Não escrevo mais. Não aqui pelo menos. Não posso escrever nada aqui por que aqui não me pertence e duvido muito que um dia tenha me pertencido. Tudo que foi escrito aqui foi escrito pra ela, e não tenho a mínima intenção em perder isso. Não retiro uma palavra sequer do que disse, porque quis dizer cada palavra. Era uma vez. Esse é o meu santuário do que não deveria ter sido. Pra que um dia eu olhe pra trás e me sinta com culpa sem ter culpa.
Não escrevo mais. Não aqui. Só lá.
Last One
Espera, o que é isso?
É o som das estrelas gritando como fogos de artifício e promessas escorrendo de uma boca que não sorria há anos. É o som de pulmões se enchendo de ar pra gritar o mais alto possível e o sussurro do coração da garota de olhos castanhos quando pele encontra pele.
Nunca ouvi silêncio que dissesse tanto.
Olha.
Isso não sou eu. É o branco de uma certeza e a esperança encontrada entre os cacos de neon e sorrisos inexplicáveis. É só o espaço vazio entre o mundo e palavras e as pintas no seu ombro. Isso não sou eu.
Mas eu prometo, um dia vou ser tão incrível quanto você acha que eu sou.
Consegue ouvir?
Todos os sonhos iniciados e terminados correndo por dentro dos meus ossos. Talvez um dia você finalmente veja todas as suas perfeitas imperfeições e os olhos encantadores que te fazem ser a mulher da minha vida e perceba que você é linda.
Sou inspirado pela sua ingenuidade e atiçado pela sua insegurança. No dia que não mais puder contar com isso, acabou pra mim.
Future Awaits
Entrei e notei sem querer a sacola plástica com a grande cruz vermelha impressa com tinta não bio-degradável em cima da mesa. Vazia. Notei também ele curvado perto do aquário, preguiçosamente atirando pequenos objetos na água suja e meio opaca do recipiente. Cada uma caía com um espirro e um barulho estranho parecido com aqueles que os eu estômago faz quando não deveria e te deixa desconfortável na frente dos pais da sua recém assumida namorada.
- Como foi a entrevista? Algum resultado? - Eu pergunto. Recentemente sugeri que ele procurasse algo com o que se ocupar, não se pode passar os dias escrevendo péssima poesia e riscando bigodes em pôsteres de vinte anos atrás. Esperava uma resposta, no mínimo. Por consideração. Um 'Não fui' pelo menos.
Ele olhou em minha direção e atirou algo. Algo pequeno e meio marrom.
- Aí o resultado. - Em minhas mãos um remédio tarja preta. 500 mg, Haloperidol 30 cápsulas. Vide bula para todas as cinquenta maneiras com que isso fode o seu cérebro. Antes que eu perguntasse o por que ele me disse. - As coisas ficaram meio fora de controle.
- Como você sai de casa com objetivo de arranjar um emprego e volta com medicação em dose cavalar Daquelas que as madames usam para dormir.
- Para a sua informação, isso não é Valium. Tudo ia bem até que me perguntaram onde eu me via daqui à vinte anos.
- E o que você disse?
- Que me via com uma barba, uma garrafa e três lunáticos, num bar enfumaçado tramando a derrocada do império das máquinas.
- Você não devia ter brincado numa situação dessas. Esse povo não tem senso de humor.
Seus olhos ficaram fixos e ele andou meio desinteressado até a parede, do lado da janela como se fosse um peão num jogo de xadrez. Depois disse:
- Não brincaria com algo tão sério quanto a queda dos robôs.
A bomba do aquário fazia barulho, mas o peixe havia morrido.
Debts and Dues
Eu já disse e fiz coisas. Disse e fiz coisas minha vida inteira. Tentei pensar em tudo antes, mas nem sempre cumpri com a promessa feita à mim mesmo. Sempre reagi bem sobre pressão, nunca me faltaram as frases feitas. Mas não importa o quanto eu pense, não consigo. Não posso achar as palavras que ela quer que eu diga. Parece falso e forçado. Artificial e aleatório. As palavras não clicam juntas. Saem engasgadas. Não consigo escrever o que ela quer ler por que eu não sei o que ela quer ler. No fundo do meu coração eu sempre soube que eu nunca me conheci o bastante pra dizer até mesmo o que eu queria ouvir.
Desculpe sei que estou um pouco atrasado, mas acho que ainda dá tempo. Não sei se adiantaria dizer que você é tudo aquilo que me falta. Meu discernimento já não é o mesmo e meu julgamento parece meio fora. Não sei se estou pronto para a falta que você vai me fazer nesta semana, mas eu tenho certeza que não tenho certeza de nada, nem mais da passagem do tempo. Dias ou anos? Horas ou meses? Sístole ou diástole? Seria bom que seu coração tivesse espaço para dois, eu e você, o meu já não mais me pertence. Se eu te devo algo, devo muito mais do que palavras. Devo-te no mínimo o respeito necessário para não dizer besteiras e nem dividir fantasias mirabolantes. Devo-te no mínimo o desejo inexorável de acordar ao teu lado e dormir nas tuas mechas. Devo pelo menos abrir mão de tudo o que me faz eu para me tornar teu e somente existir nos teus olhos. Por que eu te amo. E só.
Desculpe sei que estou um pouco atrasado, mas acho que ainda dá tempo. Não sei se adiantaria dizer que você é tudo aquilo que me falta. Meu discernimento já não é o mesmo e meu julgamento parece meio fora. Não sei se estou pronto para a falta que você vai me fazer nesta semana, mas eu tenho certeza que não tenho certeza de nada, nem mais da passagem do tempo. Dias ou anos? Horas ou meses? Sístole ou diástole? Seria bom que seu coração tivesse espaço para dois, eu e você, o meu já não mais me pertence. Se eu te devo algo, devo muito mais do que palavras. Devo-te no mínimo o respeito necessário para não dizer besteiras e nem dividir fantasias mirabolantes. Devo-te no mínimo o desejo inexorável de acordar ao teu lado e dormir nas tuas mechas. Devo pelo menos abrir mão de tudo o que me faz eu para me tornar teu e somente existir nos teus olhos. Por que eu te amo. E só.
Diário de bordo, data estelar 03/02/2009
A vista da janela limpa e ampla é a única evidência de que o tempo passa quando tudo o que se passa à minha volta é virtualmente imóvel. A poltrona gasta e pública parece uma casa, do seu jeito de poltrona claro, e o sol me nega o calor mesmo que me ilumine como que reconhecendo a ausência do raio de sol que carrego no peito. Antes de escrever a primeira coisa sincera e realmente válida em quase um mês, li sobre como as pessoas nascidas no começo do ano são mais propensas à genialidade e auto-confiança, eu, em minha ignorância e baixa auto estima, acreditei. A revista também me sussurrou pela tipografia preta e miúda que as pessoas com transtorno bipolar estão inclinadas à ter grandes idéias e desempenho mental melhor quando estão justamente nos picos de depressão e dos ataques maníacos, período esse onde experimentam hipervelocidade nas sinapses neurais. Ao preço de queimar os neurônios pelo esforço sobre-humano e transformá-lo em mais um caso clichê, como se a loucura fosse glamurosa.
