celeste com a melancolia de quem sabe que amanhã não vai mais vê-la. E no dia seguinte você faz a mesma coisa, procurando uma nuvem que te lembre da do dia anterior. Até o dia em que você percebe que não mais se apaixona pela nuvem, mas pela idéia de apaixonar-se. Que ama só o conceito de nuvem. Buscando semelhanças em algo que é substancialmente idêntico em formação para satisfazer seu ego. Até o momento em que o movimento, o percurso não mais importa. Arbitrariamente escolhe e não mais surpreende-se com os detalhes.

Eu não me apaixono mais por nuvens. Elas sempre somem quando eu não estou olhando. Meus olhos não mais permitem-se desviar dela, nem mesmo para olhar o céu.

Hollow Man

Eu me tornei esse homem vazio que me encara no espelho? Finalmente cedi à pressão? As olheiras no meu rosto evidenciam a falta de sono e me dão o aspecto quebrado que por um tempo aspirei, mas hoje me enoja. Esse homem ainda é merecedor de alguma coisa ou é só mais um desesperado? Ainda é um homem por assim dizer? Ou só mais um objeto sem vontade nem perspectiva?

O passado finalmente me alcançou e me encheu de melancolia que não foi bem vinda. A incerteza do futuro me confunde e não tenho certeza se estou preparado. O presente me faz querer gritar e eu não sou capaz mais de organizar meus pensamentos. Ao mesmo tempo quero correr e não tenho forças para me levantar. Ao mesmo tempo odeio e amo. Ao mesmo tempo sou eu e não sou. Vazio. Oco. Fingido. Atuando magistralmente num teatro de máscaras do tamanho do mundo. Não se pode fingir o tempo todo, velho amigo. Não vou durar muito, camarada.

E pensar que aspirei em ser salvador do mundo. Pensei ser capaz de salvar todos os malditos e oprimidos, os fracos e os imprestáveis. Cavaleiro branco, que não faz distinção em nenhum fator. Justiça certeira. Deveria ter desconfiado que chegaria à esse ponto quando comecei a pensar que se o mundo realmente me pedisse ajuda eu responderia um seco não. Quando nada mais me parecia merecedor de salvação. Não tenho ânimo nem para pedir que alguém me salve. Não tenho nem esperança que me salvariam se pedisse.

We Don't Belong To Future

Ela tinha muito o que confessar, mas ele não tinha tempo, então limitou-se a olhar pro outro lado enquanto ela esvaziava seu coração em súplicas e pedidos infundados, frutos da insatisfação que a tomava sem cerimônias, dizendo coisas que ele não teria coragem nem de pronunciar, muito menos de ouvir. Isso não poderia acontecer, disse ela. Não estava acontecendo, pensou ele. Não é assim que as coisas funcionam, disse ela em meio ao choro. Ele só queria que ela tivesse um botão de desligar. Quando nada mais se fez ouvir o ambiente estava pesado e as cabeças leves. As consciências tiveram sua deixa, e nem todas elas aproveitaram a oportunidade.

Ele esperou até tudo ter acabado para notar que algo estava errado desde o começo e se arrependeu de coisas que não deveria se arrepender. Típico. A culpa foi atribuída à diversas pessoas até inevitavelmente alcançar seu dono por direito. E quando finalmente lhe pesou sobre as costas já era tarde demais. Queria ter dito o que pensava, e pensado no que dizia. Olhou-se no espelho e não mais a viu. Aliviou-se primeiro, depois chorou. Homens não choram, disse a si mesmo. Não era mais homem. Era outra coisa.

O futuro que não mais existia olhou para trás e não podia fazer nada além de lamentar pelo que não ocorreu. Havia passado toda a sua existência esperando pelo momento anterior à ele. Mas esse momento nunca existiu. Quem sabe agora poderia ser o astronauta que sempre quis ser. Antes de partir escreveu um bilhete para aquilo que não mais era. Lia-se "Adeus" na caligrafia torta e apressada, característica comum à todos os que se cansam de esperar.

O bilhete só era. Nada mais.

Walking Dead

Sempre achei que escolheriam uma lápide mais bonita. Mas não faz diferença, toda lápide é fria e distante, não importa se é feita de mármore rosa ou a desbotada pedra à minha frente. Monumentos desprezíveis, nunca me importei com eles. Não achei que fosse possível, mas o suor frio escorre quando leio meu nome parcialmente encoberto pelas ervas daninhas.

Terra de ninguém, sinistras silhuetas e um homem morto. Parece certo. Soa certo. Tudo se encaixa na paisagem. Sentado ao lado da última residência que jamais terei, na grama seca que incomoda e arranha eu penso no que me foi imposto e no que impus. No que fiz e no que não fiz. Em todas as pontes que foram queimadas até que nenhuma restasse. E mesmo com a crescente insatisfação e a bile subindo pela minha garganta eu me permito fitar o céu quebrado e incorpóreo. Não tenho esperança mas procuro mesmo assim. Por alguma coisa, qualquer coisa. Não tem nada lá. Rio porque já sabia. Rio mais forte porque considerei estar errado.

Levantar-me causa um rangido baixo nos joelhos e projeta longas sombras em minha própria efígie. Ando pelo caminho imaginário que se estende por milhas à frente tentando ignorar a esmaecida luz que passa pelas pesadas nuvens, empalidecendo um ponto aleatório. Estou vivo e não me engano mais.

Wall

' Vai dar trabalho. Reconstruir a muralha que separa os pensamentos perigosos do resto do mundo e que afasta tudo que tente encontrá-los. Levou anos para ser construída e foi embora num piscar de olhos. Sinto por tê-la conhecido, talvez senão tivesse ocorrido tal coisa ainda estivesse inteiro.

A nova muralha vai ser maior e mais forte, para manter cativa toda a corte que se formou em minha cabeça. Palhaços, conselheiros, canídeos e petulantes barões do nada. Se me tornei algo que nunca deveria ter sido, sou inocente como um púbere infante. Ou o que restou de mim.

Todo mundo esconde-se atrás de alguma coisa. Mesmo os personagens criados com o intuito de esconder reais intenções criam seus próprios personagens. Arranjar álibis torna-se difícil quando se é o boneco e o ventríloquo, continuo responsável pelo que um diz enquanto o outro bebe água. Enfeitiçado sigo pelo caminho escolhido pelo dia de hoje. Tapo o sol com a peneira mas não admito que estou completamente desnorteado.

Fell In Love Without You

Ontem eu me apaixonei por outra pessoa além de você. Não foi a mesma coisa. Penso se alguma vez vai voltar a ser como era. E penso se eu realmente quero que volte a ser como era. E depois disso, que eu definitivamente não sei o que eu quero. Mais um dia, mais um coração quebrado. Meu estoque deve estar no fim. Quantas vezes mais isso pode acontecer?

Talvez meu humor seja temporário. E talvez você seja temporária. Talvez ela seja temporária. Talvez a necessidade de mudança seja a única coisa absoluta. As coisas por dizer as únicas certezas, e os significados ocultos completamente irrelevantes. Talvez lê-la não seja possível ou talvez eu esteja cego.

Quero dormir, mas qual é o sentido se meus sonhos estão maculados com as palavras que eu queria ouvir sair de seus lábios. Quero não querer. Mas até onde sei minhas vontades podem ser somente ilusórias, maqueando intenções que desconheço e que prefiro não desbravar.Que a ignorância seja benção, e que me esqueça de procurar o Santo Graal no próximo abraço. Não sei se aguento uma missão fracassada, iria acabar com minha invencibilidade. Que os torpedos sejam minha bélica salvação.

It's Never Ending

Parado onde ele deveria estar. Esperando quem ele deveria esperar ele pensou. Por um momento se sentiu fraco. Depois pior que isso. Até o ponto em que se sentiu pequeno demais para ficar de pé, e se sentou. Se levantou de novo pois pensava em fugir. Sentou-se justamente para impedir que o fizesse.

Todas as cartas de amor que não foram mandadas o cortam como navalhas enquanto os ventos da mudança trocam tudo de lugar. Ele deveria ter ido, mas não foi. Tudo que ele tinha que fazer era dizer adeus, mas só conseguiu dizer um engasgado "até amanhã". Ele estava preso. Sua ignorância e falta de tato os únicos a se culpar. Culpar a si mesmo não adianta, não tira o peso das suas costas.

Ela aparece e ele pensa como vai dizer. Como contar-lhe. E mais uma vez sente a força se esvair. Nada mais faz sentido. Todo o esforço, todo o ensaio, toda a precariamente angariada coragem não mais atendem suas recentemente adquiridas necessidades. Tudo que ele precisa é manter-se por perto. Se o medo das mudanças lhe causou as mudanças que lhe aterrorizavam agora, talvez o medo de perder pela primeira vez algo que nunca teve cause a perda daquilo que mais preza. Talvez só tivesse tido o azar de acordar num mundo ao contrário, onde se deseja com todas as forças despedir-se da única pessoa que importa.

Não, definitivamente ainda está dormindo. Ela não pode ser desse mundo. Como se pode lutar contra isso? Adeus? Sim. Adeus velhos hábitos. Se despedir-se uma vez não fosse o suficiente, fazê-lo eternamente sem sucesso é o desespero.

You could use a little magic

Ela facilmente teria confundido o rapaz que subiu ao palco com um garçom se não soubesse suas reais intenções ali em cima. Era o aniversário de três meses de namoro deles, e o seu namorado não encontrou nenhuma outra maneira de celebrar o feito de conseguir manter-se em sua companhia por tanto tempo além de vir assistir um mágico num restaurante duas estrelas e meia na parte mais ao norte da cidade. Não gostaria de admitir, mas quase toda a estima que nutria por ele havia sumido à no mínimo um mês e meio, e só não disse nada por não ter exatamente certeza de como proceder. Era um bom rapaz. Um pouco infantil e possessivo, mas bom. Ela tentava conter a expressão de profundo tédio em sorrisos plásticos e voz dois tons acima do normal. Estava funcionando magnificamente.

Observou enquanto a figura de fraque subia em um meio trote enquanto a salva de palmas ribombava no salão. As mangas do paletó um pouco puídas aqui e ali. E a cartola tinha manchas de uma cor indistinguível. Tinha uma boa postura e uma impressão de estrangeirismo apesar do nome claramente comum. Quando o locutor pontuou-o com adjetivos como “inacreditável”, “surpreendente” e “fantástico” o ilusionista fez algumas mesuras que alegavam humildade. Tinha uma boa aparência vista do lugar onde ela estava, e a voz lhe parecia familiar e usual enquanto ele dizia algo sobre como a platéia parecia animada naquela noite de sexta-feira, tudo isso entrecortado pelos assovios insistentes de seu acompanhante sentado ao seu lado. Ela não achou nada de fantástico nele. Até o momento em que seus olhares se cruzaram e ela instintivamente soube que, se por acaso, ele precisasse de um voluntário da audiência, ela certamente seria escolhida.

A noite prosseguiu em meio a carteiras flamejantes, pombas voando de dentro de mangas e bandeirolas intermináveis. Coelhos foram tirados de cartolas e taças de vinho foram esvaziadas ao som da fanfarra que acompanhava o show. Ela ouviu a deixa para o último truque com uma ponta de euforia, e o seu namorado ainda tentava descobrir como diabos cabiam tantas coisas dentro de uma caixa tão pequena. George nunca foi muito esperto. George era o namorado dela. Ele ficou realmente animado quando ela foi gentilmente convidada a subir ao palco. E ela subiu. Foi ajudada por mãos enluvadas e ficou parada por um tempo estranhamente constrangedor enquanto o rapaz buscava uma caixa alta de trás do palco. George assoviou e acenou, deixando-a corada.

A platéia ouviu atenta enquanto o mágico explicava o próximo truque e ela achou que ele parecia muito maior visto de perto. A cartola o deixava mais alto. Ele girou a caixa, mostrando que não haviam portas escondidas, e sem fazer perguntas guiou a moça até o seu interior. A porta se fechou iniciando um rufar de tambores que durou o suficiente para que ele gracejasse pelo palco fazendo floreios e sussurrando coisas ininteligíveis. As batidas ritmadas pararam ao mesmo tempo em que a porta se abriu, revelando nada mais do que vazio em seu interior. As pessoas aplaudiram e gritaram por quase um minuto enquanto o mágico se curvava afetadamente. Ele começou a se despedir e dizer que estaria de volta no mesmo horário na semana que vem. Virou-se pra ir embora com um rodeio da capa de forro escarlate quando uma voz se ergueu da platéia.

-Ei! Onde está a moça? – Era George, incrédulo.

-Talvez em outra dimensão meu bom homem. – Respondeu o mágico com um sotaque fingido na voz. – Quem sabe para onde as coisas vão quando afetadas pela minha mágica?

-Traga ela de volta!

-Não posso. – Todo o salão prestava atenção na discussão recém iniciada.

-Como não?! Onde já se viu um truque de desaparecimento sem reaparecimento depois?

-A garota reaparecer no fim é opcional. As coisas simplesmente não estão sempre dentro da minha esfera de poder.

-Você tem que trazê-la de volta! Ela é minha! – A raiva começava a aflorar nas faces do rapaz e as pessoas a sua volta temiam que ele fosse fazer algum tipo de besteira.

-Você não acha que é um pouco de egoísmo de sua parte? Ela agora poderia estar em um lugar melhor, e mesmo assim, sem pedir sua opinião, você a quer de volta. Quer que eu a arranque de um lugar que talvez seja onde ela pertence de direito para voltar a esse mero mundo. Como eu disse, ela voltar é opcional.

-E eu quero ela de volta. Pronto, tem a sua opinião seu maricas. Agora traga ela de volta!

-A escolha não é sua. É dela.

-Ela deve estar num alçapão embaixo do palco não é mesmo? Ana! Ana! – Ele gritou. – Se você pode me ouvir grite de volta! – Silêncio. Incredulidade. Raiva. – O que você fez com ela! Traga ela de volta! – Sem perceber que estava se repetindo e assustando uma boa parte das pessoas à sua volta ele continuou a inquirir.

-Não acredita em mágica meu caro? Ela está nos olhos de cada um de nós. Procure-a!

E com outro rodeio desapareceu. Só a capa restava no lugar onde antes estava. E George desconsolado destruiu metade das mesas do salão até um gerente chegar e perguntar o que estava acontecendo. Quando questionado sobre o paradeiro do tal mágico o gerente só pode dizer: “Do que você está falando? Nenhum mágico se apresenta aqui”. No caminho pra casa George viu de relance alguém que muito lembrava sua namorada andando de mãos dadas com uma figura que lhe pareceu familiar, mas que não tinha exatamente certeza da onde o conhecia. Talvez se vestisse um fraque. Naquela noite ele teve pesadelos com pombas e cartas de baralho, e uma parte particularmente assustadora onde caía dentro de uma escura cartola sem fundo.

Acordou pensando ser quinta-feira. Ligou a T.V. enquanto preparava café da manhã. Um comercial sobre um cereal estava passando. Tinha um brinde dentro da caixa, todos os cereais têm um brinde hoje em dia. Este tinha um anel mágico que supostamente revelava mensagens escondidas. Parando pra pensar ele pensou que seria bem legal ter um anel mágico. Se virou para perguntar à sua namorada o que ela achava mas parou no meio da frase quando percebeu que ninguém estava escutando.