A garota à direita me olha à cada três segundos e meio, mas ela não é ela então não me importo. A primeira e única dama. Alimento a esperanla de que quando a euforia passar e ela me abandonar, que seja na velocidade que ela escolher., lenta de preferência. Assim posso aproveitar o último impulso criativo advindo da depressão final enquanto assisto ela se afastar em slow motion.
A's começam todas as sentenças porque os a's começam tudo. Aquilo que não posso prever não acontece antes de ser tarde demais, por isso guardo os z's no meu bolso de trás. Acho que o fim nunca é certo.
Do You Need To Be Forgiven?
Um dia meu fado prevê que eu olhe no espelho e me pergunte se aquilo é tudo o que eu sempre esperei, o que eu sempre sonhei. E eu não vou ter certeza. Eu não preciso ter certeza. Ninguém deve duvidar de algo que nunca foi feito. Se não esperava nada, como tudo o que sonhava deveria parecer?
E nessa hora, tudo o que eu jamais fiz vai parecer claro como água. Tudo pelo próximo momento ao lado dela. Esperando aqui por ela. Querendo dizer nada e qualquer coisa que a fizesse sorrir um sorriso qualquer que fizesse eu sentir qualquer coisa diferente no estômago. Isso provavelmente não fez sentido, mas é completamente verdade.
O trabalho tem sido duro, eu estou crescendo rápido demais e não é tão legal quanto eu achei que seria. Mas se alguém me perguntar a única coisa que eu quero, eu vou responder: "Celofane azul ou vermelho?" ;D
She Told Me To Write²
A primeira vez que a vi, ela virou as costas. Na segunda vez que a vi, disse "oi" mas não pude ouvir uma palavra do que eu disse pois surdo fiquei com o som de seu sorriso. Pois o sorriso dela tem um som peculiar e muito cristalino dentre todos os sorrisos do universo. Algo como o que você gostaria de ouvir num domingo de manhã. Na terceira vez que eu a vi, estava muito ocupado prometendo-a o mundo para realmente perceber que era só a terceira vez que a via. E na quarta vez que eu a vi, ela me prometeu o mundo enquanto tudo o que eu queria sentava na minha frente.
Por nove dias não ouve um amanhecer. Nove noites de vinte e poucas horas. Hoje a luz tímida entrou pelo quarto escuro que era minha percepção de tempo. Um raio de sol.
She Told Me To Write
Dinheiro não é nada se gasto com ela. Um dia não é nada sem a permissão dela. Se eu pudesse, fugiria. Se eu ainda fosse jovem, fugiria até onde ninguém além dela me seguiria. Rei aos dezessete e onze avos. Completo por um metro e sessenta e um fio de cabelo cheiroso.
Um cartão postal da Terra, gostaria que você estivesse aqui. E gostaria que ela estivesse aqui, para olhar a Terra de longe. Quarenta e cinco esposas, nenhuma delas a certa. Quem vai passar minhas camisas? E quem vai tirar minhas camisas? E quem ficaria feliz com um bom dia, além de mim e dela, claro, por que somos estranhos?
Eu posso voar mesmo sozinho. É o que patos fazem. Fucking quack motherfucker. Fucking quack! Mas não me importa, eu quero as asas dela. Meu anjo. Me dá presentes. Me dá beijos por simplesmente voltar para a casa que é seus braços.
/music
Consider this song a testament
Of my devotion to your sacharine scent
And to be completely honest
You're not like all the rest
Of my devotion to your sacharine scent
And to be completely honest
You're not like all the rest
Break
As pílulas para dormir e a garrafa de scotch faziam compania à dois copos, um recentemente esvaziado e outro completamente imaculado, e atulhavam a mesa de centro. A maculada figura dela recortada contra a luz azul vinda do aquário na parede, única fonte de claridade. As sombras desenhadas esguias até os pés da poltrona dele do outro lado da sala. Sentado de lado, pernas balançando dependuradas por sobre o apoio de braço, estava o rapaz inimaculável que lançava furtivamente olhares em direção à garota azul.
- Você se lembra? - Começou ele sem confiança o bastante para olhar em qualquer outra direção além da outra direção que deveria olhar. - Se lembra do dia em que estávamos deitados no sofá de bolinhas da varanda e você me disse que eu cheirava à sabão em pó e café torrado?
- Lembro.- Disse a garota depois de um segundo em que tentou não olhar para o lugar que olhou. O lugar que deveria olhar desde o começo. - Eu tive esperanças de que você me respondesse daquela vez. Quer dizer, você tem resposta pra tudo mesmo.
- Eu sei agora. A resposta. Eu sei. Não sabia antes mas agora eu sei.- Calou-se. Demorou alguns segundos até perceber que deveria dizer mais alguma coisa. - Quer saber? Quer que eu responda? - Aceno de cabeça. - Você cheira ao cheiro que a felicidade deve ter quando o sol bate nela.
As bolhas explodiam como balas na superfície no silêncio que se seguiu. Então uma bomba soou quando o peixe mais vermelho de todos os peixes vermelhos do aquário provocou ondas depois de abocanhar algo boiando e ela disse algo.
- Essa foi, de longe, a coisa mais estúpida que você já disse. Palavra. - Risos ecoaram pelos corredores vazios além do que a bruxuleante luz ambiente permitia enxergar e pararam dando lugar à outro silêncio retumbante.
- Você não acredita mas é verdade. Você me faz notar as mais estranhas coisas quando está perto de mim, como se fosse capaz de expandir minha percepção. Seu cabelo dobra a luz de um jeito diferente do resto das coisas e quando nos abraçamos sinto você mais perto do que o possível. Mais do que qualquer outra coisa poderia chegar.
- Você sabe que isso é fisicamente impossível não sabe?
- Sei sim, mas quem disse que a física importa? Nada é impossível. Eu digo que, se você quisesse, você poderia atravessar sua mão pelo aquário e não quebrar o vidro.
- Como?
- Simplesmente esticando ela atráves da coisa toda. É tudo uma questão de expectativa, quando eu te tenho nos braços, não espero que nos separemos e então fica difícil saber o que é você e o que sou eu. Se você não esperar que sua mão encontre resistência da parede, mas se concentrar na água por exemplo, esperar sentir a água, você atravessa.
Como que em desafio ela se levantou prontamente, marchou até o aquário virando as costas e esticou a mão. O barulho surdo dos dedos finos batendo no vidro acabou com o suspense e ela sorriu vitoriosa.
- Você não está tentando. Devia se envergonhar.
Ela bufou e deu as costas mais uma vez. Fechou os olhos e tentou se lembrar de como se sentia quando ele ria para ela. Esticou a mão e sentiu os pelos do braço levantarem-se quando sentiu a sombra de uma presença ao seu lado. Continuou a esticar e parecia que esticaria seu braço até o infinito, o impacto com o vidro não veio. A umidade na ponta dos dedos a assustou e ela puxou a mão molhada pingando no carpete. Virou-se eufórica para a sala vazia e não conseguiu se lembrar quem esperava sentado torto na poltrona oposta.
Through the Fire
Ninguém podia exatamente dizer como e quando havia começado, mas todos os envolvidos poderiam afirmar com todas as letras que estava sendo excruciantemente doloroso só ouvir a coisa toda. Antes que eu pudesse botar meus pensamentos em ordem, esse cara já estava em cima da gente feito uma harpia, guinchando como se quisesse rachar todos os vidros num raio de três ou quatro quilômetros. Duck estava muito ocupado pensando coisas que seriam perigosas para qualquer diabético de tão doces e melosas para realmente prestar atenção em qualquer outra coisa além dos sonhos que rolavam dentro daquela cabeça. E o Ears certamente não entendia metade da situação. Tanto que fez a coisa que não se deve fazer quando se lida com esse tipo de pessoa. Rolou os olhos atrás da cabeça e perdeu o foco demonstrando o desinteresse. Ok, aqui vamos nós.
- É exatamente por causa disso que não há mais chance de salvação para a juventude de hoje em dia! Não se interessam pela palavra do Senhor! Escute aqui mocinho, o único motivo que me fez desperdiçar meu tempo com os tipos como você é a inexorável vontade que foi incutida em minha alma de levar a salvação para todas as almas atormentadas que existem por aí. Tentando demonstrar que todos merecemos o reino dos céus! - O terno de cor estranha e um livro sem importância debaixo do braço. Ninguém suspeitaria que ficaria tão inflamado assim por uma simples mostra de sinceridade. Até tentei remediar a situação mas não existe tempo pra pensamento racional com essa gente. - Mas eu desisto! Que suas almas todas queimem nos quatro cantos do inferno. E saibam quando cruzarem os portões flamejantes da perdição, que tiveram sua escolha de serem salvos e a negligenciaram.
Então um som parecido com uma lufada de vento, o crepitar de uma fogueira e um grito agudo se seguiram. Labaredas envolviam o pregador e lambiam-lhe o rosto desesperado. Correu em círculos e eu foquei os olhos na causa da dor. A chama-piloto na ponta do cano longo denunciava o lança-chamas situado nas mãos frias do sujeito. O sorriso fraco e o corpo em chamas refletido nos óculos escuros. Enquanto o calor me fazia suar eu pensei. Ginger.
- Nada queima melhor do que um cristão. - Ele disse com os gritos ao fundo.
Need
Ele pensou por um momento que um momento não era o bastante para pensar tudo o que deveria pensar. Já tivera sua cota de pensamentos não tivera? Deveria haver algum tipo de programa de distribuição de pensamentos no país, agora mesmo se sentia monopolizando todos eles e isso era errado. Pensou que tudo estava perfeitamente do jeito que deveria estar antes que a conhecesse e que, provavelmente, continuaria estando se nunca a tivesse encontrado, mesmo que não estariam perfeitamente bem já que nunca a teria conhecido. Na verdade, só três pessoas ness hemisfério poderiam acompanhar essa linha de raciocínio, e duas delas não eram nem pessoas.
Ela também deveria estar bem feliz antes de conhecê-lo, pensou. Era lógico. Talvez não tivesse do que reclamar no jeito que as coisas iam antes. Talvez ela estivesse plenamente satisfeita exatamente do jeito que as coisas eram.
Deu três passos em direção à porta que separava o quarto do quarto de mundo que ele achava que conhecia, a intenção clara de desanuviar a cabeça e esquecer tudo o que tentara pensar nos últimos minutos expressa nos passos apressados. Parou ao som do *beep* familiar do aparelho de celular em cima da mesa. No batente que agora parecia intransponível ele disse para qualquer coisa que pudesse ouvir:
- Qual é a palavra que se usa para definir a extrema necessidade de algo que você nunca achou que algum dia fosse precisar para começo de conversa?
Amor, as paredes responderam, mas ele não ouviu. Não com os ouvidos.
Snow
Seria a neve branca como a pele dela ou a pele dela é que era alva como neve? Não seria mais certo afirmar que ela era apenas pálida por compraração ao envenenados lábios rubros que carregava? Pálida como um cadáver.
Como se chama a princesa envenenada pela feiticeira má? Morta. Como se chama o príncipe galante que vêm salvá-la de seu destino tenebroso? Necrófilo.
Seems like...
Na sombra o branco parece azul, o vermelho parece roxo, meus pés parecem longe e a solidão parece maior.
De olhos fechados a música parece viva, meus cotovelos parecem formigar, eu pareço dormir e ela parece que está aqui.
Com a janela aberta o quarto parece maior, o frio parece constante, o mundo parece entrar e eu pareço sair.
Agora o tempo parece parado, a vida parece cruel, o universo parece sem sentido e eu pareço morrer.
Abstractions
Se correr é andar mais depressa e pensar é falar sozinho mais depressa, amar não seria simplesmente morrer mais depressa?
***
Não sei como passar meu tempo sem você, então eu vou só me sentar e tomar meu café até que você decida o contrário.
***
Consumo eu a cidade consumista, ou ela me consome por simplesmente estar aqui? Consomem a si mesmos. Eu e a cidade.
***
-O que se leva da vida são as cicatrizes que te marcam para sempre como gado da dor. Tenho orgulho das minhas e você devia ter orgulho das suas.
-Isso aí! Fodam-se os band-aids.
Urban
Helmut vivia com uma arma debaixo do braço todos os momentos. Defender-se de todos os possíveis perigos que o cercavam e o atacavam a cada segundo. Ninguém nunca suspeitou até tarde demais, era incólume em todos os sentidos. Ele e sua Mauser passaram por todo o tipo de problemas e aprenderam que sozinhos não são nada. E só conseguia dormir com o volume da Parabellum sob o travesseiro. Quando dormia.
Passou a ver inimigos em todos os cantos desde que havia voltado da guerra. E seu psicólogo o disse que ele deveria mudar de ares, ir para o campo ou ago do gênero, mas Helmut adorava sua cidade, e lhe doía vê-la sendo invadida por esses tipinhos. Jurou defendê-la à todo custo. E é isso que fez nos últimos quinze anos.
Amarelos, comunistas, viados, pretos. Ninguém roubaria a cidade de seu controle e nem mancharia a imagem que tinha na cabeça. A cidade seria exatamente como a deixara em 1944. A segunda guerra de Helmut começara. Ele contra toda a escória urbana.
Scare To Death Of Living Without You
Sem rumo. O que fazer quando se perde o rumo além de seguir direto para a única luz que você jamais teve em toda a sua vida? Quando tudo o que você sempre disse que não era bom o bastante para conseguir pode ir embora em um piscar de olhos antes que você perceba se mereceu ter e perder?
Sem ela você não é nada. Você não é você, não sem ela. A falta dela faria mais falta do que a falta do seu próprio coração, coração esse que você desejaria que tivesse ido embora pois não mais serve para nada além de doer e sussurrar o nome dela à cada batimento. O que acontece quando o mundo ergue um muro entre o que você mais quer e suas mãos? Quando você é impedido de retomar o controle nem que lute com todas as forças? Quando até mesmo a idéia de lutar parece vã?
Você se submete às exigências do mundo, mesmo que isso te transforme num homem quebrado? Ou quebra antes diante do pensamento de não mais ter o que você se acostumou a ter como guia em definir você mesmo? O medo é o coração do amor. E eu não sei o que faria se estivesse no lugar dele.
Só peço uma coisa, promete que não vai me abandonar? Não posso imaginar a idéia de te perder. E nada vai entrar no meu caminho.
Horrorific + Safety
Olhos são importantes. Para tudo. São como as janelas da alma dizem. Eu digo que são mais do que isso. São as janelas do ser. Só se é, só se pode saber que é, pelos olhos. Dizem tanto quanto é possível.