All Hail Queen Bee And Baby Duck

- Eu que já não me pertenço, eu que nunca pertenci a ti. Eu que não pertenço a ninguém além do mero acaso. Não posso fugir. Escapar está fora de cogitação. Aceitarei de bom grado a imposição do meu fado, curvarei-me diante do destino traçado por deuses antigos e forças que não compreendo, mas somente por não mais ter forças para negar me a obedecer. Oh Nêmesis, estou a tua mercê, que meus débitos sejam pagos da maneira como achares necessário.

Sofrerei as consequências por minhas escolhas sem arrepender-me de nenhuma, minhas convicções estão acima dos pudores a mim impostos, que outro se envergonhe pois, por ser tão previsível e palerma! São muitas pedras no meu caminho, muitos espinhos para atravessar, muitas batalhas para um só homem. Ainda que esse homem seja eu, soberano do que não é, nunca foi e nunca será. Que as provações caiam ante minha persistência tal quais as árvores sucumbem ao laborioso lenhador.

Mas mesmo eu, que sou teu, não posso conter-me. Pois tú senhora, és a maior provação à que me propus. Que a ira dos deuses caia sobre meus ombros, a aceitarei de bom grado, mas que não me permeie com dúvidas alimentadas por teus belos lábios. O perigo vindo da boca de uma rapariga há de fazer tremer pois não até mesmo o mais turrão dos homens. Se a mera visão de tua silhueta me manda de volta à época em que era feliz, que efeito não terá em mim o som de tua voz? Mesmo que me diga "Odeio-te tanto quanto possível, és a mais vil criatura na face desta terra" a mim entoará poemas de exaltação aos primaveris encontros às escondidas. Pois não reconhecerei perfídia em tão meigo timbre, e nem enganação em tão serena face. Pois és tú o maior medo que guardo em mim. E fará-me correr feito criança grande se assim desejares.

-O que você está fazendo? - Perguntou o companheiro de quarto com uma expressão confusa ao supreender o mancebo em suas roupas de dormir gesticulando pelo quarto.

-Ensaiando. É uma peça da escola.

-E eu nem sabia que você fazia parte do grupo de teatro?

-Nem eu.

-E como se chama?

-Eu? Como você não sabe? A gente mora junto faz meses já, você realmente deveria começar a prestar atenção nas pessoas...

-A peça! Eu sei como você se chama. - Interrompeu ele.

-Ah!"Óde à Queen Bee e Baby Duck".

-Baby Duck?! Quem diabos se chama Baby duck?

-Eu. - Silêncio.

Thoughts Of A Dying Atheist

Estranho. Eu me preparei cada dia da minha vida para o que está prestes a acontecer, justamente para que eu não tenha nenhuma surpresa. Dizem que o mundo fica lento e sua vida passa diante dos seus olhos quando sabe que vai morrer. Correto quanto a primeira, errado quanto a segunda. Enquanto eu assisto num ritmo quase monótono, apesar das circunstâncias, o lento girar do tambor de um revólver que provavelmente vai deixar um buraco do tamanho de um punho na minha cabeça, eu infelizmente não pude dar uma última olhada no meu cachorro Bigby, que morreu quando eu tinha seis anos. Eu gostava dele. Uma pena realmente.

A surpresa a qual me referi não é pela ausência do pequeno border collie que alegrava minhas tardes de domingo, mas sim pelo fato de que eu realmente não quero morrer. Nunca pensei na minha vida como algo que se esvaneceria pouco a pouco, no fundo eu sempre soube que eu iria morrer com um estrondo. E antes de me arrepender por algo que eu fiz também. Mas me apego feito um covarde à cada molécula de ar, inconscientemente imóvel na frente do meu assassino. Isso é deprimente. Em mais de um aspecto. Quando você passa quase toda a sua vida se dizendo quando acorda que esse poderia ser o último dia, preparando-se para morrer a cada amanhã que chega, você certamente espera uma certa apatia nessa hora. Acho que ela está atrasada. Ah! Aqui está ela.

Bem, acho que não há como evitar. Nunca tive nada então não tenho que me preocupar com testamentos. Que alívio, eu não consigo lembrar do nome de ninguém que mereça nada. Parece que hoje foi o dia errado pra destratar as minorias étnicas. Bem feito pra mim. Espero que eles tenham plástico na vida após a morte. Por que? Porque se existir plástico na vida após a morte significa que há uma vida após a morte, o que seria mais interessante do que simplesmente ir dormir e não acordar. Dormir com os seus miolos pintados numa parede. Que a eterna danação caia sobre os meus ombros então. Desde que haja plástico. Foi uma péssima vida. Definitivamente péssima. Exceto por...

Ela me vem à cabeça, ouve-se o disparo, eu desviei. A bala encrustada na parede na altura onde a minha cabeça estava segundos atrás é o único lembrete de que ali ouve um confronto depois que ambos corremos, eu e meu ex-pretendente à assassino. Ele corre para fugir das autoridades, e eu corro para fugir da miséria que a minha vida se tornou desde que eu a abandonei. Ela vai me aceitar de volta, com certeza. Quantas pessoas podem dizer que desviaram de uma bala só por um momento a mais em sua compania?

Shadow

Sentado no parapeito da varanda no quinto andar do prédio residencial o mancebo pôs-se a pensar em muitas coisas ao mesmo tempo para poder realmente pensar em algo em especial. Era aquele período do dia em que não é nem dia e nem noite, mas alguma coisa entre os dois. Quando o céu não é azul mas também não é negro e tudo parece irrealmente claro. Não estava só, pois se estivesse diria que estava a contemplar o vazio, mas parecia não notar outra presença. Quase como se estivesse muito acostumado com ela para realmente pensar nela como outra entidade. Sua sombra o mimetisava não muito longe, ao revés da posição de um pálido sol lateral, projetada na parede diretamente às costas dele. Sobre o que pensava o rapaz não sabia, e a sombra também cega estava quanto ao conteúdo dos devaneios de seu parceiro. Então uma voz quebra o silêncio.

- Já aconteceu tanta coisa. Parece que uma vida inteira já se passou e eu nem cheguei aos vinte ainda. - Silêncio. - Eu estava me lembrando das coisas que eu fiz até agora. Acho que deveria ter feito mais, mas estou tão cansado, parece que me exauri ao máximo só para alcançar esse ponto. Irônico né?

Para um observador menos atento os detalhes passariam despercebidos. Porque esse é a definição de um observador desatento, senão não deixaria passar detalhes como este. Uma brisa passou, desarrumando o cabelo do rapaz, consequentemente o da sombra também, enquanto sua expressão mudava para uma de entendimento ao mesmo tempo em que os lábios da sombra se mexiam de forma compassada, dizendo algo que ninguém mais ouviu.

- É. Eu pensei nisso. Lembra daquela vez em que eu quebrei a perna? Você não teve culpa, eu me lembro. Um acidente que poderia ter sido evitado se eu tivesse dado ouvidos a você. Sinto muito por ter te feito ficar em casa tanto tempo. Mas se serve de algum consolo, eu também fiquei entediado. E o natal que eu arruinei porque estava possuído por satan? - Três segundos se passam e uma risada ecoa pelo ar morno. - Eu sei que não era satan, era só um resfriado. E eu sei que não era ectoplasma o que foi parar no bolo de nozes quando eu espirrei. Eu tinha acabado de terminar com aquela garota que eu conheci no supermercado lembra? Satan foi culpa dela. Me fazendo esperar do lado de fora enquanto chovia como se fosse a continuação do dilúvio. - Ele se cala e se contenta em olhar adiante e acenar positivamente com a cabeça a cada alguns instantes em sinal de concordância. - Você tá certa. Eu mereci aquilo.

O sol mergulhava em direção ao horizonte e alongava todas as sombras, não só a dele, pelas paredes. Mas ele tinha certeza que era o único que se sentia esticado também. Era engraçado, fazia cocégas. A lua apesar de bem menor também já se fazia visível e equilibrava o céu evitando que ele simplesmente pendesse para o poente. Se sentia grato por isso. Se o céu pendesse ele talvez virasse ao contrário eventualmente e todos os mapas teriam de ser refeitos. Os sons da rua, apesar de baixos, ainda podiam ser ouvidos claramente e uma buzina não intencionalmente deu a largada para um pensamento que ele gostaria de definir como simultâneo.

- Você já percebeu que eu sempre acabo estragando tudo? - A expressão dele mostra a falsa ofensa claramente enquanto ele vira a cabeça num movimento lento para fitar a parede. - Eu não queria sinceridade. - Diz num tom de voz quase apático. - Mas continuando. Só parece que não importa o quão duro eu tente eu sempre faço a escolha errada. A garota do supermercado. A vizinha do quarto andar. Aquela ex-colega de escola que tinha uma queda por mim à eras atras. Talvez eu não tenha nascido pra acertar com as mulheres. O que quer dizer que você não vai ter bebezinhos sombras tão cedo. - Outra pausa para um risada forçada. - É. Eu sei que você não quer isso. E não importa o quanto você me diga eu sempre vou discordar. Do mesmo jeito que você sempra vai falar que eu fico péssimo com meu terno cinza, mas eu gosto. Preto combina com você, não comigo.

Um tom avermelhado tingiu o céu e ele subitamente ficou com fome, mas sem motivo aparente. Os últimos raios de sol se espreitavam por cima da borda do planeta e ambos sabim que a despedida era inevitável. Mais tarde ele se perguntou por havia dito o que disse a seguir mas não chegou à nenhuma conclusão digna de nota.

- Me alegra saber que ao menos tenho você. Uma hora eu vou acertar e aí tudo vai ficar bem. Você vai ter um monte de bebezinhos sombras correndo pela sombra do playground e eu vou ser o padrinho de todos eles. Garotas vêm e vão, mas sua sombra é única. Até mais, te vejo de manhã.

Ele se levantou e não entendeu porque sua sombra não fez o mesmo. Ela ficou parada por uns instante e olhou-o como se pudesse ver através de sua nuca. Parecia chorar mas é difícil dizer. No outro dia ela não estava lá. Quando ele perguntou por perguntar à sombra da luminária da cozinha onde ela estava descobriu que tinha fugido durante a noite. Ele se sentiu traído da pior maneira possível. Um homem sem sombra não passa da sombra de um homem.

Find yourself

Percebo tarde demais que não tenho um isqueiro comigo. Tudo bem, eu não fumo. Acho que então seria melhor eu evitar entrar em algum evento cataclísmico onde os isqueiros sejam essenciais para a sobrevivência por enquanto. Alguma outra hora quem sabe. Eu não sei manejar fósforos e não fabricam mais gravetos, então os isqueiros são praticamente a única maneira de um cara como eu conseguir fogo. Estarei perdido se tiver que aquecer meu frio coração.

Tenho uma faca no meu bolso. Proteção você diz. Más intenções talvez. Os dois quem sabe. Na verdade, mais uma questão de comodidade. Nunca consigo abrir as embalagens de balinhas de goma com formatos engraçados, posso garantir que elas foram feitas para que qualquer pessoa com o mínimo de pressa falhe miseravelmente na tarefa de abrí-las sem desperdiçar metade do conteúdo pelo chão. E eu sempre estou com pressa para abrí-las. E eu nunca quero desperdiçar metade do conteúdo pelo chão. As pessoas pisam nele.

Algumas moedas tilintam no meu bolso. Eu gosto do som. Nenhuma delas é válida no entanto. Não como dinheiro pelo menos. Acho que elas valem o,ooo3 centavos de níquel se eu derretê-las. Mas eu não tenho meu isqueiro comigo. Elas são mais utéis inteiras e em formato de moeda. Nunca se sabe quantas fontes dos desejos você pode encontrar por aí não é mesmo. Você não precisa de dinheiro quando você tem desejos. Dez cruzados novos por um unicórnio é um ótimo negócio.

Por via das dúvidas estou com um mapa. De New Hampshire. E eu nem sabia que tinha um Old Hampshire. Mapas são importantes para duas coisas. Não se achar e se perder. Ou será que era o contrário? Tomara que eu ache o xis onde está enterrado o tesouro. O tesouro não importa, mas o xis me interessa bastante. O motivo do xis ser mais importante é simples. O xis demarca o lugar. O fim da viagem. Quando não se tem objetivos, o poder de estabelecer objetivos é essencial. Então, quando eu tiver o xis, minha jornada para a jornada infinita chegará ao fim.

Block

Ele olhou para a tela em branco e decidiu que iria continuar assim por algum tempo. Tentou todas as abordagens possíveis, todos os começos padrão. Escreveu uma primeira frase que nunca chegou a virar uma primeira linha. Já havia desistido de tentar duas vezes antes desta e, como nas anteriores, decidiu que seria a última. As idéias sempre são claras quando estão na sua cabeça por um motivo, lá elas podem ser o que as idéias são, abstratas. E às vezes, repetiu o pensamento para dar ênfase, por uma peça do destino você consegue moldá-las de uma maneira satisfatória. Mas é como segurar um sabonete, se você apertar forte demais ele pula para fora de alcance.

Enquanto pensava no que fazer com a fatia de tempo que tinha acabado de ganhar já que abandonara o projeto genial que tinha começado trinta e dois segundos mais cedo, um outro projeto genial acabava de chegar à sua cabeça e ele mais uma vez abriu o editor e fitou o branco da tela. Ele ouvia gritos para que ele fechasse o maldito programa dentro da sua cabeça e logo depois resolveu obedecer por que era um pouco assustador. A idéia não era boa mesmo. Convencer-se foi mais fácil do que pensou. Ele ouviu uma voz do lado direito de sua cabeça, uma voz que lhe lembrava de casa. Uma voz familiar de mulher que ele há muito queria ouvir. Que diferente das críticas incessantes dentro de sua cabeça era ao menos real.

- Hmmm. Parece que você não está fazendo muito progresso.

- Na verdade eu estou sim. - Pausa. - Eu só estou testando quantas vezes eu poderia fechar o programa antes dele travar, sabe como são essas coisas. Muitas idéias, não quero começar antes de ter certeza que não vou ser prejudicado por uma falha técnica.

- Sei. - Ele pensou sobre o quanto aquele tom de desdém o incomodava. - Eu acho que você está experimentando um caso agudo de bloqueio de escritor.

- Sabe, isso é engraçado. - Ele ri um pouco. E depois se pergunta porque está rindo. Sente a presença e o hálito quente perto de seu pescoço enquanto a voz ria de uma maneira muito mais elegante que ele mesmo. - Isso não é exatamente possível por dois motivos. Primeiro, eu estou tendo um monte de idéias. E segundo, eu não sou um escritor.

- O bloqueio só te impede de escrever, não de ter idéias. Você sempre teve idéias. Nunca soube o que você pensava. - Ela sorriu. Ele sabia mesmo sem ter olhado, quase como se os sorrisos fizessem barulho. Ele ainda não havia tirado os olhos da tela. E inconscientemente havia re-aberto a ferramenta mais utilizada nos últimos dias. - É o que você faz melhor, por que você não consegue mais fazer?

- Não é mais como antes. Falta algo.

- Você tem tudo o que precisa, não falta nada. Seus dez dedos, um computador, algumas idéias que não fariam sentido pra maioria das pessoas e até uma caneca com café.