Olho os meus sem saber o que pensar. Creio que não é a mesma coisa. Não os olho diretamente, é como se o espelho me roubasse a essência. É diferente em tudo. Me parece que não existe nada dentro deles. Parecem os olhos de quem já viu horrores demais, sofreu demais sem saber. Cansados e vazios. Os olhos dela não. Os olhos dela são indescritíveis. São ingenuamente brilhantes. Me fazem sentir seguro. Uma segurança que promete, que me dá vontade de passar o resto da vida assando marshmallows num isqueiro. Olhos de mil tons, que devem refletir as mil facetas que os habitam. Quisera eu entender aqueles olhos.
Mas não entendo. Acho que nunca entendi e talvez não entenderei. Talvez não seja algo possível, entendê-los. Pessoas tem conversas pelos olhos. Diálogos inteiros e cheios de nuances imperceptíveis. Nunca tivemos esse tipo de conversa, talvez por que nossos olhos sejam diferentes. O que olhos como os meus, que mais parecem olhos de um assassino ou de uma amarguês imensurável teriam em comum com o mais doce olhar da face da terra? Nada. A única coisa que meus olhos dizem é "salve-me". O que vê nos meus olhos?
Wrath
A princípio foi difícil me acostumar, não só por ser um trabalho novo, mas uma realidade completamente diferente. Não é o trabalho mais comum de todos, nunca em toda minha vida esperei acabar num necrotério. Vivo. Acabar num necrotério e vivo, melhor dizendo.
- Hei, adivinha esse! - Disse meu companheiro de função em algum lugar à minha esquerda enquanto eu anotava o número no pé de um corpo quase irreconhecível estirado na mesa. Nós criamos um jogo no mínimo interessante para entreter as noites frias e vazias por aqui, basta só adivinhar a causa mortis de um cadáver sem olhar a ficha de entrada. É mórbido sim, mas você acaba se acostumando. - Vou dar uma dica, é um dos sete pecados capitais.
- Vejamos... - Comecei fazendo uma introdução básica do sujeito. - Caucasiano, casa dos trinta. Possivelmente casado, indicado pela descoloração no dedo anelar esquerdo e a cara de infeliz. - Uma risadinha abafada do meu comparsa me fez sorrir sem motivo. Claro que não era uma das caras mais felizes do mundo, o sujeito estava morto. Aponto para uma série de detalhes que me chamaram a atenção. - A face rubra indica batimento cardíaco acelerado. Tem algumas manchas vermelhas, como arranhões e coisas do tipo, e bem... a ereção. - Parei para pensar por um instante, não era uma cena muito difícil de se imaginar. - Luxúria. Cocaína mais amante. O coração não aguentou, devia ser um sedentário.
- Errado. - Me surpreendeu, mas não muito. - Calibre 22, parte de trás da cabeça. O sujeito morreu por causa da mais pura e simples ira. - Virou o cadáver e pude ver o buraco no crânio, já vazio e com longas sombas sob a luz fluorescente da bancada.
- Ok.... Eu posso lidar com isso. Qual é mesmo o placar? 33x17?
Randomness
É verão em pleno outono? É outono na lua, isso posso lhe garantir. Talvez não possa garantir mais nada. Sofista seria eu se tirasse minhas conclusões de outros lugares senão minha própria cabeça, tem coisas demais nela. Não vai fazer falta. As estrelas correndo em minhas veias permeiam meu ser com o que não quero mais. Não quero porque não tenho como conseguir. Sístole, diástole. Sístole, diástole. Love me, love me not. Love me, love me not. Quero, não quero. Morto. Sem mais sístole, diástole.
O tempo perdido não existe. Não se pode perder o que não existe. Tempo é percepção, as forças influenciando objetos com o intuito de fazer você olhar e pensar: 'Nossa, estou tão velho'. Eu perdi a percepção uma vez. Dormi e 8 horas sumiram. Ainda estou procurando-as, se alguém achá-las por favor me avisar. Quarta à direita depois dos últimos cacos de homem. Inadequação, fuga à regra, passível de punição simplesmente por não se encaixar. Encaixar-se significa perder o "eu" em benefício do "nós". A terceira pessoa do singular é realmente tão importante? Se importante fosse não seria ela a primeira? Esses jovens de hoje em dia não sabem o que fazem.
As vezes, não ter a mínima idéia é uma coisa boa. No resto das vezes é simplesmente entediante. As vezes o tédio é uma coisa boa. No resto das vezes é só algo sem nome porque "tédio" já havia sido usado. A diferença entre "uma garota" e "a garota" é "um". Um rapaz confuso. Um pensamento pernicioso. Um beijo não dado. Um gole a mais na taça da aleatoriedade. Randomicidade controlada. Disfarce suas intenções com o acaso. Funciona sempre. Com sempre eu quis dizer aleatóriamente. E com aleatóriamente eu quis dizer nunca.
Nunca diga nunca, a não ser que cite essa frase. É obrigatório o uso de "nunca" nesse caso. Você não pode falar "peixe-espada diga peixe-espada". Não soa o mesmo. Sei que fere o livre arbítrio, mas o que se pode fazer quando se está ferido além de ferir o próximo? Ferir o anterior? Ferir-se-ão todos. E tenho dito. Dito e desdito. Desisto. Do que? Ué, disto. Isto dito, gostaria de por favor pedir minha conta. Desacredito. No que? Isto. Maldito.
Nuvens fofas, arco-íris-es, o sorriso dela, patinhos e nuvens fofas. Estou triste. Estou alto. Estou altamente triste. Não tenho medo de altura. Tenho medo de largura. Han Solo atirou primeiro, mas não fez perguntas depois. O mundo quebrou. Não fui eu.
***********
Tinha me esquecido completamente desse texto. Se não me engano a Aretha postou esse no blog dela.
Free
Correr. Mas só longe o bastante para te fazer sentir minha falta. Uma passagem de primeira classe pra uma noite a sós. Seu nome nela. Sua pele é como um lar, doce lar. Sei sem precisar provar.
Não quero escrever sua história, me contento em ser uma página na qual você desenhe estrelas e corações e vire logo em seguida. E quando você revê-la, você se envergonhe e ria. E rasgue com a expressão corada de reprovação, aceitação calada de que um dia fez algo estúpido. O tempo passa e os sorrisos se fecham, as costas se viram e o mundo passa por cima de tudo que você achou que iria permanecer intacto.
Pode ser livre de mim, ou livre comigo.
Triangle
Sendo aquela a primeira experiência que ambos tiveram, o nervosismo e o sentimento de não-concordância era inevitável. Até mesmo seres sapientes provenientes da quarta lua de Júpiter tem calafrios quando enfrentam o desconhecido, numa escala menor talvez, talvez as borboletas no estômago se tornassem pouco mais do que traças. Andando pelo pasto de uma fazenda anônima no interior de um país anônimo, os dois seres vagamente antropomórficos anônimos não podiam evitar o desconcerto de serem inexperientes nesse tipo de situação.
- Não compreendo, esclareça-me se puder. Como alguém deixa as reservas de energia chegarem ao nível mínimo, mesmo nós tendo passado por cento e quatorze postos de abastecimento. - Começou o mais alto dos dois com uma voz calma que ressoava mais tempo do que o necessário no ar noturno. - Mesmo sendo constantemente inquirido sobre a necessidade de dito abastecimento por seu companheiro de viagem e passageiro. Cento e quatorze vezes exatamente. Pode me explicar? - Perguntou com a voz desconexa e sem emoção e uma abrupta mudança na direção do olhar.