Ela apontou e ele pôde ver no canto do olho somente um lembrete da pele dela e se amaldiçoou por ter feito isso no mesmo momento. Sabia que agora a conversa havia acabado. Respirou fundo e apoiou o peso no encosto da cadeira que respondeu com um rangido estridente muito alto em relação ao silêncio acentuado pela falta de conversação. Ele girou no acento e vislumbrou o lado que antes estava às suas costas com um olhar pesaroso. Se sentiu um caco e disse para as paredes.

- Antes eu tinha você.

Missing

As chances são que nesse momento, alguém esteja procurando por alguma coisa perdida. As pessoas perdem coisas o tempo todo. Sejam essas coisas as chaves do carro ou a mulher da sua vida. Sempre tem algo perdido. E certamente você perderá diversas coisas durante o tempo que viver. Agora, algum garoto na Holanda está procurando a câmara do pneu dianteiro da sua bicicleta vermelha. Mentira. Mas alguém deve estar.

E você acha que aquilo que você perdeu está perdido pra sempre e nunca mais vai voltar a ver aquela adorada coisa. Mas mesmo assim as vezes elas aparecem de volta, e você esquece delas depois de um tempo. Se não fosse pelas coisas perdidas acho que tudo ficaria meio monótono. Alguém sempre sente falta de alguma coisa. E as vezes essa coisa é uma pessoa ou alguma outra coisa que não deveria ser tratada como coisa.

Quando você perde uma peça de um quebra-cabeças ele fica inutilizado. Nunca mais vai ser completo e coisas assim. Mas eu monto eles mesmo se estiverem faltando peças. Não me incomoda. A falta de peças não te impede de montá-los, só de terminá-los. E a graça é montar. E assim que você aceita que vai existir um ou dois buracos na imagem, eles se tornam tão completos quanto qualquer outro.

-"O que você tá fazendo?"

-"Montando um quebra-cabeças."

-"Ah que legal! E é que figura?"

-"Paris à noite. Só que com uma cratera perto do Arco do Triunfo. É meio pós-apocalíptico."

Hollow

Tendo baseado tudo o que eu conhecia no fato de estar apaixonado, era de se esperar que quando tudo desmoronasse não sobrasse nada pelo que chorar. Tudo o que sobra é a ausência. Um ser que falta algo substancialmente vital para sua sobrevida. Algo que o faça são. Descubro-me vazio.

O buraco que o amor corrói dentro de suas entranhas é o preço da ilusão que te mantêm vivo por tanto tempo. E quando isso vai embora você faz a escolha mais importante da sua vida. Com o que pretende enchê-lo? Faz toda a diferença do mundo. A única coisa que não pode ocorrer é simplesmente deixar pra lá. Ser oco. Você nem ao menos é uma pessoa desse jeito. Mas de novo, por que alguém iria querer ser uma pessoa completa pra começo de conversa?

Showtime

Esse é o fim do mundo como conheço. Abandono tudo o que me acostumei em ver nos últimos meses. Deixo pra trás algo que nunca realmente encarei de frente. Ironia. Não é com pesar que digo essas palavras, mas certeza de que pesarão menos sendo ditas do que simplesmente imaginadas. Não é o adeus que eu pretendia. Mas é o adeus do mesmo jeito.

Talvez se tudo fosse em outra ocasião, ou se as coisas tivessem transcorrido de outra forma, ou ouso dizer, se eu não fosse eu, eu teria uma outra opinião quanto ao assunto. Mas quero que saiba que nunca faltei com a verdade. E que realmente teria aberto mão de tudo que possuo e de tudo que reconheço como sendo meu por um pouco mais de tempo. Pela possibilidade de tê-la ao meu lado.

Milhões de vozes me dizem para fugir e não posso renegar o que eu sou. As pessoas devem mudar ou morrer. E você me mudou, tudo que era 'eu', tudo que respirava 'eu' se equilibrava perigosamente perante sua presença. Me impedi de aceitar a queda. Vou-me embora antes que não mais possa me reconhecer. Antes que morra.

Aqui me despeço. Como um garoto assustado que reneguei à anos mas que ainda assombra-me com sua humanidade em esparsas ocasiões. Eu que sempre te olhei como quem olha um precípicio. Com um senso de profunda admiração por sua beleza natural, e uma pitada de um sentimento muito parecido com interminável terror por sua grandeza. Adeus, raio de sol...

Farewell

Toda vez que fecho os olhos, secretamente ensaio como dizer adeus pra você. Penso na maneira certa de fazê-lo e imagino cenários por inúmeras vezes. Parece um pouco ruim ter de ensaiar algo como isso, mas as coisas que merecem devem ser levadas a sério. Terminantemente não pode soar como um “até outro dia” ou um “volto logo” dito com um sorriso e sem pensar. Deve transparecer a idéia de que nunca mais voltará a ouvir o meu nome e que minha presença esmaecerá com o tempo e não restarão lembranças para recordar-se mais tarde. E quando os últimos resquícios desaparecerem, você duvidará de que sequer houvesse algo para se lembrar no final das contas.

Isso que um adeus significa. Isso é o que o adeus significará. Continuarei ensaiando enquanto precisar. Angariando coragem aos poucos para a ocasião. Se eu disser. Não. Quando eu disser.

Running

Sinto-me diferente. Mas não diferente como um rio que não se pode pisar duas vezes pois a água muda constantemente. Diferente disso. Diferente da maneira que levava as coisas. Diferente de tudo o que tenha conhecido. O que não é muito. Tenho limitado o que eu conheço a belas visões e coisas agradáveis. E quando atraio olhares pela cafeteria não me surpreende. Mesmo sabendo que alguns são devido ao estranho jeito de andar que tenho agora, proveniente de alguns acidentes. E que outros são de desaprovação por falar alto demais coisas que não querem ser ouvidas. E mais alguns por motivos menos nobres e um pouco mais fúteis.

Mas o que seria do mundo sem as coisas fúteis que te fazem esquecer que não há nada com o que se importar que não seja fútil. E o que é um homem sem algumas cicatrizes e dores para se lembrar além de um manequim? Cultivo minhas dores com o maior carinho. E as visto toda vez que necessário. E se meu pé me impede de te seguir, também me impede de fugir mais uma vez.

Say yes

Casa comigo Jaqueline?

Last Time

-"Essa é a ultima vez que eu desisto dela." - Fez-se ouvir no quarto vazio. Já estava no horário onde o silêncio importa mais que qualquer mensagem a ser passada e rapidamente ele parou de se mexer e prendeu a respiração como se ajudasse a não fazer barulho.

Vendo que o volume não havia igualado a importância da afirmação ele permitiu-se relaxar e voltou a pensar na sequência de fatos que deveriam ocorrer para que fosse claro a desistência e como obtê-los de maneira satisfatória.

-"A última vez. Ou eu desisto dela de uma vez por todas ou eu nunca mais penso em fazer tal sacrilégio." - Repetiu mais uma vez resoluto. Mais baixo dessa vez. Todo cuidado é pouco e uma decisão dessa importância não deve ser espalhada aos quatro ventos.

Estranho como ele não conseguia mais lidar com essas situações do jeito que sempre lidava. Não deveria existir uma última vez para se desistir. Nunca houve. Desistências sempre foram e sempre serão definitivas. Estava se tornando em tudo que sempre disse que nunca se tornaria. Essas ocasiões devem ser tratadas de forma racional e não feito um estudante da sétima série com dor de cotovelo. No fundo ele queria desistir e esquecer. E mais fundo que isso ele queria que não acabasse nunca. Essa sempre foi a razão de ele dizer essas palavras. Não mudou nenhuma vez. Em nenhuma das dezessete noites em que ele deitou-se de bruços e ficou pensando nas pequenas coisas que certamente impediriam que aquela vez fosse a última.

I never did you any good...

-“A dor foi embora.” – Mentiu ele. Não tinha certeza porque exatamente tinha começado a mentir agora.

-“Isso é bom... muito bom.” – Disse ela sem graça. Fingindo não ter olhado insistentemente para o ferimento.

-“Eu tive um tempo pra pensar. Em tudo que eu deveria pensar sabe. Consegui definir tudo que eu tenho feito de errado e decidi que não vai acontecer de novo. Ficar parado, sozinho com seus pensamentos é perigoso. Pode te levar a fazer as decisões erradas, mas tenho certeza de que não é o caso. Ousaria dizer até que foi melhor assim.”

-“Acho muito digna essa sua atitude. Querer melhorar é o primeiro passo pra...”

-“Adeus.”

Ela pára no meio da frase e ele se afasta mancando. Ele mudou. Mas nem tanto quanto possa parecer. Talvez as coisas sejam como elas são. Como deveriam ter sido. E serão de agora em diante.

Cold day, baby

O sol o fazia apertar os olhos enquanto pensava em como tudo deveria ter acontecido. Em como tudo deveria ter saído como planejado. Qual o sentido de fazer planos e criar expectativas se elas não se tornarem algo palpável? É no mínimo frustrante. Perdeu a linha de raciocínio quando um outro trem passou muito perto da janela onde estava sentado fazendo barulho suficiente para tirá-lo dos devaneios. Cruzou olhares com as pessoas no outro vagão, só pelo tempo necessário para perceber que de fato haviam percebido um ao outro e depois perdeu contato. O interior do vagão onde ele estava era muito mais tranqüilo, normal quando se vai na direção contrária ao fluxo de pessoas. Meia dúzia de gatos pingados eram seus companheiros de viagem no sacolejante vagão.

Se mexeu no assento e colocou as pernas mais perto do corpo, quase em posição fetal, para tentar espantar o frio. Não conseguiu. Um casal de namorados estava no banco à sua esquerda e ele olhou meio de lado para eles, abraçados, como se o frio não importasse tanto. Diziam que o amor te deixa burro, e pelo jeito deve esquentar também. Amor é uma coisa estranha, ele pensou. Não que já tenha tido um. Quer dizer, já. Mas os únicos que ele conhecia eram o amor próprio, os amores perdidos e os amores de dedos cruzados. Normalmente não sentia falta. Mas tinha que admitir. Estava frio como o inferno.

Happy Valentines Day

Maldito dia. O único dia do ano que me sinto culpado por estar solitário. Mentira. Não me sinto culpado. Bem, não vem ao caso. Não é porque eu nunca estou sozinho que eu nunca estou solitário. Ter alguém do seu lado as vezes não significa nada. Concubinas são concubinas e nada mais eu digo. E mesmo quando encontro uma rainha, não dura. Não suporto nada acima de mim.

Realmente estou apaixonado. Também não quer dizer muita coisa, exceto que eu talvez me curve mais baixo do que nunca se a situação pedir. Contra a vontade e engolindo o orgulho mas curvado. Mas também, não vou me enganar. Não daria certo. Seria bom demais pra durar, e eu sou velho demais pra ter sonhos como esse.

Enquanto ouço o jazz abafado da cafeteria, entrecortado pelas vozes altas de seus consumidores satisfeitos, eu penso que certamente teria sido melhor me enganar. A realidade é um saco. Comendo minha superfaturada refeição percebo que não sei que diabos é blueberry. E bebericando o café amargo descubro que ou eu amo essa mulher mais do que qualquer outra coisa, ou eu tenho sérios problemas psicológicos. Pena, por um momento tive esperança.

Really?

-Nunca acreditei em almas gêmeas. Passei a acreditar e me arrependo de simplesmente não ter procurado antes. Não é segredo que há alguma coisa lá fora que te faz sentir-se completo. Basta olhar pela janela. Todas as pessoas são quebradas. Todas as pessoas tem peças faltando. Você pode tentar colocar as peças juntas mas nem sempre elas se encaixam. E as vezes alguém toma o lugar das peças sumidas e você se sente completo.
E as pessoas estão por aí procurando por esse alguém. O que torna o fato de achar esse alguém e perder algo muito triste. Como se você tivesse ainda menos peças do que começou entende? Sua alma reconhecendo seu contraponto em outra. Essa é a definição de alma gêmea. O que acontece quando a outra alma morre?
Estou morto. Porque ela está morta. E sem ela nada é familiar. Sinto que estou desaparecendo.

-Auto piedade não é muito sua cara. - Digo depois do discurso entediante do bêbado que mal conheço. Talvez auto piedade seja a cara dele.

-Eu estou cultivando sabe. Pra poder se tornar aversão e autodestruição. As garotas gostam disso.

Ele diz isso e toma mais um gole da cerveja em sua mão. Eu olho pra frente em direção ao balcão e deixo o silêncio reverberar em meus ouvidos. Um bar vazio numa tarde de domingo. Esse cara apareceu depois do meu sétimo Brandy. Ele sentou aí e começou a falar sobre coisas. Pergunto quando ele acaba de tomar um gole excepcionalmente longo:

-Mesmo?

-Claro! Como você não sabe disso?

Não sei o por quê, mas me sinto envergonhado.

Shrooms

Acordei com dor mas não sabia dizer exatamente onde. Talvez no nariz ou na proa de um barco veleiro. Completamente desorientado procuro pela estrela polar que talvez me indique algo familiar, coisa que aprendi durante meu período de duas semanas nos escoteiros. Nada. Talvez esse lugar fique no hemisfério sul. O chão parece molhado e vejo um mar de areia quebrando contra cubos de gelo. Temos grama vermelha e um céu escuro como uma noite sem luar, mesmo com dois sóis extremamente brilhantes no céu.

E nas nuvens que pareciam rasgos no firmamento vejo a mensagem "Terra do contrário". Não me parece promissor. Vejo uma figura de costas ao longe. Corro até ela e percebo que cheguei rápido demais apesar da distância, a criatura estava andando de costas. Era baixa o suficiente pra passar abaixo do meu braço se quisesse, embora achasse que não seria de sua intenção fazê-lo. Trajava uma gravata por dentro da camisa desabotoada e as cuecas por cima das calças. As meias cobriam os sapatos de veludo despareados. Era muito parecido com um velhinho, mas jovial o bastante pra ser confundido com uma criança. Ele me percebe e fala:

-"Adeus."

-"Onde vai?" - Questiono-o.

-"Para onde eu estou, ou talvez pra onde você está."

-"Eu estou aqui."

-"Então você também está aqui. Mas você não parece estar aqui porque aqui é onde você deveria estar. Você parece estar aqui porque não queria estar." - Tomo um momento para absorver a mensagem confusa e retruco apontando para as nuvens.

-"Estamos na terra do contrário?"

-"Absolutamente não." - Diz com um largo sorriso faltando dentes.

-"Então não estamos na terra do contrário?" - Isso tudo é confuso demais.

-"Absolutamente certo. Essa não é a terra do contrário. Tem algum lugar onde você não deveria estar?"

É, vai ser uma longa tarde.

Prisma? Espectro? Qual o coletivo de cores?

“Você precisa descansar.” – Disseram-no. Ele não descansou. Nunca descansou antes. Não antes de conseguir tudo o que queria. Desde pequeno tentando provar alguma coisa. Sempre foi um garoto estranho. Atrapalhado, do tipo que abre portas pro lado errado e tromba em latas de lixo. Quem diria que aquele garoto seria o partido mais cobiçado com 32 anos, dono da mais renomada revendedora de arte do hemisfério sul do planeta. Quinhentas galerias espalhadas pelo mundo. Tudo começou com um só quadro.