- O fato de eu ter um medidor quebrado nunca me fez falta nenhuma. Minha nave pessoal não voa mais do que dois anos-luz longe da minha casa e nunca tive que me preocupar em recarregá-la mais do que uma vez a cada quatro meses. Fato esse que você tinha conhecimento. E mesmo assim você insistiu em me arrastar para essa jornada estúpida! Eu podia estar em casa agora! Assistindo Grey's Anatomy!
Os pés pisando a grama molhada faziam barulho em contraste com o silêncio da falta de conversação, uma quieta declaração de empate argumentativo. O crepitar das chamas não mais se fazia ouvir, mas as chamas que envolviam o veículo extraterreno meio quilômetro atrás ainda alaranjavam o céu e criavam uma torrente de fumaça ocre. Um comentário preparou-se para ser lançado, um chamado para a incrível semelhança entre a harmonia dos sons característicos da paisagem rural e a sexta sinfonia da filarmônica de Sirius III, quando um click que pareceu fora de propósito soou em algum lugar à esquerda, arruinando a composição lírica e também, mesmo que secundariamente, indicando uma arma engatilhada sendo apontada para a direção geral dos viajantes.
- Mãos ao alto seus pederastas! Ninguém invade minha propriedade pra ficar fornicando nos meu arbustos e sai inteiro pra contar a história pros seus amiguinhos serelepes. - Disse um fazendeiro sujo e mau encarado, com os pés descalços e calças que poderiam andar sozinhas até o armário caso o dono morresse. A barba grisalha e embaraçada escondendo o fato de que ele não tinha nenhum dente de sua arcada original.
- Eu acho que isso é algum tipo de ameaça à nossa integridade física. -Disse numa voz deslocada o mais baixo, completamente ignorando o homem. - Esse pedaço de madeira me aparece um aparato disparador de projéteis, o que vamos fazer?
- A maneira mais fácil é levantar os membros superiores em sinal de submissão e usar uma aproximação verbal. - Respondeu o outro enquanto lavantava as mãos lentamente. Foi rapidamente mimetizado pelo primeiro. -Por sorte eu estudei os costumes desse planetóide esquecido. Parece que a abordagem mais segura quando se é um ser extra-terrestre é justamente admitir o fato de ser um. Esses primatas são céticos e auto-centrados demais para admitir que hajam outras formas de vida. Senhor... - Dirigiu-se finalmente ao fazendeiro, que apertava um olho na mira da espingarda desconfiado. - ... nós somos só uma dupla de seres superdesenvolvidos que entraram acidentalmente na atmosfera terrestre através de um salto dimensional na região que vocês denominam como Quadrilátero das Bermudas.
- Triângulo. - Disse o homem sem nada particularmente digno de nota na voz.
- Sim, aceitamos. Dois torrões por favor. - Sorriu afetadamente o alien, satisfeito.
Right Word, Left Hand
As vezes as coisas não saem do jeito que deveriam sair. As vezes o que você acha certo é diferente do que é certo. As vezes você não é. Não sendo. Indo e pensando onde e o que não deveria. Querendo o que não ia querer se pudesse escolher. E você acha que perdeu uma oportunidade, mas na verdade nunca houve nenhuma. E você se contenta em amaldiçoar as circunstâncias e renegar coisas importantes. E desistir. Não, desisitir não é a palavara. Desistir é para quem tenta.
Intento. Um tento. Lamento por lamentar-me tão alto. É de minha natureza fazer barulho quando não devo e falar demais sobre assuntos que deveriam manter-se escondidos e assegredar-me de coisas que deveriam ser cuspidas antes que me matem. Falta de prioridade, oh sim, prioridade me falta. Existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia, e existem menos coisas que me fizeram sofrer o quanto sofri do que dedos em sua mão esquerda. Muito menos.
Cut
As flores cheiram ao cheiro do cabelo dela, e não o contrário. E todo o mundo parece que vai explodir, tem aquela aura de antecipação em todas as coisas. Como se tudo importasse e a economia funcionasse. Era uma vez e ela era minha. E duas vezes. E três. Uma deusa. E as cenas se repetem. Sorrisos preocupantemente despreocupados. E continuidade, e sentido, e narrativa e cronologia previsível.
- E...... Corta! - Ouve-se a voz esganiçada de um homem pequeno demais para ser tão importante.
E o mundo é cinza. E meu rosto dói de fingir sorrisos. As flores não cheiram à nada, são plástico. E ela é só uma garota comum. Ela não é minha nenhuma vez. E eu sou só um cara grande demais para ser tão desimportante.
Dark
Escrevi em celulose com meu lápis preferido o futuro que permeava o reino além do reino de meus sonhos. As palavras certas e contadas e, de todas as maneiras que eu conheço, perfeitas. Joguei tudo fora quando percebi que não existem palavras sinceras e que nenhuma era realmente real ao que diz respeito à realidade das coisas.
Escrevi um nome em meu coração, com uma agulha de ouro que piscou pra mim num bar. Sangrei horrores mas, por sorte, ela estava por perto e, depois de equivocadamente realizar a manobra Heimlich no meu já frágil abodômen, cuidou de mim até que cicatrizasse. Escrevi outro futuro depois disso, por insistência mesmo, apesar de saber que os lápis só servem para escrever passados dos quais nos arrependemos.
Escrevi uma realidade então, uma em que os lápis pudessem fazer o que eles bem entendessem. E dentro dela dizia: "E ele disse 'eu te amo' no lugar mais bonito do mundo e, mesmo ele não sendo digno de tal confiança, ela acreditou nele mesmo assim, rindo-se pois ele não usava calças. E ele disse. 'Gostaria de me seguir e esquecer de tudo e todos? Pois eles não importam e eu não ligo. Seguiria-me para um lugar onde o uso de calças não é imposto?'. E ela diria. 'Não há nada nesse mundo ou nos outros que eu queira mais.' E então eles dão-se as mãos e se lembram que sabem voar."
Tudo que se escreve não tem importância na noite mais escura. Lápis perdem-se. Papel rasga. Corações quebram. No fim, só o que fica marcado no cantinho mais escuro da alma permanece.
Mother
- Ei! Querem saber de uma coisa? - A pergunta quebra o silêncio no quarto bagunçado e mal arrumado onde três jovens tão bagunçados e mal arrumados quanto o ambiente em si. Latas de alumínio, embalagens plásticas e outros detritos comuns à adolescentes de classe média sob as ondas estéreo do rock industrial de má qualidade e o odor característico de bebida com venda proibida à menores. Assumindo que o silêncio significasse um "vá em frente campeão" ou um "surpreenda-me" o interlocutor continuou. - Eu tive a idéia mais estranha ontem... Achei até ridícula no começo, mas pensando bem, até que faz sentido.
Recebeu um grunhido como resposta, que veio de algum lugar atrás do sofá onde estava sentado e incrivelmente perto do chão, o que indicava a presença de um ser sentiente deitado no chão e depois de alguns segundos, talvez gastos em uma tentativa de avaliar a situação, o outro ser sentiente olhando bobamente pela janela disse, meio ao vento, meio ao léu, com uma voz sem nenhum entusiasmo.
- E que idéia genial seria essa, Einstein?
- Vê se faz algum sentido isso. - Entusiasmado e com olhos brilhando ajeitou-se no sofá. - Eu acho que todas as mães do universo são suscetíveis às leis de Asimov. - Disse com um tom de gravidade como se tivesse acabado de revelar o mais obscuro dos segredos. Tendo em vista que não surtiu o efeito desejado e ninguém havia ficado muito impressionado, decidiu explicar a última sentença. - Asimov. Leis. As três leis da robótica.
- Ah sim! Essas... Certo, prossiga. - Virou-se na janela a fim de encarar o discursante com um interesse crescente. O sujeito no sofá notando isso entrou naquele transe onde os indivíduos falam mais rápido do que você acha possível mas não exatamente te olham nos olhos por que estão muito ocupados falando mais rápido do que você achava possível.
- É tão simples! Tão óbvio que chega a doer! A primeira regra é: "Nenhum robô deve executar qualquer atividade que possa oferecer risco de vida à qualquer humano". Você já viu uma mãe oferecer deliberadamente risco à integridade física de alguém? - Sem esperar resposta ele continuou no mesmo ritmo. - Não! Quer dizer, às vezes mas não aos filhos, o que prova meu ponto. Quando elas oferecem risco à outrras pessoas elas estão sob as leis comuns, só são mães em relação aos filhos então... estou certo.
A segunda lei diz: "Robôs devem executar todas as ordens vindas de um humano, desde que tais ordens não desobedeçam a primeira lei". As mães tem o histórico de ceder às vontades dos filhos sem muito esforço. O que me deixou inclinado a achar que talvez não seja coincidência. E a terceira lei diz: "Um robô deve preservar sua integridade física a não ser que isso o faça desobedecer as duas primeiras leis". Isso talvez explique os sacrifícios que as vezes acontecem. Pensa bem! Todos os comportamentos inexplicáveis do instinto materno podem ser explicados atráves da aceitação dessas leis como regentes dos seres nesse estado. - Explicou tudo muito rápido e teve que recuperar o fôlego logo em seguida. Passaram-se só alguns segundos até que o silêncio fosse quebrado pelo cara na janela. Sentou-se ao lado dele e disse:
- Mas como você explicaria as famosas palmadas? - Perguntou, achando que talvez tivesse achado um furo no argumento.
- A lei número zero, que precede todas as outras. Diz assim: "A integridade de um ser humano pode ser colocada em risco caso a integridade da humanidade esteja em risco". Com uma livre interpretação desse artigo, nós temos o conceito de mal necessário. A dor infligida tem como função corrigir comportamentos perigosos e/ou não dignos de apoio, logo, o desencorajar esses comportamentos classifica-se como uma proteção do indivíduo de um risco maior. - Sentiu-se vitorioso, mas por pouco tempo.
- E os casos onde as mães abandonam toda e qualquer estrutura familiar? Casos de infanticídio e coisas assim. Como você explica isso? - Levantou a voz mais do que o necessário.
- Falha técnica! Os níveis estatísticos de caos desse tipo são basicamente os mesmos da chance de um cérebro positrônico desenvolver defeitos de meta-cognição. Na base de 1 para 1 milhão e quinhentos. Meu argumento não tem falhas! - Acusações foram feitas e alguns decíbeis foram superados rapidamente. Mais ou menos como em um debate político, os argumentos se foram e os comentários maldosos sobre as mães começaram a aparecer. A voz detrás do sofá fez se ouvir por sobre a balbúrdia.
- Ei! STR-50042?!
- Eu. - Disse quem começou isso tudo.
- Cala a porra da boca.
Love?! Don't Talk Me About Love...
Fez sexo sem amor com a máquina de refrigerantes que, como qualquer outra amante, negou-lhe o prazer originalmente intendido. Sorveu o líquido avidamente, uma vã tentativa de forçar garganta a baixo o que parecia ser um coração pulsante em plena fuga rumo à um peito mais feliz, mas na verdade era só a bile lentamente afogando-o dentro de si mesmo.
Pulou cega e prontamente todas as músicas românticas da playlist que o ensurdecia, o que causou um movimento quase robótico e a repetição das mesmas cinco músicas sobre perda com arranjos modernosos durante o dia inteiro. O calor humano e o inumano o faziam suar e transformava seus pensamentos em bolas fumegantes de ira e auto-reprovação. Deveria ter percebido que as pupilas dela não dilatavam-se quando o via. Que a linguagem corporal era dúbia. E que o perfil psicológico a impedia de fazer as coisas que para ele eram normais. E que estava tentando explicar o inexplicável. Ela o queria mas o falso pudor gritava mais alto. O amasse talvez, mas temia consequências fantasma.
- O amor... - Disse ele mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa em especial. - ... é como ver uma supernova de perto. Vem quando menos se espera com uma explosão e te envolve com todas as cores desse e de outros universos e faz você se sentir parte de algo imensamente maior do que você pode conceber. E quando vai embora, te deixa incapaz de sentir qualquer outra coisa. Cego e inválido. Como a dormência e insensibilidade de um tetraplégico.
- Próxima estação... Paraíso. - Disse a voz metálica nos falantes do coletivo sacolejante sobre os trilhos subterrâneos e claustrofóbicos enquanto ele se ria sozinho. "Bem vindo ao inferno" pensou amargo e indiferente.
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PS:. Eu sei que eu não postei o tema anterior, esse era mais urgente. ;D
Improv Anywhere
- O que você pensa que está fazendo? - Perguntou meu eu depois que eu, o verdadeiro eu, comecei a fazer as coisas de uma maneira diferente do que o normal.
- Improvisando. - Respondi secamente enquanto me equilibrava num pé só em cima da lata de refrigerante em cima do armário da cozinha que agora jazia no chão perto da porta.
- Por que motivo? - Indagou ele (eu), por que eu (ele) sempre fui bom em indagar as coisas.
- Ela mandou. - E eu achei que isso explicava tudo. Mas não explicava. Mas eu achava mesmo assim. Mas não explicava não. Não, mesmo.
- Você tá fazendo errado. - Disse ele, claramente atento ao fato de que não explicava nada. Digo, a minha explicação.
- Vai me ensinar a improvisar agora é? Se você não sabe, eu improviso desde que tinha só um dente e agia como se tivesse dois. - Perguntei num tom que eu achava extremamente ácido, mas dificilmente era. Provavelmente era só cítrico. Como soda limonada.
- Improvisar significa justamente fazer algo sem ser mandado ou alguém esperar que o faça. Você está, oficilamente... - ênfase no "oficialmente" como se ele fosse algum tipo de autoridade - ...improvisando errado.
Talvez ele (eu) realmente seja uma autoridade e eu (não ele) não soubesse. Me senti estúpido e parei de improvisar. Odeio quando eu (ele) sai vitorioso. Ele (eu) me conhece à bastante tempo, acho que não é difícil de ver que eu estou perdidamente apaixonado.
Puzzle
- Realmente não te entendo. De verdade. - Ela disse rindo. Ele pensou em todas as vezes em que pensou em todas as vezes nas quais ele não soube o que fazer, como agir e reagir em relação à ela... à eles.
- Você é tão espontâneo e... - Ela procurou a palavra certa com um esforço aparente. - imprevísivel de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Você fica tendo as idéias mais esquisitas. - Disse olhando para longe, sem focar em nada específico, com um ar de quem está satisfeita com o que acabou de dizer e ele pensa em todos os maneirismos e comportamentos passíveis de múltiplas interpretações que ela demonstrava e em todas as conclusões precipitadas e, em sua maioria, erradas que eles o levaram a tomar.