Quando estava na escola ele pintava ocasionalmente. Nas aulas de arte. Nada mais que natureza morta e coisas assim. Até que teve um impulso pelo impressionismo. Não me entenda mal, o impressionismo não é bem arte. Um chimpanzé míope faz um quadro tão bem quanto aquele esquizofrênico do Pollock se tiver guache o suficiente. Tudo que o garoto fez foi escolher as cores, e dirigir com o carro do pai por cima. Eu chamo de loucura. Eles de genialidade. Por causa das cores. Relações inexistentes e sinapses ilusórias entre tons de amarelo? Marcas de freada e óleo de motor. Mas o garoto realmente tinha um olho pra cores.


Escolher cores não é bem aquilo que se faz quando se compra aqueles livros de colorir. Alguns chamam de bom gosto, outros decoram uma tabela de o que combina com o que. Ele simplesmente olhava. As cores, dizia ele, sempre me pareceram vivas. Esse pensamento o levou longe. Sua visão de verdes brilhantes, olivas ocreados e coisas assim renderam o título de conosséur de arte moderna. E milhões em dinheiro. E a masculinidade em xeque. Acontece. Se você passa o dia no escritório discutindo cores com solteironas que moram em apartamentos mal decorados, o que mais se podia esperar.


Com 22 anos sentiu o peso do estereótipo e namorou sua primeira super-modelo. Ele realmente gostava de mulheres. Só era atrapalhado demais pra fazer algo. A comunidade homossexual o acusou de tentar esconder sua natureza. Virou polêmica, ganhou as manchetes. Tornou-se um garanhão e trocava de super-modelo com a mesma freqüência que as super-modelos trocam de roupa e vomitam o almoço. Parece ridículo, mas virou o bad boy da indústria de arte. E quando alcançou o topo do mundo, jovem o suficiente pra fazer tudo de novo... Me desculpe... Mas é engraçado. Hahaha... Desculpa, sério.


- O que está fazendo? Primeiro você me conta minha própria história, ai começa a rir quando VOCÊ entra na história. Deve ter um bom motivo doutor.


- Obviamente. Eu fui à faculdade menino-gênio. A ironia, é que justo num check-up de rotina. Seu mundo acaba. Você se sente invencível do alto do seu Bugatti parado ai em frente e da super-modelo da semana. Tudo isso conseguido graças a esse seu talento nato de ver as cores de uma maneira completamente diferente das outras pessoas.


- E o que tem de engraçado nisso? É um dom. Uma forma de comunicação com os deuses da arte.


- Mantenha-se com as pinturas, prosa não é seu forte. O engraçado é que esse tal dom que você cita. É um tumor. Não sei como deixaram passar tanto tempo. Percepção alterada, visão noturna fraca, ataxia... Tudo indica tumor cerebral. Seis centímetros. Córtex visual. Inoperável. Você provavelmente não dura mais um dia.


-...


-Compreendo o que você quis dizer. Tenho a solução pra você. Deveria ligar a TV no canal 15. Casablanca. Arte de verdade. E em preto e branco.

Niver? De novo?

Minha primeira reação ao aniversário de alguém é secretamente padecer de pena e pesar por mais um ano desperdiçado entre desilusões e sofrimento com leves pitadas de falsa felicidade. O passar do tempo pode ser cruel simplesmente por passar. A marcha inevitável para o vazio, a busca insensata por propósito, as fantasias de grandeza e importância que permeiam cada aspecto da vida em sociedade. Tudo isso torna essas ocasiões muito deprimentes.

Di, não és nada mais do que uma pilha de carbono inexoravelmente se movendo rumo ao total esquecimento. Isso é um elogio. Ser finito é uma benção. Mas apesar da finitude, não duvide da validade dos seus feitos aqui. Porque aqui é tudo que existe. Sofra as mudanças que não permitirão que se reconheça na velhice de bom grado. E aceite a solidão de se tornar um homem.

Um brinde aos amores perdidos e encontrados, aos amigos distantes e aos deuses mortos. E que você dê ao diabo o que ele merece todos os dias daqui pra frente. Feliz aniversário Di.

Worthless

Se tem algo que eu aprendi é que palavras não tem valor, mesmo que sejam bonitinhas quando arrumadas de uma certa forma. Palavras não são moeda de troca. Toda a rasgação de seda do mundo não vale um tostão. Por isso, gritos de ódio fingidos, críticas à sociedade e cartas de amor são irrelevantes. O poder de inspiração de um discurso é diretamente relacionado à predisposição dos ouvintes e da habilidade de convencer do interlocutor.

O dito e falsamente assumido valor das palavras está em quem as ouve. A ilusão que elas trazem. Seja a ilusão de eloquência, de apreço, de aceitação. Essas ilusões constróem sua rede social. E mesmo quem despreza esse tipo de envolvimento se esforça ao mínimo pra cumprir seu papel como força motriz dessa ilusão. Senão, porque diabos escreveria? Porque expressar-se por um meio que possa ser interceptado por quem o despreza? Talvez superior seja uma alegoria. E talvez inferior seja um estado de espírito. E talvez cidadãos das profundezas sejam crianças assustadas num mundo de adultos.

Imagine

*Insira reflexão relevante à sua vida aqui*

Er.....

Esse deve ter sido o sentimento da primeira criatura na terra. Um insistente e interminável 'er...'. Solidão e incerteza além da compreensão. Como se além do chão sumir debaixo dos seus pés ainda te acertasse entre os olhos e te deixasse tão desorientado que você nem ao menos pudesse xingar o desgraçado. Além de estar caindo, porque o chão não está mais lá. Você se perguntaria se um dia ele esteve mas não conseguiria responder porque só aquela interjeição de demência e incapacidade permeia sua massa cinzenta.

E tudo isso causado pelo que? Não sei, não vejo ela à dois dias.

Id

Acordei e não era eu. Não era eu mas também não era você. Nem ninguém mais. Nem nada. Assistia tudo como se fosse onisciente. Como onipresente. Como a entropia de milhões de mundos.

Foi aí que eu percebi que não tinha acordado ainda. E quando eu finalmente acordei, não era eu. Não era eu quem eu queria ver no espelho. Mas também não queria ver nenhuma outra coisa. Talvez não quisesse ver nada. Nada além do necessário. Se ao menos pudesse escolher o que chega aos meus olhos. Seriam só os seus olhos dignos de tal feito.

Ligação anônima. 19:35. Quarta-Feira. Polícia local.

Acabei de vê-los. Pelo menos um deles. Não sei exatamente o que eles são, mas definitivamente vi um. Ali, bem a vista. Na terceira nuvem à direita de Sirius (estrela de Davi se você for do tipo que não sabe astronomia). Com sua bioluminecência decrépta e desagradável. Ressaltando os olhos pequenos -proporcionalmente pequenos- contra o céu noturno. Deve ser do tamanho de um zeppelin. Talvez maior. Talvez não, com certeza maior. Estamos falando de uns 75~80m. É enorme! Parecia com uma nuvem, mas nuvens não piscam. E não se mexem contra o vento. E definitivamente não brilham na merda do escuro!

Senhor, o senhor está sob efeito de algum tipo de narcótico ou substância que possa alterar sua percepção?

Claro! Tem um maldito E.T. na p**** do céu!

Desistente

Deisistir é o melhor talento de um desistente. Não é surpresa isso. Eu, como desistente, desisti. De tudo que eu pensei que não desistiria nunca. E algumas que simplesmente não valiam o sacrifício. Porque eu, mesmo desistente, não desisto de coisas. Não faço sacrifício nenhum. Abro mão só de minhas aspirações e intenções, nunca de meus feitos. Isso seria burrice.

Poderia dizer que não estou desistindo dela, só avançando numa direção contrária. Mas seria mentira, e eu desisti de me enganar. Talvez eu secretamente goste de destruir minhas aspirações. Só pra poder vê-las ir embora. Como se desistir do que você poderia ser lhe trouxesse um bem maior do que o que você poderia ser de fato. Ou ainda eu esteja só fazendo tempestade num dedal e realmente não esteja desistindo. Só não me esforçando pra nenhum objetivo em especial.

Limitar-se não é fraqueza, é um modo de adequação. A moral é uma forma de repressão da mesma forma que a gravidade é uma forma de repressão. Te impede de voar livre, mas também te impede de flutuar sem rumo pra morte certa. Você não pode ficar feliz pelo fogo esquentar sua comida e irritado por ele queimar seu dedo. Escolha um lado. Antes que não tenha escolha nenhuma.

Amnésia

Esqueci. De muita coisa. Coisas importantes, coisas não tão importantes e coisas desimportantes que guardava com carinho no fundo do meu subconsciente. Não ligo mais, desisti. Não há nada de bom que possa sair de lá agora. E não há muito que possa sair do leque que se expõe na minha frente. Cada caminho leva ao esquecimento. De uma maneira ou de outra. Ah, tinha me esquecido. Não acredito em caminhos. Nem destino.

Também me esqueci do que acredito. Faz muito tempo. Minhas doutrinas não duram o suficiente. Me esqueço delas no primeiro sinal de inconsistência fundamental. Talvez se eu me esforçar um pouco, acho que envolve dor ou coisa similar. Me pego criando novos dogmas enquanto ando numa rua qualquer. Me esquecerei deles antes de anexá-los no grande livro de regras ilusório que rege minhas opções e opiniões.

Porque a vida my dear friend, é esquecer do que lhe é inconveniente. Ignorar o que lhe é desagradável. Divinizar o que lhe é prazeroso só pra poder esquecer e fantasiar o quanto divino era tal coisa. Lembre-se de disso antes que eu esqueça. Ah, quer saber? Esquece.

Answers

As respostas estão aí. Em cada canto do mundo. E por que não estariam? Cada imperfeição na parede é a solução de algum impasse mundial. Cada força atuante num corpo caindo podem ser todas as variáveis que precisamos pra explicar a origem da vida. Só não as encontramos ainda porque não sabemos pelo que procurar. As respostas não são respostas a não ser que haja perguntas. Sem perguntas as respostas são só padrões de poeira e manchas de copos em mesas de madeira. É frustrante saber que no limite da sua percepção, lá no cantinho da sua visão periférica pode se esconder a solução pros seus problemas e não poder acha-la porque ela some toda vez que você vira sua cabeça pra prestar atenção. É uma idéia ridícula. Como esconder o Kilimanjaro atrás de um abajur.

Voyeur

Toda mudança é ruim, ou talvez abandonar o que conhecemos seja ruim. Mas e quando o que se conhece é ruim, mas não se tem perspectiva de melhora que provenha de qualquer mudança possível? Quando a única coisa passível de nota é a total impotência em relação ao próprio fado.

O que um maníaco por controle faz quando encarado com a própria impotência? Quando a megalomania e senso de superioridade são jogados fora como que atirados pela janela sem motivo. Quando não se reconhece mais nada além da própria sombra, e tudo o que se pode fazer é esperar e observar. Bio-espectador. Audiência da própria vida.

The world is on mute

Faço coisas inconsequentes. Me atiro de muros e me equilibro sem motivo em parapeitos. Desvio de carros em movimento por centímetros e zombo de regras em geral. Desafio autoridade e me meto com as pessoas erradas. Me machuco sem querer e por querer as vezes. Trato as pessoas com leviandade e me superestimo ao extremo. E mesmo assim, como que por ironia, uma princesa de um metro e sessenta me deixa quieto como um cachorrinho com um olhar cheio de significados ocultos. O volume do mundo fica baixo quando eu faço esse tipo de coisa. E o meu volume fica baixo perto dela.

Yellow brick road

No fim das contas, todo mundo está fugindo de alguma coisa. Como se foge é diferente. Do que se foge é diferente. Mas todo mundo foge de alguma coisa. Eu fujo o tempo todo. Fujo de mim, fujo dos outros, fujo até das fugas as vezes. E quando eu menos espero os copos estão se bebendo sozinhos e eu estou bem na beirada da minha pequena ilha indolor, criada para minha própria segurança. Empoleirado ali, abismo de todos os lados, em meio palmo de terra firme. Então eu olho para o precipício e o precipício me olha de volta. Ele diz: - Pula! - E eu penso em pular. Desistir, parar de correr. E quando eu me inclino pra frente e movo o pé em direção ao vazio, eu sempre acho um outro degrau mais abaixo. Os precipícios no fim das contas são precipitados demais. Sempre se pode escolher a estrada mais longa.

Colorblind

Minha vida tem se desbotado devagar de uns tempos pra cá. Perdendo a cor. Mesmo o amarelo mais forte parece queimado e esgarçado, como se tivesse sido consumido por coisas que consomem cores e que eu não consigo nomear agora. Elas não têm mais vida. Minhas palavras todas soam iguais aos meus ouvidos. Como se eu estivesse contando a mesma história o tempo todo. Os elogios parecem falsos e as injúrias parecem chacotas. Até as próprias chacotas ganharam ares de pastelão.


A pressão não é mais tão forte, e mesmo se fosse eu não ligaria. Meu universo se resume a um monte de “não estou a fim” e “depois eu faço”. Falta aquela vontade de cada lufada de ar que entra em meus pulmões. Vontade. Não me sinto à vontade pra falar disso. Não tenho me sentido à vontade com nada ultimamente. Não tenho vontade de nada ultimamente. Espero por esperar. Faço por fazer. Por costume. Por conveniência não. Porque nada convêm mais.


A apatia que pintou meu mundo de cinza e tons pastéis deve ser caracterizada como o mal do século. Ou no mínimo da década. Não consigo mais me apaixonar a cada esquina. As vitórias e êxitos não têm mais importância do que as falhas e derrotas. Nada mais importa. Só... Só...

A man got to do what a man got to do

O problema de se pensar rápido como eu penso, é pensar tão rápido que não é possível nem mesmo tomar nota sobre o que acabou de lhe ocorrer. É não conseguir escrever um texto porque suas idéias mudam antes que você possa perceber. É imaginar o fim de um diálogo antes mesmo dele começar e não se preocupar em como chegar ao tal final. É desperdiçar suas melhores idéias, porque elas lhe ocorrem, fazem sentido, e somem no meio de tantas outras de menor importância. É esquecer o que ia dizer, e depois esquecer que esqueceu o que ia dizer por que tudo muda muito rápido pra ser acompanhado. É lembrar das coisas mais inoportunas nos momentos mais inoportunos e esquecer completamente em ocasiões necessárias. É um martírio, mas alguém tem que fazer.

Hobbie = $²?

Às vezes eu imagino como seria minha vida se escrever não fosse só um hobby. Se escrever fosse minha profissão eu escreveria do mesmo jeito? Digo, eu não escrevo sempre, não é constante. Eu só escrevo o que está na minha cabeça, se não for algo muito ruim ou algo muito pessoal.

Imagino com seria se eu tivesse que entregar um livro num prazo bem curto e ai minha inspiração me deixasse. Ou em como eu ficaria escrevendo noites a fio quando a inspiração batesse e as pessoas me perguntariam se eu não estava trabalhando muito por causa das olheiras na minha cara. Penso também nas quantidades massivas de café que eu tomaria, porque é de café que os escritores se alimentam. Essa profissão tem toda uma atmosfera que me agrada. O café, as noites em claro, os bloqueios mentais, o rótulo de vagabundo. É uma pena que é inviável. Quem sabe eu não escreva um livro. Mas não como profissão, como hobby. Não quero perder o meu prazer em escrever transformando isso em ganha-pão. Seria triste demais. O que os escritores fazem como hobby?

Instant Generation

Odeio pessoas que dizem que a minha geração não trouxe nada de bom. Que as pessoas de hoje em dia são rasas, que na época deles as coisas eram baratas e as pessoas se conheciam de verdade. E que tudo era melhor no tempo deles. As pessoas que renegam o seu tempo também me irritam. Pessoas que reclamam por não ter ouvido os Stones, por não ter sido hippie, por não ter gritado "Diretas já!" e esse tipo de coisa.

Nós temos os messengers instantâneos. E séries legais. E a popularização de muita coisa. E não temos uma grande guerra. Já é um começo. Temos gatos fluorescentes, e anti-alérgicos também. E video-games. E redes sociais com amigos de mentira. E temos vidas de mentira. E pessoas de mentira nas redes sociais de mentira. Tenho certeza que tudo isso um dia vai valer pra alguma coisa.

E quando eu ficar velho, e as gerações passarem, vou achar defeito nos avanços delas também. E me gabar que na minha época as coisas eram baratas e que as pessoas se conheciam. Vou reclamar que as pessoas são rasas, mesmo eu sendo tão fundo quanto uma colher de chá.

Rumo? Quem precisa disso?

Ás vezes eu penso que eu deveria ter me comprometido mais. Com tudo, com as pessoas, com os deveres, até com os meus direitos. Mas depois eu caio na real e esqueço tudo. Se eu não consigo me comprometer nem com um endereço quem dirá uma relação pessoal. Não existe nada com o qual eu me preocupe além do meu traseiro. E talvez os meus sapatos italianos nessa maldita estrada poeirenta. O último resquício de civilização se encontra à uns 13 km ao leste, numa pocilga que se ousa chamar de posto de gasolina. Eles nem tinham batatinhas. E agora nada, só poeira. Só o que me restou foi poeira. Em todos os sentidos.

Contemplai ó meros mortais! O vasto império construído com fugas e esconderijos! Poeira até onde a vista alcança. Você tem de se orgulhar disso. Talvez eu nunca tenha sido dono de nada, justamente porque tentei demais evitar que alguém me dominasse. E nessa brincadeira orgulhosa, minha vida veio e passou. E eu acenei sorrindo enquanto ela passava ao meu lado. Viajando de cidade em cidade. Sem um nome fixo, sem um endereço fixo, sem uma cama fixa. Sem rumo, indo pra onde meu nariz aponta. Tentei levar uma vida sem preocupações, e errei por muito.

Band-aids

Meus band-aids tem desenhos. Sabe aqueles com personagens e coisas assim. Sempre usei esses, desde criança. Se por um acaso me remendam com um normal e chato eu acabo dando um jeito de tirar antes do indicado. Não me sinto bem com esses. Um band-aid pode curar qualquer coisa. Até costelas quebradas, ferimentos a bala, pulmões perfurados. Qualquer coisa.

Ás vezes é estúpido ver um marmanjo com um band-aid colorido. Porque quando você cresce, os ferimentos são diferentes. Você não rala os joelhos, não corta o dedo empinando pipa, não cai da cama. Mas crescer traz ferimentos bem piores. Ferimentos que nem os band-aids curam. Aqueles ferimentos emocionais que se curariam sozinhos se você não os cutucasse. Aqueles que você finge não existir, mas minam sua vida pouco a pouco. Esse tipo se torna freqüente depois de um tempo.

Preferia quando todos as dores se resolviam com um band-aid colorido, um beijo e mertiolate. Quando você ganhava doces porque as pessoas queriam te compensar por ter sentido dor ai invés de reabrir as velhas feridas. Se você se cortar fazendo a barba ou arranhar o braço na rua, coloque um band-aid colorido. Remende-se por dentro. E finja que não dói. Quem sabe a vida não te dá um doce.

Felicidade

-“O que é felicidade pra você?” - Essa foi a hora em que eu me arrependi de toda aquela história de fazer perguntas pra conhecê-la melhor. O problema em se fazer perguntas pra conhecer alguém melhor é o fato de nem sempre ter as respostas pras perguntas que fazem à você. Ela está rindo satisfeita, sabe que eu não vou conseguir me safar dessa, não sem me abrir ou falar algo estúpido. Será que ela fez de propósito? Não importa, eu tenho que responder. Tem só um limite de tempo que você consegue enrolar quando alguém te faz uma pergunta.


A felicidade é uma coisa estranha. Acho até meio decadente. Não quero ser feliz, porque se eu for perco o sentido. Por isso toda essa ilusão de felicidade é inalcançável. Porque se você alcançar, adeus vida. Mas não nego que experimentamos felicidade em doses todos os dias. Ou pelo menos uma vez por ano. Sei lá. Nas coisas pequenas. Na realização das vontades. Não posso dizer isso. Vai parecer inconseqüente e irresponsável. Se eu estivesse rolando no tapete com ela agora ao invés de ficar fazendo perguntas sem sentido, eu com certeza estaria feliz. Meu tempo acabou.


-“Então? O que é?” - Ela perguntou de novo, quanto tempo passou? Dois minutos, talvez três. Ela parece irritada. Definitivamente mais de cinco.


-“Felicidade é poder estar com quem você gosta em algum lugar.” - Finalmente digo.


-“Isso não é de uma música?”


-“Não. Definitivamente, eu me lembraria. Que tal uns beijinhos agora?” - Eu me movo pra mais perto dela.


-“Não até você me dar uma resposta satisfatória!”


-“Ah, você sabe que você quer. Vai te deixar feliz...” - Felicidade... Por enquanto.

Are you high?

Normalmente você não me encontraria aqui. Não é o lugar mais fácil de achar uma pessoa. Ainda mais eu. Mas é que eu estou cansado. Sabe, as coisas têm mudado, então eu também resolvi mudar. Só pra sentir que eu talvez esteja acompanhando tudo. Eu estou aqui, sentado na beirada do telhado de um prédio residencial de quatorze andares. E estou morrendo de frio. Já não sinto meus dedos, mas se eu descer até meu apartamento pra pegar um par de luvas, eu provavelmente vou perceber o quão ruim foi a idéia de subir aqui pra começar.

Não é normal encontrar pessoas nos telhados de prédios. A não ser quando elas querem se matar. E eu não quero me matar. Não tenho intenção nenhuma de mergulhar na calçada. Alguém poderia morrer. Talvez até eu. Mas mesmo assim, você me acha aqui. Com as mãos nos bolsos, um anel no dedo e uma pergunta. A pergunta é: “Porque diabos esse anel está no meu dedo?”. A resposta eu não sei, porque se eu soubesse eu não estaria aqui em cima congelando até a morte.

O problema com os anéis, é que eles costumam significar coisas. E nem sempre as coisas têm significado. Desde que esse maldito anel achou o caminho pro meu dedo, tudo mudou. E eu só posso culpar a mim mesmo. A idéia foi minha afinal de contas. Grande cena sabe. Lágrimas e tudo mais. Uma platéia, um sim e BAM, estou noivo. Aí que entrou o maldito anel. Outro problema dos anéis é mais específico, eles não são muito baratos.

O sol começa a descer e o céu fica laranja como aqueles peixinhos dos comerciais de comida pra gatos. Como se os gatos comessem peixes dourados o tempo todo. O sol parecia maior, como a porta de um forno aberta, com toda aquelas coisas incandescentes e laranjas. Daria uma ótima visão pelo meu retrovisor, se eu tivesse um retrovisor comigo. E eu estivesse fugindo. O que começa a ser uma boa idéia. O motivo é, como já disse antes, a mudança.

Um terceiro problema dos anéis, pelo menos os que significam algo, é que eles mudam as pessoas. E como os relacionamentos são compostos por pessoas, bem, você entendeu. Pense nos relacionamentos como uma daquelas coisas laranjas incandescentes com que fazem os anéis. Elas são maleáveis e cheias de possibilidades. Só que as coisas incandescentes são, como posso dizer, incandescentes. Incandescente não é um adjetivo bom. Então se usam ferramentas, por que as coisas são incandescentes demais pra se usar as mãos, pra transformá-las em anéis e não só em varetas. Mas ninguém pergunta se talvez as coisas incandescentes querem ser anéis ou varetas. Tenho certeza que algumas gostariam de ser astronautas ou coisas do tipo. Então, os relacionamentos são como as coisas incandescentes, e os anéis são as ferramentas que transformam os relacionamentos em varetas. Ou qualquer outra coisa.

Os relacionamentos deveriam sempre ser inesperados e imprevisíveis. Porque os relacionamentos são relativos. A partir do momento em que se define como um relacionamento vai ser, ele vira um contrato. Uma mera obrigação. Eu não gosto de obrigações. Ninguém gosta de obrigações. Eu gostava dela, sabe a garota com a qual eu vou me casar em dois meses. Gostava quando ela não me ligava a cada dois minutos pra me dizer algo como “Os convites estão na gráfica.” ou “Você tem que cortar o cabelo antes de se casar”. Meu celular está tocando, melhor me livrar disso. É uma boa queda até lá embaixo. Espero que não acerte ninguém. A gente era imprevisível, eu e ela. Agora nem tanto, ela só fala sobre o casamento, e eu só concordo com tudo.

Não tínhamos hora ou lugar, só vontade de se ver, então nos víamos. Agora só a vejo nos fins de semana e olhe lá. Só queria deixar ela com os olhos brilhando mais vezes, como costumava fazer. Quem sabe se eu aparecer no trabalho dela com um terno cor de rosa e um buquê de flores e chamá-la pra almoçar na Tailândia? Provavelmente ela vai dizer que está ocupada, e que tem que resolver algum problema com o vestido da dama-de-honra. Aquela gorda, aposto que não acharam o número dela.

Então eu só imagino. Imagino que o resto da cidade é só uma grande fonte dos desejos, e que todas as pessoas lá embaixo estão se afogando na fonte. E que a aliança que me aperta o dedo é uma moeda da sorte, e que vai me conceder um desejo. Então eu me levanto na beirada do prédio, fecho os olhos e jogo aquilo que um dia foi incandescente em direção aos afogados lá embaixo. A parábola que descreveu foi magnífica e provavelmente o conjunto de fatores que interferiram no trajeto explicasse o universo, mas eu não vi porque estava ocupado demais fechando os olhos e desejando que todo o mundo voltasse pra quando eu era inesperado. E também desejei que um dia ela me perdoasse. E decidi que a partir de agora vão ser só céus queimando no meu retrovisor até que tudo volte pro que deveria sempre ter sido.

Mais zeros do que se pode crêr

Ele a viu. E gostou. Muito. Definitivamente uma nota 8. Ele tinha esse estranho hábito de dar notas às garotas que via. E essa era definitivamente uma nota 8. E ainda estava longe. Provavelmente ganharia uma nota melhor conforme se aproximasse. Não era uma regra sabe, mas normalmente acontecia. Exceto aquela vez em que tinha dado 7,86 pra uma garota à uns 30 metros e quando ela estava à três percebeu que era um garoto. Aquilo foi estranho. O que importa é que tinha uma nota 8 vindo em sua direção.


Normalmente as notas variavam entre 1 à 6 quando estava sóbrio. E entre 8 e 30 milhões quando estava bêbado. As notas acima de 6 quando sóbrio eram raras, então tinha que prestar atenção. Ela andava um pouco calma demais em comparação as pessoas a sua volta, como que inafetada do alto do seu metro e sessenta. Era 8,1 agora porque ele era do tipo que gostava de garotas baixas. Já conseguia ver o branco dos olhos quando decidiu que ela era definitivamente uma nota 8,4 por causa dos olhos castanhos mais camaleônicos que já tinha visto. Jurou de pé junto que tinha visto-o mudar de verde pra castanho claro e depois pra amarelo. E quando ela passou por ele, e ele viu a grossa aliança de compromisso no seu dedo-onde-alianças-de-compromisso-devem-ser-colocadas, ele decidiu. Temos um novo recorde senhoras e senhores.

Incoming Call

Nunca me senti tão incomodado com minha própria grandeza. Ou talvez quem sabe com a pequenez dele. Um dia ele já foi um homem crescido, mas agora é só uma pilha de lágrimas. É com essa cena que eu me deparo quando eu entro no apartamento desarrumado dele.

-”Você poderia pelo menos chorar feito uma menina no seu quarto, debaixo das cobertas. Tá um frio desgraçado aqui.”- Aperto a jaqueta no corpo pra tentar me esquentar. Não funciona. - “E poderia também levantar do tapete.”

Ando até a janela e fecho. Eu não tenho que perder a ponta dos meus dedos por causa dessa situação. Ele se mexe um pouco e sai da posição fetal que estava pra poder me encarar.

-”Ela foi embora.” - Meio óbvio isso não. Parece que tem mais. - “Eu estava apaixonado, e ela foi embora.”

Deixe-me dizer uma coisa sobre esse cara. Ele sempre estava apaixonado. A cada duas semanas ele entra nesse estado e pede pra casar com alguém que ele conheceu na lavanderia ou na fila de um fast food qualquer. Isso era o que ele fazia de melhor, se apaixonar.

-”Sabe amigão, você tem que superar isso, um dia você vai encontrar alguém certo pra você. Eu encontrei a Juliana não encontrei?”

-”Sua namorada se chama Mariana.” - É verdade... Bem, não vêm ao caso.

-”Tanto faz, o que importa é que a Adriana não vai ser a última mulher da sua vida. Recomponha-se, você é um partido e tanto.”

-”Você acha?” - Não.

-”Claro!”

-”Mas é tão frio sem ela por aqui.”

-”Você sempre foi um chorão. Qualquer vadia que te larga e você fica aí molhando esse tapete seu.”

-”É de estimação.”

-”Não importa! Você tem que crescer!” - Eu sempre falo assim quando essas coisas acontecem. E sempre dá certo, agora ele vai duvidar que pode superar, chorar mais um pouco e em mais ou menos duas horas ele vai me ligar e a gente vai tomar uma cerveja num bar. E ele vai se apaixonar de novo. É uma rotina bem estúpida se você quer minha opinião.

-”Mas e se eu não conseguir?” - Falei. Eu não erro nisso. Tiro minha jaqueta e jogo perto dele.

-”Toma.”

-”Pra que?”

-”Se ficar frio demais.” - Meu celular começa a tocar. - “Preciso atender isso.”

Saio do apartamento e assim que sei que não posso mais ser ouvido pelo caco de homem que está lá dentro eu atendo.

-”Oi amor. Não, tô aqui ainda. Ele vai superar, sempre supera... Você quer que eu vá aí?” - Sorrio feito uma criança. - “Isso não pode esperar? Não! Como eu imaginava. Então me espera do jeito que você está. Tchau, tô chegando.”

A maçaneta gira e meu companheiro sai com o rosto vermelho e vestindo a minha jaqueta. Ele sempre quis ela, disse que era o que me fazia ser eu. E ele também queria ser eu. Eu dou uma desculpa pra pular a nossa ida ao bar, mas digo pra ele ficar com a jaqueta. Ele acha que é a minha preferida, mas não é. Ela é gasta e velha. Mas eu não posso contar isso pra ele, acabaria com o gesto. E também não posso contar que a última ligação recebida do meu telefone partiu de uma certa Adriana. Estragaria tudo. Estragaria uma amizade de anos. E amizade não tem preço.