- Eu nunca sei o que vai sair da sua boca e, em metade do tempo, eu nem consigo acompanhar seu raciocínio nem imaginar o por quê de você ter falado aquilo. E eu acho que te amo mesmo assim. Você é o meu quebra-cabeça preferido. - Ela terminou de falar e olhou nos olhos dele como quem espera um resposta. E ele pensou em como nunca soube se era ou não verdade cada coisa que ouvia ou se as certezas eram só peças pregadas em si mesmo pelo senso de romantismo irrequieto e mimado que o tomava toda vez que ouvia a voz doce dela. Ela o confundia. Sempre fora péssimo em enigmas e certamente odiava quebra-cabeças.
See
O peso que desaparece das minhas costas quando eu tiro a capa de viagem encharcada dos meus ombros e jogo sobre o balcão da taverna mal cuidada nessa cidade esquecida por deus, ou qualquer coisa equivalente, é um alívio e respiro com mais facilidade logo depois. Tem sido tempos difíceis, a má sorte me acompanha. O destino pode ser muito cruel com os errantes como eu. Os guardas reais da última cidade me levaram o único espólio decente que consegui arrecadar em mais de seis anos e no caminho para cá fui atacado por bandidos. Levaram meus apetrechos de performance e o meu violino também. Além de me deixar com uma costela doendo e um nariz sangrando. Como se não fosse o bastante, chove constantemente desde aquele dia e eu tive que fazer os últimos dois dias de viagem com as mesmas roupas molhadas. Atualmente um bagre tem como morada minha bota esquerda. Tenho dó do Sorento. Esse é o nome do meu violino, Sorento. Nessa umidade, sem os devidos cuidados a madeira apodrece. Meu parceiro de viagem na mão de ladrões truculentos, que desgosto.
Não sei nem por que cheguei até aqui. Minha intenção era vir até essa cidade e pegar uma balsa até a capital além-mar, com o intuito de fazer fortuna com a minha música, mas agora sem Sorento não faz sentido. Que se dane. Me sento em um dos bancos e paro de amaldiçoar minha sorte e começo a amaldiçoar minha pobreza enquanto procuro os trocados em meus pertences. O teto do bar é baixo e o balcão de sólido carvalho, uma monocromia irritante se me perguntassem. O cheiro forte de arenque defumado que emana, bem, do arenque defumado pendurado nas vigas do teto enche minhas narinas e me dá náuseas. O que se há de esperar de um lugarejo perto do mar além de pescadores sujos e fedorentos que penduram arenques no teto de seus locais de trabalho? A luz alaranjada das velas dá ao lugar todo um ar ébrio e lúgubre e deixa a noite mais escura por comparação. O som das gotas de chuva na janela é tão alto que nem mesmo eu posso ouvir o meu pedido, então mudo para um lugar mais distante e repito um pouco mais alto do que o necessário o apelo por algo para acalmar a sede. Minha garganta arenosa é prioridade e eu não ligo para a sujeira no copo quando sou atendido pelo sujeito com cara de javali do outro lado do balcão.
Olho sem realmente prestar atenção para a garçonetezinha pequena das tranças muito louras e sem querer procuro por semelhanças entre ela e o taverneiro. Não encontrando nenhuma característica particularmente suína na moça deduzo que ela deve ser a esposa dele e não sua filha, o que me faz compadecer-me profundamente da pobre. Escreveria uma música se pudesse, mas não tenho nem o arco, nem as cordas de Sorento à mão. Seria uma balada de tristeza, de maldição ao fado e ao fardo que a donzela carrega. Meus devaneios são interrompidos quando dois camaradas entram pela porta, fazendo soar o sininho acima do batente, molhados como se tivessem acabado de emergir do mar feito oferendas rejeitadas. Riem feito doidos, parece que não se veêm há tempos.
- São todos uns maricas! Ouça o que eu te digo Hans. Esses acadêmicos tentando explicar tudo com aqueles instrumentos todos. Pensam que a gente é burro. Eu só acredito no que eu vejo, e é assim que tem que ser. Foi assim que meu pai viveu e assim eu vou viver! - Disse o mais desarrumado e rude dos dois enquanto guiava o outro aos bancos próximos da porta.
- Não é bem assim Noah, é uma questão de pensamento analítico e raciocínio lógico. Estudei muito nos últimos cinco anos e posso lhe garanti... - Começou o outro, que era claramente mais civilizado do que seu companheiro, mas foi interrompido.
- Eu não procuro te desrespeitar de qualquer maneira, pois tenho você como irmão e entendo seu desejo de sair dessa cidade. Galgar uma vida melhor que a de pescador não é algo para se envergonhar. Mas eu sei de muita coisa que você nunca poderia imaginar, e coisas que essa sua ciência não explicaria nem em um milhão de anos. - Se endireitou e tomou um ar de quem sabe o que fala e tomou um gole da bebida recém servida pelo taverneiro que agora escutava atenciosamente a conversa. - Lembra-se do velho cego que mendigava aqui em frente? O velho Jonah?
- Me recordo sim. Ele esteve por aqui desde que eu me lembro, acho que desde sempre. As crianças costumavam jogar pedrinhas em sua caneca de esmolas só para ouvir ele agradecer daquele jeito dele.
- Você se lembra Wilbur? - O tal de Noah se dirige ao taverneiro que se assusta pelo ríspido convite a adentrar à conversa.
- Nem me fale naquele bêbado. O pobre diabo vinha gastar as malditas pedras aqui. Me dava prejuízo, não conseguiar negar-lhe o alcoól. Aqueles olhos vazios me assustavam. Faz um bom tempo que não o vejo.
- Pois bem. - Continuou Noah. - Ele mesmo. Eu vi com esses dois olhos algo inexplicável envolvendo aquele velho. Faz uns dois anos. Estava um calor do inferno e a pesca não estava rendendo muito então fiquei por terra com o intuito de consertar minhas redes. Então esse sujeito apareceu, vindo da estrada norte. Aquela poeirenta e que não vai dar em lugar nenhum. Chegou sem montaria e sem um grão de poeira no corpo. Usava um manto pesado negro como a noite mesmo com o sol à pino, botas de montar laqueadas com arreios que brilhavam feito estrelas e aquelas calças apertadas de pederasta engomadinho. Parecia um nobre, era pálido igual leite azedo igual a todos os outros nobres que eu já vi, mas tinha os cabelos bagunçados como os de um bêbado. Como se tivesse acabado de acordar. O maldito andava como se não visse nada ao redor, assim com a cabeça erguida. Como se flutuasse inafetado por nada simplesmente por que tivesse nojo do chão.
Ele cuspiu no chão como se também sentisse nojo, não sei exatamente do que, e isso me incomodou bastante. Terminei a minha bebida e pediria outra mas sei que seria atendido de uma maneira menos que agradável por ter interrompido a maldita história. Essa caipirice de ouvir contos de qualquer um que apareça. E justo eu, um artista, um homem do mundo, preso aqui ouvindo essa história fajuta. E o pior, sorvendo cada palavra como se fosse a última que fosse ouvir em vida. Não é minha culpa, o personagem tem um carisma. Tanto que todos os ocupantes prestavam atenção, de maneira esquiva talvez, mas não menos digna de nota. Queria que eu e Sorento conseguíssemos tal platéia por ventura.