Hey Kiddo

-“Você tem que sair garoto, já vamos fechar.” – Ouço alguém dizer mas não sei ao certo quem é. Nada mais me é familiar.

-“Certo, já saio. Até amanhã, apareço na mesma hora” – Deixo sair uma risada rouca que não realmente chega a ser uma risada, mais um grunhido. Mas não me movo um centímetro em direção à saída. Estou bem confortável aqui.

-“Sem piadas espertinho. O que diabos você vêm fazer aqui no meu bar afinal de contas? Não é como se eu tivesse uma boa indicação nos guias de lazer.”

-“Quer ouvir minha história?” – Assumo o silêncio como resposta afirmativa. - “É tudo culpa da CIA.” – Rio desdenhosamente um pouco alterado pela anestesia etílica.

-“Claro, a CIA.” – Ele consegue ser ainda mais desdenhoso da minha mentira, realmente eu não quero me abrir com um barman. Ele continua. – “Olha aqui kiddo, não sei você, mas eu já ouvi muitas histórias, e sei reconhecer uma falsa quando vejo.”

-“Bem, então eu acho que não te devo explicações. Eu só estou esperando.” – Esperar não é legal. Nunca gostei de esperar, por nada nem ninguém. Até agora. Estranho como as coisas mudam.

-“Esperando pelo que? Criar raízes nesse maldito banco.”

-“Estou esperando o fim do mundo. Ou ela voltar. O que acontecer primeiro.” – Sete dias é um atraso considerável. Mas ela nunca foi muito pontual.

-“Bem, uma notícia pra você. Ela não vêm! Ela não veio ontem, não veio hoje e certamente não virá amanhã! Agora recomponha-se e saia já do meu bar!” – Acho que se lamentar é bem irritante.

-“Sabe, eu gosto de você. Me lembra meu pai, gritando e coisa e tal.” – Enxugo o resto do copo que esperava meio cheio entre meus dedos. Ou deveria dizer meio vazio. – “Mas infelizmente não posso fazer isso.”

-“Só olhe pra você! Parece um mendigo! A quantos dias você não dorme?”

-“Sete.” – Dois deles chorando feito uma garota. Mas isso não vem ao caso.

-“Você tem que dormir rapaz.”

-“Não posso.” – Não que eu não tenha tentado.

-“Tem uma explicação pra isso também? Já sei, a CIA não te deixa dormir.”

-“Ela não deixa.”

-“Pensei que ela tinha ido embora.”

-“Você está certo, ela foi. E é por isso que eu não posso dormir. Se eu ver ela de novo em meus sonhos e ela não estiver lá quando eu acordar, bem... o fim do mundo vai chegar mais cedo.” – Pelo menos pra mim. Sentir falta de alguém que nunca realmente esteve lá, sentimento estranho. Não tenho realmente muito a perder. Quando estou acordado, ou seja sempre, não é como se eu tivesse vivo. Estou muito fraco pra fingir que não me acertou em cheio.

-“Ei, eu sei que você está com problemas mas... você não pode se flagelar assim. Vai pra casa, falar com seus amigos, fazer besteiras. Coisas de garotos da sua idade. Você é muito novo pra ficar ai sentado junto desses perdedores. Certo kiddo?” – É, talvez eu seja. Talvez eu devesse ir pra casa. Talvez eu devesse só ir pra casa e me recompor. Eu posso ficar aqui sentado e lamentar por ela, ou me levantar e ser derrubado por qualquer outra.

-“Não posso.”

-“Você está realmente me irritando! Por que?”

-“Ela levou meu carro. Eu estou preso nesse lugar faz uma semana.” – Aquele tipo de silêncio que só ocorre quando alguém falou algo muito inapropriado toma conta do lugar. Foi algo que eu disse? Não.... acho que não.

-“Você... quer uma carona?” – Ele está desconfortável, como se tivesse pedindo pra dançar com sua própria irmã.

-“Achei que nunca ia perguntar. Então, porque insiste em me chamar de kiddo?”

Carta pra mim mesmo

Lembra-se de mim? Acho que não. Você tem esquecido muitas coisas ultimamente, acho que faz parte da vida isso. Sabe, esquecer as coisas. Quem nunca esqueceu onde colocou as chaves não é mesmo. Mas você tem sido esquecido demais. Essa sua vida nova me preocupa. Sabe como é, ela me afeta tanto quanto te afeta.

Você realmente precisa dormir mais. E não me venha com a desculpa de que você tem coisas pra fazer porque você não tem que fazê-las. Essa é a graça em ter uma posição de comando, é poder delegar as suas responsabilidades. O que você tá querendo provar? Que é de confiança? Não acha isso meio recalcado? Alguns dias atrás aposto que concordaria comigo. A verdade da sua procrastinação imprópria do seu próprio sono é simples. Você está com medo. Medo da sua cabeça. Mas acho que já fiz meu ponto, e você deve ser capaz de lidar com isso de agora em diante.

Tenho assistido sua ascensão e queda com uma passividade vergonhosa. Admito isso. Mas esperava que a queda demorasse um pouco mais. Te vejo caindo em espirais de fumaça e me corta o coração pensar que você realmente poderia ser o melhor. Em qualquer coisa. Você não se lembra, mas teve momentos em que me confidenciou que pensou seriamente que poderia voar. Poderia só pular e ficar flutuando imune à gravidade. Porque as leis da física não se aplicam a quem as questiona você disse. Mas isso faz muito tempo, e agora você não se julga capaz nem de consolar alguém que precisa.

Auto-subestimar-se é uma forma de suicídio sabia? É o que eu ouvi numa música. Mas você fica aí, com seus amores de dedos cruzados e historietas sem nome e sobrenome achando inútil mudar o mundo. Achando que não há nada de bom pra deitar sua vida sobre. Que não há nada em que se apoiar. Te desejo boa sorte. Nos vemos lá embaixo, quando sua queda interminável acabar.

Janelas

As janelas são como portais para o resto do mundo. Simbolicamente falando claro. São como visões limitadas de um universo infinito. Ou talvez seja a visão em sua totalidade, só que desperdiçada com uma compreensão limitada. Ou talvez seja a visão de um universo limitado para uma compreensão infinita. Ou talvez ainda, peças de arquitetura, por mais incrível que pareça.

Elas tem importâncias diferentes para pessoas diferentes, isso que eu tentei demonstrar. E nisso, as janelas não diferem de qualquer outra coisa. É tudo uma questão de escala. Estamos na escala errada. É o que eu acho pelo menos. As pessoas se preocupam com o que vai ter pro jantar, com a aparência as unhas dos pés, com a limpeza dos quartos, com a maldita presidência. A única falha do meu raciocínio é que eu não tenho um substituto. Eu poderia dizer que o certo é se preocupar com o que realmente importa, mas eu não sei o que seria isso. Talvez eu também esteja na escala errada.

Bend over her will

“É só uma conversa entre velhos amigos” – Ele pensou enquanto era levado pela mão que acariciava a ponta dos seus dedos – “Repita o suficiente e talvez seja verdade” – Corrigiu logo em seguida.

Obviamente não vai ser uma conversa. Incrível como o anel brilhante na mesma mão que o carrega pra essa situação e permeia seus melhores sonhos (e seus piores pesadelos também) não a inibe em nada. Sabe, o mínimo de remorso cairia bem. Ele sabe o quanto se sente culpado, e não é nem ele que tem uma família pra perder. É um relacionamento estranho entre os dois. Sempre foi. Como se o universo conspirasse pra juntá-los. Sempre foi muito bom, desde a primeira vez.

Mas isso já faz anos. Ela continuou, seguiu seu caminho. Ele estacionou onde estava, onde era cômodo. Mas nunca realmente se separaram, assim como nunca realmente estiveram juntos. Eram só momentos roubados quando se encontravam, longe dos olhares inquisitórios. Como se não fosse óbvio. Até mesmo um desconhecido apontaria como certa a relação entre eles. Ela nunca soube ser muito sutil. Característica preocupante pra esse tipo de envolvimento. Mais de uma vez tentara desistir, abandonar esse estilo de vida e crescer um pouco. Não podia ficar se arriscando desse jeito. Mas é como se fosse um vício. Ele sempre recaía. Como uma mariposa em volta do fogo. Não podia reclamá-la como sua, mas também não podia evitar orbitar em volta de sua majestade.

E ali, preso no doce abraço dela, no banheiro feminino de um salão de festas com a mais fina decoração de casamento, ele mais uma vez se pergunta por que um dia ele sequer tentou se afastar dela, por que isso poderia estar errado de alguma forma, por que ele tentava se afogar em álcool todo o santo dia, nada disso faz sentido porque agora, o mundo lhe parece certo. As juras de amor eterno são as mesmas de sempre, vãs como sempre. Em breve nem todo o amor do mundo poderá limpar a lama que cobre sua alma, lama que ele entrou por vontade própria. O monstro residente em seu peito ri satisfeito com a ironia do momento. Realmente é irônico. Ele pensa.

-“Estranho, mais cedo quando disseram: ‘Pode beijar a noiva’ eu podia jurar que se referiam ao noivo.” – Ela riu, sem querer tinha dito alto. Ele riu. Gargalharam como adolescentes que um dia foram. Mas bem no fundo ele sabia que a piada era ele. Sempre ficou péssimo de smoking.

Moebius

Podia sentir o olhar fixo em seu rosto enquanto fingia extremo interesse numa mancha pequena da mesa onde estava. Não estava nervoso. Só parecia um pouco perturbado. As lembranças vinham vívidas como se não houvesse passado mais do que um segundo.

-“Sabe, você me conquistou na primeira vez que disse oi. ” – Ele começou depois de um daqueles silêncios constrangedores. – “Você lembra? Você estava linda aquele dia.”

-“Não seja ridículo.” – Ela disse rindo secamente – “Quer que eu acredite que você se lembra?”

-“Como poderia esquecer? Eu sei tudo sobre você. E gosto de tudo em você. Gosto quando você fica nervosa e morde o lábio pra te impedir de falar alguma coisa. Gosto quando você inclina a cabeça e uma mecha de cabelo não sai de cima dos seus olhos. E o seu pescoço fica exposto. É tão bonito. Sabe, com o risco de parecer um idiota, mas eu acho que te am...”

-“Ama nada!” – Só agora ele percebeu que ela estava chorando. – “Você é incapaz de amar! Você fica falando essas coisas, e fazendo as pessoas acreditarem, mas você não consegue nem mesmo convencer a você mesmo! Eu vejo nos seus olhos! Quantas vezes você já disse essas mesmas palavras?Dez? Talvez vinte vezes?Eu não quero ouvir isso de você, cansei das suas mentiras!” – Ela esperou por um segundo, talvez por dúvida, talvez esperando uma resposta que nunca veio. Talvez ela esperasse uma prova de que estava falando bobagem, e que seria diferente, mas vendo a resignação nos olhos dele, levantou e saiu batendo a porta.

Ele se sentiu puxado de volta à realidade por uma voz familiar.

-“Tudo bem com você? Parecia perdido.” – Questionou uma jovem com olhos sonhadores e cabelos inquietos sentada do outro lado da mesa.

-“Sim. Só estava pensando em quando a gente se conheceu.” – Ela riu.

-“Eu me lembro... Fazem três horas.”

-“É...” – Ele já sabia como ia acabar, perdeu a conta de quantas vezes teve essa conversa. – “E mesmo assim, acho que tive sorte. Você me conquistou na primeira vez que disse oi.”

* O título se deve a teoria de moebius. Uma dobra no tecido do espaço-tempo que não tem saída. Tudo que aconteceu, acontecerá de novo.

Aniversário aleatório

Eu gosto de ser o centro das atenções. Gosto mesmo. Mas só quando eu mereço, quando eu fiz algo que mereça a atenção. Não por um mero fato biológico. Pelo meu aniversário por exemplo. O que tem demais? É só mais um ano que eu fiquei longe dos fios de alta tensão, um ano que eu olhei pros dois lados da rua, um ano que eu consegui evitar morrer. Grande coisa. Você percebe que não liga mais pra isso depois de um tempo. Mas colocar isso na cabeça de outras pessoas é praticamente impossível.

É como uma obrigação. Você tem a obrigação de lembrar do aniversário de todas as pessoas que você conhece. Mesmo que você não dê a mínima pra elas. É como um contrato que se faz quando se conhece alguém, ou pelo menos quando se pergunta o dia do aniversário. Você fica a partir daquele momento compromissado à desejar a mesma coisa que dezenas de outras pessoas vão desejar no mesmo dia. Porra, quantas vezes ele nasceu? Porque ouvir a mesma coisa cem vezes? Não caiu a ficha.

E praqueles que ainda não perceberam, hoje é o meu aniversário. É, é, já ouvi. Feliz aniversário e blá blá blá; Cadê o diabo do meu café?

KA-BOOM!

Um minuto. É o que marcava o mostrador desse estranho pacote parado, ali no meio do saguão de entrada. Não parece muito com um rádio relógio nem nada assim. Isso porque o pacote é uma maldita bomba de fragmentação que provavelmente vai derrubar todos os 114 andares desse maldito prédio.

E pra parar esse monstro criador de viúvas, só você. Um homem contra a força destrutiva de 44 toneladas de dinamite. E o pior, com o tempo limitado. Sabe aquilo que dizem. Aquilo que sua vida passa diante dos seus olhos quando você está perto de morrer. Não é verdade. Você olha pro dispositivo de detonação aberto na sua frente por detrás da sua roupa reforçada, mas incapaz de resistir a tal explosão. Você tira o capacete porque ele atrapalha sua visão. O tempo está passando, 30 segundos agora. Você reconhece o padrão de ligação dos fios, fica feliz por um segundo, mas depois percebe que não é tão simples.

É um modelo não muito comum, mas você aprendeu como desarmá-lo na semana passada. Lembra-se muito bem daquele dia. Você ficou lá sentado por 3 horas, numa sala abafada, encarando um monte de caras barbados com cara de poucos amigos. Ouve o instrutor falando sobre aquele padrão obscuro de detonador. Alguém entra pela porta. Parece a secretária, deve ter uns 25 anos e é linda, está usando uma daquelas saias cinzas bem curtas. Todos os olhares seguem-na pela sala. Ela interrompe o instrutor e entrega um bilhete pra ele. Enquanto você derruba seu lápis propositalmente com a intenção de ver por baixo da saia dela ela se dirige pra saída e o instrutor fala. “O fio que impede o dispositivo de estourar seus miolos é o ...” – Você se abaixa só mais um pouco, quase consegue ver. Azul! É azul.

De volta pro presente, você tem que fazer uma escolha. Você corta o azul. O tempo parece parar, como se a terra começasse a rodar mais devagar do que o de costume. E então tudo vai pelos ares.

Quarta

Sabe o tipo de dia em que tudo é normal. O dia em que você não faz nada de mais. Você sai de manhã, estuda ou sei lá o que você faz, e volta para casa. Um dia qualquer. Podia ser uma terça ou uma quinta. Bem, na verdade era quarta-feira. Quarta-feira foi um dia desses.

Ele chegou em casa e percebeu que não tinha nada para comer, percebeu pelo bilhete da mãe na geladeira dizendo que deveria comer fora e que o dinheiro estava em cima da mesa. Foi pro quarto depois de pegar o tal dinheiro, jogou a mochila num canto, os tênis no outro, ligou o rádio e deitou pra pensar na vida. Pensou no trabalho de química, pensou na suspensão recém recebida, pensou na Claudinha do 3º ano. E quando cansou de pensar aumentou o volume e pegou o telefone para pedir alguma coisa para comer. Ligou para um delivery qualquer que estava na geladeira e decidiu que ia dormir enquanto não chegava o seu pedido.

Assim que adentrou no quarto percebeu algo caindo do teto em cima da sua cama, correu para ver o que era. Era um pedaço do teto, do tamanho de um cd mas hexagonal, no verso a mesma coisa. Olhou para cima e viu o buraco deixado pelo objeto, da mesma forma que o que estava em sua mão. Seu primeiro pensamento foi o de que agora tinha como espiar a boazuda da filha da vizinha de cima, Janete do 504. Subiu na cama e espiou pelo buraco, não viu nada. Foi buscar um daqueles telescópios de papelão que se faz quando é criança. Enfiou-o pelo buraco e avistou seu próprio quarto, de ponta cabeça, idêntico em cada detalhe, seus tênis no mesmo canto em que havia deixado, e ele próprio deitado, olhos fechados, balançando o pé no ritmo da música, como estava fazendo a 2 minutos atrás.

Assustou-se e olhou mais uma vez pra conferir. Estava mesmo acontecendo. Decidiu que iria consertar e colocou de volta o pedaço que caiu, ele automaticamente se integrou ao teto e desapareceram as supostas juntas. Voltou ao normal, lá estava o teto, novo em folha. Como se nada tivesse acontecido, deitou e dormiu, porque todo mundo fica cansado em plena quarta feira. Uma quarta feira normal.

Coffee, Sweet Coffee

Despejou o resto de uma jarra quente de café numa xícara mal lavada. Talvez bebesse café demais, seria um problema? Não pra ele. Já disseram-no que ele tinha um problema com o café, mas ele defendeu veementemente que quem tinha um problema com ele era o café. Além do que, era só um gole pra esquentar por dentro, como se os 32° C do ambiente não fossem o suficiente.

Era só mais uma manhã, digo, tarde. O sol já passava do meio do céu. Estranho como o sol sempre parece estar no meio do céu, quer dizer, quem sabe em outro lugar agora ele não realmente estivesse no meio do céu... O certo é que já passava do meio-dia de acordo com o microondas, uma das poucas coisas que funcionavam na cozinha de um quarto e sala bagunçado. O fogão era usado como armário, e os armários estavam vazios. A cafeteira jazia ligada preparando mais uma jarra do líquido precioso. Cafeteira a qual fora uma aquisição importantíssima, ele realmente não sabia fazer café de outro jeito.

Ele era só mais um desocupado no mundo. Daqueles que não faz nada que mude o mundo ou jeito de viver de qualquer outra pessoa com quem cruzasse na rua. Vivia de pequenos textos carregados de sarcasmo e ironia sobre assuntos que desconhecia, os quais vendia como peixe na feira para sites reacionários e pseudo-intelectuais. Isso e alguns desenhos mal feitos em papel sulfite. Escritor... dizia que era escritor, mesmo sem nunca ter escrito nada de relevante. No final da tarde, saia e andava pra evitar o sedentarismo, mas só até suas pernas cansarem, o que normalmente o levava até dois quarteirões abaixo, lá tinha uma senhora muito gentil, que sempre o acolhia e lhe preparava um cafezinho. Ficava lá até sentir firmeza nas suas pernas e voltava, ao chegar não se lembrava do que havia falado com a senhora. Se é que tinha falado alguma coisa, normalmente só ficavam um olhando pro outro com suas xicrinhas de café, daquelas antigas, ela tomava duas, ele doze.

As vezes quando se cansava de ficar naquele apartamento, pegava seu player de músicas e pegava o primeiro ônibus que passasse na sua frente, enquanto ouvia a trilha sonora de sua vida. Trilha composta por músicas sobre uma garota que foi embora, mesmo que isso nunca tivesse acontecido, músicas sobre as bebedeiras que ele não tomava e sobre um modo de vida sem preocupações que ele não tinha. Normalmente pensava em como a semana acabava rápido, ou como não lhe sobrava tempo pra nada. Suspirava por suas aspirações perdidas e oportunidades que nunca teve. E se ele fosse abduzido? Não que ele acreditasse nessas coisas, mas se é que existem, bem que podiam acontecer com ele. Ele não era bem o tipo normal de terráqueo caso fosse capturado para experiências. Voltava a noitinha. Quando começava a esfriar nesse país quente como o inferno.

Normalmente só saia pra fazer alguma coisa necessária uma vez por mês. Pra ir ao mercado abastecer-se do necessário, ou seja café, nachos e lasanha congelada, mas as vezes tinha que voltar lá mais de uma vez. Isso acontecia quando o café acabava, o quer dizer que o mês tem sido estressante. Esse era um mês desses. Saiu e não falou com o porteiro. Só tinha mais uma jarra então não podia perder tempo. Quando saiu, trombou com uma desconhecida, sabe a rua é cheia de desconhecidos, e com o choque derrubou o café que carregava num daqueles copos de papelão feios das lanchonetes. Desculpou –se.

-“Olha, desculpa mas é que eu não te vi passando. Não era minha intenção te dar uma queimadura de segundo grau.”

-“Não tudo bem foi um acidente, eu entendo. Porque alguém tomaria café tão quente num dia de sol desses?” – Ela perguntou curiosa.

-“Sol?Ah sim, bem é que... sei lá. Só me ajuda a relaxar. Tem sido estressante.”

-“Certo, se te faz bem. Eu moro ali no prédio da frente. E eu tava entrando no seu prédio pra ver se o seu porteiro podia me ajudar com o meu carro.”

-“Ah, sim. Juvenal! Poderia ajudar a ... seu nome?”

-“Lillian. Meu nome é Lillian.”

-“Poderia ajudar a dona Lillian com o carro dela.” – O porteiro veio correndo prestativo. – “Me desculpe de novo, tenho que ir ao mercado, sabe o café não se compra sozinho.”

E com isso saiu de perto da moça, praguejando por ter derrubado o café. Pôs o player no ouvido e fez o trajeto enfadonho ao som de “Subterranean Homesick Blues”. Ele não demorava para chegar ao mercado, demorava para sair. Enquanto esperava na fila de pessoas comuns com seus carrinhos cheios de mantimentos, pensou em como as coisas deram errado. E em como sempre darão errado. “Que dêem. A menos que tenha café.”-pensou ele. Olhou mais uma vez para o pacote de pó de café em sua mão e pensou que a jarra que tinha feito já estava fria e lamentou. Lamentava muito. Ultimamente pelo menos. Lamentava por não ser mais esperto, por não ter tempo pra ele mesmo, por não ter plantado uma árvore, por não ter feito um filho. Lamentava pelas criancinhas com câncer, e lamentava pela África (menos pela África do Sul), lamentava pelos torcedores que vêem seu time do coração perder. Lamentava mas não se importava. Era só um modo de expiar seus pecados.

Saiu do mercado depois de uma boa meia hora de lamentações. Parecia que a fila aumentava cada vez que respirava, tentou prender a respiração mas não deu certo. No caminho de volta uma coisa gritava em sua cabeça, ele nem ao menos disse seu nome. Isso é rude, para não dizer idiota. “Uma garota linda esbarra em você e você nem se apresenta. Que há de errado com você?”. Decidiu, que diria o seu nome a qualquer garota que trombasse com ele de agora em diante. Nunca se sabe, as vezes a mulher que você queimou com café quente poderia ser a mulher da sua vida.

Motivos pro inevitável

Existe alguma coisa nesse mundo pela qual vale a pena morrer? Pergunto porque muita gente acha que sim. Eu particularmente acho que não. Pessoas morrem todos os dias, aos montes, e pelos motivos mais bestas imagináveis, porque isso é normal. Mas as pessoas tendem a querer dar algum significado à inútil vida que levam morrendo por alguma coisa. O que deveria significar se sacrificar por um ideal, ou pior, por uma pessoa? Total dedicação à uma causa? Amor? Apatia? Essas anomalias me interessam, justamente porque são anomalias. Toda essa besteira vai contra a mais primordial das vontades, a de manter-se vivo.

Eu não desistiria disso por nada. Eu gosto de estar vivo, mesmo sabendo que a vida é uma merda. Eu nunca vou me meter numa dessas situações. Não sou de fazer pose de herói então provavelmente eu não vou me atirar na frente de um tiro pra salvar um moleque qualquer na rua. Não realmente acredito num ideal tão fortemente que me mataria por causa dele, como aquele monge que atirou fogo no próprio corpo. Qual é o ponto de morrer por uma causa, se depois que você morrer você não pode mais ajudá-la? E por que morrer por amor? Pessoas que se matam pra ficarem juntas do “outro lado” dão ótimas histórias pra cineastas sem criatividade e autores solitários. Todo o papo de “amor sem limites”. Amor não cura nada, não cura a morte. Não existe esse papo de morrer juntos. As pessoas vivem juntas, morrem separadas. Uma pessoa não vale uma vida. E olha que a vida vale bem pouco na minha escala.

Eu particularmente almejo a imortalidade. É o topo da minha lista de coisas pra fazer, logo acima de “Não bancar o esperto com as pessoas”. Em letras garrafais: “NÃO MORRER”. Não é como se eu quisesse que meu nome fosse lembrado por décadas e décadas, por alguma coisa que eu tenha feito. Não quero ruas com meu nome ou estátuas nos parques. Eu quero ser imortal não pelo que eu fiz, mas por não morrer. Não quero ficar vivo nos anais da história, quero ficar vivo no meu apartamento.

Por enquanto (ênfase nessa frase), eu não descobri como fazer isso. A única coisa que se pode fazer é viver até uns 120 anos. Mas é inviável, a única maneira conhecida de se viver 120 anos é abdicando das coisas que te fazem querer viver 120 anos. De volta à estaca zero.

Fotografia é uma categoria do oscar por quê?

A vida é como um filme com uma péssima direção de arte. Cheguei a essa conclusão quando estava olhando o mar hoje e percebi que nem sempre é como você acha que vai ser. Eu levo a minha vida como se fosse realmente um filme. Um filme com uma trama bem ruim. Eu escolho o que vou dizer e o que eu vou fazer pensando exclusivamente em como ficaria se eu tivesse contando a história. Porque é isso que eu faço, conto histórias. Em relação a relacionamentos, eu sempre imagino como se fosse um dos meus filhos me perguntando: “Como você conheceu a mamãe?”.

Essa história tem que ser a mais importante da vida de um homem, inclusive daqueles que contam histórias. Uma história em que o casal de protagonistas se ama mas se separam uma vez por causa dos infortúnios só pra se reencontrarem e serem felizes é bonita. Uma história em que o mesmo casal se separa duas vezes mostra o quão difícil e imprevisível a vida é. A mesma história com três separações e reencontros já é palhaçada, não quero contar isso pros meus filhos.

Também não quero contar uma historia normal, não quero encontrar a mãe dos meus filhos de um jeito normal, não quero chamar ela pra sair depois de conhecer ela no supermercado ou coisa assim. Tem que ser algo mais empolgante. Porque como eu disse antes, a vida é um filme. Mas esse filme é realmente longo, e ninguém presta atenção durante toda a sua duração. Sua juventude é como se fossem as primeiras duas horas, onde toda a trama e informação relevante acontecem. O resto é como se fosse a visão depois do final de um filme de romance. Sem graça.

Sabe quando o casal se odeia o filme inteiro e acaba junto no fim? Esse tipo de história é a que eu quero contar. Por isso que as vezes me pergunto se eu não amava a Jéssica. A gente se odiava, mas talvez seja isso que eu queria desde o começo, uma história de comédia romântica. Mas é só delírio meu. Eu realmente não gostava dela. Só almejo a historia que eu poderia contar.

É estranho como eu realmente levo a sério esse negocio de filme. Eu realmente falo minhas frases feitas porque eu acho que ficariam boas numa cena. E eu me deixo viver relacionamentos porque dariam uma boa subtrama. Eu sou meu próprio roteirista. E não sou bom nisso.

Quanto a direção de arte, bem você há de convir que quando nunca se tem o melhor anglo das cenas da sua própria vida, o diretor de arte deve ser um incompetente.

Complexo de Atlas

Todas as pessoas carregam o seu próprio fardo. O peso que lhes cai sobre as costas toda vez que se levantam. Eu como todos os outros também carrego o meu, mas ele é incrivelmente leve, não me impede de fazer nada. É decepcionante não ter o que carregar, não ter algo que te pregue no chão tão forte que você afunde até as canelas.

Minha vaidade me impede de aproveitar a falta de bagagem. Como você pode se sentir poderoso se não tem responsabilidades? Chego a invejar o titã Atlas por ter de carregar a esfera celeste como castigo por seus feitos. Se o inferno for como foi retratado em Sandman*, meu castigo seria justamente esse. Carregar o peso do mundo.

Eu quero me sentir feito merda quando eu estrago tudo. Eu quero sentir remorso quando faço alguém chorar. Quero sentir o peso dos meus pecados, como todos os outros. Mas minha consciência não pesa nunca. Eu simulo culpa. Simulo remorso. Simulo pesar. Eu ajo como se nada tivesse ocorrido quando eu não quero perturbar ninguém. Eu exagero uma situação quando eu quero me fazer de forte. Eu tenho Complexo de Atlas.

* Neil Gaiman retrata o inferno como um lugar onde só os que anseiam pelo castigo o recebem. É o lugar onde os que desejam receber o castigo encontram os que querem infligir o castigo, e nada mais. Só permanece nele quem deseja

O Greenpeace deve me odiar.

O problema sobre as árvores é que não se pode escrever um texto sobre elas que comece com “o problema sobre as arvores é”. Não se tem o que falar sobre as árvores. Elas só estão lá, paradas. Não se pode ter um pensamento filosófico sobre elas. Não se pode questionar as árvores sobre nada, porque elas não responderiam mesmo que você perguntasse. As árvores não têm motivos pra se fazer o que elas fazem porque elas não fazem nada. As árvores são diferentes umas das outras mas são todas iguais em um ponto. Não fazem nada. E não dá pra se escrever sobre elas.
Não me entenda mal, eu não sou contra as árvores. Os melhores lápis e livros que eu já tive o prazer de conhecer foram árvores. Só sou a favor de sua substituição por algo mais inspirador. Porque definitivamente não se pode escrever nada sobre as árvores.

Resoluções

Acabei de decidir o que fazer da minha vida. Não que eu não soubesse, só não tinha me decidido ainda. E como todas as vezes que eu decido alguma coisa, eu planejo a maioria dos aspectos que eu posso. Decidi seguir a carreira em TI que todo mundo já esperava de mim. E tenho como objetivo a Unicamp. Certo, parece bom né? Certamente, melhor faculdade pra se fazer nessa área. O que me assusta é a concorrência. 28,7 alunos/vaga. Não que eu não consiga. Só que eu não tenho muita segurança se tratando de matérias da área de exatas. Então aproveitando o ensejo do fim do ano, vou fazer uma daquelas listas de resoluções que ninguém cumpre.
• Realmente me esforçar em matemática e física.
• Parar de faltar à toa pra não me preocupar demais no fim do ano.
• Entrar em uma das faculdades que eu designei na minha cabeça.

Essas são minhas resoluções no quesito acadêmico, não tem nada a ver com a minha lista de resoluções pessoais. A única semelhança é que dificilmente eu vou cumprir qualquer uma dessas coisas que eu escrevi.

Needs

A necessidade de me deixar miserável é uma coisa que me impressiona todo o dia. Eu simplesmente faço de propósito, eu me saboto. Eu tenho sido um perfeito idiota com a minha irmã, fico colocando empecilhos pra me impedir de ter um relacionamento sério, me pego pensando em foder cada relação saudável em que eu me meto. Eu só consigo escrever quando eu me sinto miserável. E é assim que eu dou a luz aos textos que elogiam, e também aos que reclamam sobre. Eu faço um papel que ninguém aceitaria em sã consciência. Eu tomo gole após gole de café pra sabotar meu sono e poder pensar que tudo é minha culpa mais tempo por dia. Pra poder ter mais tempo pra escrever ou pensar no que escrever. E claro, mais tempo pra curtir a minha fossa auto-escavada. Aí, eu fico lendo histórias, sobre como tudo fica bem no final. Memorizando cada frase boa pra se usar numa conversa. E me fazer parecer um sabe-tudo desgraçado. Eu manipulo até a mim mesmo. A verdade é que todos somos marionetes, eu por um acaso vejo as cordas.

Destino sux

As vezes fazemos nossas escolhas, as vezes fazem-nas pela gente e as vezes você não tem escolha nenhuma. Discordo de quem acredita no destino, pra mim é só uma coisa que inventaram pra usar nas cantadas. Mas também discordo do livre arbítrio, você não tem escolha livre, as vezes você não tem escolha nenhuma. Não tem alguma coisa que determinou o que você vai fazer, isso é desculpa de quem não tem coragem de se responsabilizar pelas escolhas ruins. Mas também não é tudo culpa sua, já que nem todas as situações tem uma escolha certa. Eu prefiro acreditar que não tem um caminho certo a se seguir porque eu não acredito que haja um caminho. A vida no final das contas é uma sucessão de ‘agoras’, ‘amanhãs’ não existem, e ‘ontens’ também não. Sabe aquela teoria do gato de Schrödinger? Que um gato está preso numa caixa que tem 50% de chance de encher de gás venenoso, até se abrir a caixa e olhar dentro o gato não está nem morto nem vivo. É mais ou menos assim com a vida.

O ruim das pessoas que pensam que tudo é culpa delas, ou das escolhas que fizeram, é uma coisa que está subentendida. Ninguém pode ser culpado por tudo, se não for responsável por tudo. Fica implicado o poder que essa pessoa acha que tem. Eu particularmente não acho que tudo seja minha culpa, sim dos meus subordinados.

As coisas erradas...

Eu tenho o péssimo hábito de sentir atração por mulheres comprometidas, não que eu renegue as solteiras, mas é que pra mim é muito mais divertido quando a pessoa é comprometida. Seja porque tem todo o jogo de gato e rato, seja pelo desafio de conseguir a mulher que não pode ser alcançada, seja pela sensação de risco envolvida. Porque no final das contas é um jogo. Eu acho mais atrativo todo o esforço pra se conseguir o objetivo do que a rotina de namoro. O que importa é a viagem, não o destino. Sem contar os inegáveis prós de um relacionamento aberto. Entre ficar com uma solteira na frente de todo mundo por duas horas e ficar com uma comprometida por quinze minutos escondido dentro de um armário, eu certamente escolheria a segunda. Esse é um daqueles textos que nunca vão sair desse HD porque não me atrevo a colocá-los na rede. As pessoas não tem que saber disso. A explicação pra tudo isso deve ser toda a sensação de transgressão envolvida. Das máscaras caírem. Da adrenalina do momento. Malditos hormônios.

Considerações sobre o fim

Acho que o que assusta as pessoas na morte é o fato do mundo continuar sem nós, é perceber que você não é nada, que não vai ser criado um feriado nacional em sua homenagem, que em duas gerações ou menos ninguém saberá dizer quem você era, tudo que lembrava você sumirá. As pessoas mesmo morrendo querem continuar ‘vivas’ no mundo. Querem que as pessoas se importem com elas mesmo depois de morrerem, que as pessoas levem flores a sua sepultura e tudo mais. Querem ter um pedaço ainda preso aqui por ter medo do que está por vir. Coitadas, não sabem que não tem o que temer, mas também não tem nada o que ficar ansiosos. A morte é vazio. Mas acho que isso assusta mais. Você morre a partir do dia em que nasce. A vida é uma doença terminal, você não vai escapar e você sabe.

Sal

Chorar não resolve nada. Nenhum problema melhora por lágrimas derramadas. Chorar também não diminui o sofrimento, pelo contrário. Aumenta e muito. Quando se chora, as máscaras caem. E ninguém se sente bem sem máscaras. Eu não choro. Nem por dor, nem por sofrer, nem porque a mulher me largou nem porque alguém morreu. O choro é como sal numa ferida, arde, dói, piora tudo e atrasa a sua recuperação. Pensando bem, deve ser por isso que as lágrimas são salgadas. Não que eu chore. Mas parece que as pessoam gostam de fazer isso do meu lado.

Dúvidas

Sei que não é bom duvidar de você mesmo. Mas eu duvido. Não tenho certeza de que tudo que me ocorreu até agora foi verdade. E se as mentiras que eu já contei estão tão impregnadas em mim que eu não consigo mais discernir entre o que é real e o que invento? Você sabe que está ficando louco quando começa a pensar que nem você mesmo é confiável.

Meu professor de filosofia uma vez me disse que os sentidos não são confiáveis porque eles podem ser enganados. Se eu também não sou confiável, como vou perceber o mundo a minha volta? Eu estou me enganando? Por isso não sou confiável? Não posso deixar de pensar que sim. Se fui enganado por mim mesmo então estou enrascado. Talvez tudo que eu acho que sei seja tudo mentira, uma mentira contada por mim mesmo. A realidade bate à minha porta mas suas súplicas caem em ouvidos surdos, melhor, ouvidos não confiáveis. Pode ser paranóia... mas também pode não ser. Pode ser uma teoria desvairada, mas também pode ser plenamente plausível. Se for, nada do que eu diga ou escreva têm valor como verdade ou interpretação válida de fatos. Sou só... um grande mentiroso. O MAIOR mentiroso da face da terra. O único que mentiu tão bem que enganou a si próprio. A chance é grande, mas esse é um título que não me agrada.

Vejo o dia em que o peso dos mundos e vidas diferentes que inventei pra mim será grande demais para meus ombros, como posso não suportar o peso de todos os meus eus? Cada versão dos fatos que conto, um novo eu nasce, o eu que agiu daquela maneira, todos eles vivem na minha cabeça, e eu os acesso enquanto converso. Droga, eles são todos tão parecidos que as vezes eu erro o papel que tenho que interpretar. Minha vida é isso. Interpretar papéis em situações nas quais eu deveria ser sincero. Enganando pessoas que gosto com intuito de protegê-las da verdade, da verdade sobre mim. Que eu não sou nada que elas acham que sou, não sou o amigo carudo que mexe com estranhos na rua, não sou o namorado fofo, não sou o aluno exemplar, não sou o filósofo de boteco, não sou o cara sarcástico com comentários inteligentes, não sou o irmão frio. Sou só um cara com muitas vidas pra poder se importar com qualquer uma delas. Se cada faceta minha tiver um pedaço de mim, bem isso é bem pouco pra cada uma.

Não adianta tentar

Eu realmente queria ter algum outro motivo pra escrever além das coisas ruins que eu penso ou das minhas teorias estupidamente errôneas, mas eu não tenho mais sobre o que escrever. Eu só sei escrever sobre tragédias e coisas ruins em geral, me falta o vocabulário pra ser um pouco feliz. Meu vocabulário se resume à piadas de mau gosto, comentários na hora errada e ficar me lamentando. E a cada dia que passa eu luto pra retirar do meu já escasso vocabulário expressões como “Ai meu Deus!” e “Seja o que Deus quiser”. E inclusive eu tenho que parar de escrever o nome desse babaca com letra maiúscula. Acho que eu escrevia melhor quando eu ficava me lamentando.

L.I.A.R

As mentiras diárias de cada um. Mentiras como: “Tudo vai ficar bem.”; “Depois melhora.”; “Eu te amo.”; “Comigo tudo bem, e você?”; “Não fui eu.” e “Desculpe-me”. O que seriamos caso não se contasse mentiras, o único jeito de viver é mentindo, e suportado por mentiras que nos contam todos os dias. Pessoas que se importam, pessoas que fingem não se importar, pessoas que se importam mas fingem não se importar, pessoas que fingimos que nos importamos, pessoas que achamos que são importantes, pessoas que não nos importamos, pessoas que não suportamos, pessoas que manipulamos, pessoas que nos manipulam, pessoas que mentem. É disso que a sociedade é composta, uma sucessão de mentiras brancas que pensamos não fazer mal a ninguém, que suportam todo um modo de vida, o “human way of life”.

Apoiamos as nossas relações interpessoais nessas mentiras, mas mesmo sabendo disso ficamos chocados quando se descobre uma mentira um pouco mais elaborada. Por que? Simples, mentir todos mentem, seja por ser embaraçoso, seja por necessidade, seja por profissão, seja por ambição, seja por atração física, seja pelo puro prazer de enganar, o segredo é mentir com moderação. Mas claro que isso é uma mentira deslavada.

Meu reflexo me odeia

Me peguei falando com o espelho agora pouco. E o pior é que teve um belo efeito sobre mim. As pessoas me dizem que eu não consigo apagar esse risinho sádico da minha cara quando eu falo sobre a minha vida, e o pior é que é verdade. Eu mal conseguia me encarar! O reflexo era tão... tão... tão eu! Eu sei que não faz sentido, mas pareceu pra mim que eu talvez entenda agora um pouco mais sobre o que dizem sobre mim. Eu sou realmente patético ao ponto de perceber o olhar de pena que meu suposto reflexo me lançou, até mesmo ele acha que eu deva ficar sozinho. Sou tão mal que não mereço ninguém ao meu lado? Será que ele sabia que isso tem implicações sobre ele também? Não, porque se eu ficar sozinho ele também ficará não é mesmo? O que ele ganha me deixando mal assim? Ou será que fui eu que deixei ele mal? Não tenho certeza, ele parecia falar a mesma coisa que eu disse... Quem é o reflexo de quem?

Controle

Odeio perder o controle, odeio mesmo. Fico vulnerável, e eu não gosto disso também. Sorte que isso só ocorre em raras ocasiões, mas normalmente tem conseqüências desagradáveis. Mas o que fazer quando se tem a oportunidade que você esperava a muito tempo, bem a seu alcance mas o senso comum te proíbe de ir lá e pegá-la? O que eu deveria fazer quando você cansou de correr e não tem mais esperanças alem de fazer o que te disseram pra não fazer? E o pior, se o que mandaram você não fazer fosse extremamente prazeroso e divertido?

Não são questões fáceis de responder, mas o que fazer nas situações difíceis? Juro que tentei resistir. Mas acabei não conseguindo e amanheci com marcas de unhas nas costas e um sorriso besta na cara. Mesmo não tendo motivo pra tanto. Eu também odeio quando me dizem o que não fazer. Odeio mais isso do que perder o controle, porque quando eu perco o controle, normalmente eu estou bem acompanhado, e a pior das hipóteses é ter fadiga matinal.

Enganos

Fui é apressado demais em dizer que estava apaixonado, não estou. Achei que deveria estar e então me fiz acreditar que estava, trabalho fácil pra um mentiroso do meu calibre. A questão é... se eu não estou apaixonado, então porque eu faço isso? Digo, se eu pudesse escolher entre estar apaixonado por ela e não estar por ninguém, o que escolheria? Não é vantagem nenhuma estar apaixonado, nenhuma mesmo, você faz coisas que não se orgulha, não pensa direito e é facilmente enganado. Vantagem nenhuma. É só um estado de falsa esperança, onde por alguns momentos você vive bem e espera que continue assim para sempre, mesmo sabendo que tudo acaba, que voltará a sofrer em breve, que é só sofrimento que te espera quando tudo acabar. Não quero me enganar e achar que o mundo é pleno quando não o é. Por isso eu nunca me apaixono. Nunca!

Vive la France!

Rousseau disse que o homem nasce bom e a sociedade o torna o lixo que é. Resta saber se com sociedade ele queria dizer a estrutura social da França na época ou a sociedade em seu significado primordial. Caso seja a segunda opção, temos por definição que sociedade é um agrupamento de pessoas sendo regidas pelas mesmas leis. Mas o que é nocivo na sociedade? O mero agrupamento de pessoas ou conjunto de leis que regem as vidas dessas pessoas? Sem as leis nós temos a terra-do-faça-o-que-quiser. Não a anarquia. Mas sim o caos. Anarquia significa sem líderes, não sem ordem. Sem leis e com o estado deteriorado do ser humano a anarquia é impossível. Logo admite-se que as leis não são nocivas já que sem elas os humanos não existiriam pois destruiriam a si mesmos. Logo, o que é nocivo na sociedade não são as leis, mas sim as pessoas. O convívio com iguais nos torna maus. Quando se abstêm do convívio de iguais, perdemos a identidade humana, logo Rousseau era um cheirador de cola barato. O humano não é bom em sua natureza, pelo contrario.

Crescendo como uma videira

Tudo passou tão rápido. Agora quando eu relembro de tudo que já aconteceu, tudo parece que ocorreu tão rápido. A cada dia eu fico mais velho e meu tempo vai se esvaindo aos poucos. Em dois anos eu vou servir o exército. Dois anos. Ontem eu estava na 4ª série, hoje eu me mato de estudar no 2º colegial. Ontem eu tinha 1,45 m e vivia ralando os joelhos no chão, hoje eu tenho 1,80 m e o coração reclama de vez em quando. Ontem as pessoas na rua me fascinavam e eu ficava imaginando o que elas estavam pensando, hoje eu mal ouço o que eu mesmo digo.

Já se passaram 3 anos desde que o último resquício do que eu era ontem me desapareceu. Quando eu não procurava achar um sentido pra minha vida, antes de eu começar a julgar primeiro e perguntar depois, antes de eu começar a ter minhas idéias de grandeza, antes de eu contestar as coisas sagradas das pessoas.

Saudades de quando eu não era falso, de quando eu não tinha a impressão de ser ruim, de quando eu era menino. Eu sinceramente acho que é meio cedo pra ter saudades da infância, mas quem disse que eu me importo. Eu arruinei tudo que era bom pro meu eu antigo, eu esmaguei seus sonhos e corrompi seus prazeres com meus novos ideais. Ideais que não durarão o suficiente pra ter valido a perda daquilo.

Tenho pensamentos de velho, num corpo jovem. É a balança da vida ao contrário, uma criança morreu pra um velho viver. Um velho amargo e senil do alto de seus dezesseis anos contemplando tudo ir pelos ares enquanto tem seus devaneios de eloqüência. Troca justa.