- O sujeito andaria por cima das casas se pudesse, tal era sua obstinação em chegar ao porto. Senti enquanto andava atrás dele meio que hipnotizado a impaciência que o tomava. As ruas eram irritantes, tornavam o caminho maior, desviavam-no do que ele queria. Temi sem saber por que. Então quando passava nesta rua! - Apontou para fora com um entusiasmo desnecessário. - Não sei como o velho Jonah o percebeu, seus passos não faziam barulho, mas mesmo assim ele sentiu sua presença. Então o velho disse: "Uma esmola para um homem que ficou cego de raiva, senhor".
- Cego de raiva? Ele não era cego de nascença? - Interrompeu Wilbur o abestalhado taverneiro.
- Não interessa! Foi isso que ele disse. - Repreendeu-o impaciente o narrador inculto. - O sujeito estranho parou ao lado do velho Jonah e olhou para baixo. Foi tão inesperado que eu me desiquilibrei e caí quando percebi. Como não obteve resposta ele insistiu balançando a caneca: "Compadeça-se de minh'alma senhor. Já não posso ver." Foi então que o sujeito esquisito disse, com uma voz fria como o inverno e alta como um trovão. - Foi aumentando o tom de voz e então com todos os trejeitos descritos do sujeito ele o imitou. - "Pois então veja!" - Uma pausa dramática onde a moça loira soltou uma exclamação de surpresa. - Ele encostou os dedos nos olhos do velho Jonah e, eu juro pela tumba de minha querida mãe que é verdade cada palavra que eu digo, o velho piscou duas vezes e seus olhos já eram pretos e brilhosos como os de um garotinho, ele olhou mesmerizado em volta e correu feliz uns dois ou três minutos falando coisas sem sentido. Depois passou a agradecer repetidamente e mais de uma vez tentou beijar as botas do sujeito mas sempre era repelido por ele. Se contentou em rastejar atrás dele beijando o chão em que ele havia pisado.
O pescador terminou a bebida e continuou enquanto uma expressão estupefata brincava nos rostos dos seus ouvintes.
- O sujeito então andou em silêncio até a avenida que é usada para levar os barcos até a praia no verão e de lá direto para as docas com o velho atrás dele. Espiei da esquina do açougue do Steinberg enquanto ele andava por sobre o píer e quando ele chegou ao fim dele, que o Nosso Senhor me salve mas ele simplemsnte desceu como se fosse um degrau e continou andando normalmente por sobre as ondas! O pobre Jonah pulou atrás dele mas tenho para mim que morreu afogado pois não mais o vi. O sujeito andou direto para o poente até que eu não pude mais vê-lo.
- O que você acha que aconteceu lá? - Disse Wilbur, depois de um silêncio contemplativo que havia contagiado a taverna inteira, enquanto entregava outra bebida, cortesia da casa, ao pescador. Curiosidade explícita em seu tom de voz.
- Eu acho que... Deus que me perdoe, mas eu acho que era o diabo em pessoa. Um teste para a minha fé. O pobre homem foi seduzido e acabou morrendo. - Tomou um longo gole, claramente satisfeito. - E você, o que acha Hans? Tem como me explicar isso? - Se dirigiu ao companheiro que abria e fechava a boca como um peixe sem saber o que dizer.
- Bem... Você disse que estava calor. Talvez o sol tenha derretido os seus miolos Noah. Os seus e o do velho Jonah. Me aprece a única explicação plausível.
- Pois eu acho que é tudo uma lorota mal contada. - Disse um dos homens sentado numa mesa no fundo do bar antes que o pescador tivesse a chance de responder a hipótese. - Acho que é tudo invenção desse aí.
- Insinua que eu sou um mentiroso seu excomungado! - Irritou-se o pescador derrubando o banco e marchando até a mesa. - Anda! Levanta! Vamos resolver isso!
- Bateria num aleijado? - Riu o sujeito sentado.
- É o Skip, ignore ele, ele é meio rabugento por que não consegue andar desde que caiu da escada da pensão. - Explicou Wilbur sem realmente ver o que estava acontecendo.
- Pois alguém deveria ensinar à esse inválido alguns mo... - Não terminou. A porta escancarou-se como se tivesse sido chutada por algo maior que um cavalo de carroça e uma silhueta se via recortada no batente. O sino tocou, mas eu não ouvi. E um sujeito, alto e magro entrou no salão.
Tinha o manto negro como a noite e seus pés não tocavam o chão. As sombras lhe cobriam o rosto mas os olhos brilhavam como dois rubis. Mesmo sem vento a capa tremulava e emoldurava as botas laqueadas de maneira harmoniosa. Os cabelos emaranhados não ficavam quietos, mudando de posição constantemente. Por um segundo todos ficaram parados, no outro todos correram para dentro da noite gritando, menos eu e, bem, o aleijado. O esquisitão então virou-se para Skip e disse:
- Por que não correu?
- Por que não posso. - Disse Skip com a ironia ressentida de quem não pode andar.
- Então corra. - Estalou os dedos e o som ecoou nos meus ouvidos por mais tempo do que eu achava possível. Skip levantou-se e andou resmungando até a porta como se não tivesse ficado impressionado. Ele então virou-se para mim e eu senti minha alma congelar. Lutei com o medo a fim de responder seu olhar. Não consegui então me curvei com uma reverência e disse:
- O senhor por um acaso não teria por aí um violino teria? Sou um violinista que não pode tocar.
Blink
Ela devia ser feliz antes de você. Ela provavelmente era. Você só está afastando-a dessa felicidade. E você nem sabe. A voz que canta "sinto sua falta" te chama ao telefone mas você não atende. Tem medo de que ela te diga todas as coisas que você não queria ter dito a si mesmo nos últimos dias. Ela é feliz sem você, e você nem sabe. Será que é tarde demais para lembrá-lo do que você é? Antes que as coisas se repitam e as lamúrias brinquem em seus lábios sem sair até te deixar louco. Então tudo que você tem te lembrará de alguma forma dela. Por um instante tudo deixou de ser verdade e a realização do fato te acertou feito um chute nos dentes.
Agorafobia. Um lobo atrás da porta e um dragão em cada canto escuro. Esperando. Esperando sua espera chegar ao fim. Cafeínado até o cerebelo, vigília constante. Se você fechar os olhos tudo o que não foi seu vai sumir. Talvez o mundo inteiro. Ela te faria feliz, mais do que qualquer outra coisa. E ela estaria infeliz e você nem saberia. Você não sabe de nada. Seria capaz de esquecê-la num piscar de olhos? Esqueça e ela será feliz. Pisque por ela.
O sol bate no seu rosto do jeito certo, que te faz apertar os olhos por detrás desses seus óculos e você parece despreocupado. Quase acredita. O sorriso falso e é o cara mais feliz deste lado de Alpha Centauri. O calor infernal e as caras e bocas das expressões ensaiadas se completam. Ouça a voz da sua consciência. Feche os olhos por um momento que seja. Deixe-se piscar.
Steal These Stolen Words
Como violões falam amargamente bordões, visões sexuais. O anjo existe, acho graça. O inferno está cheio de lágrimas e sentimentos. Recôndito de perpétuos turbilhões, espectros e aspérrimas sombras mortas. Eternamente ébrios e enxovalhados vagabundos. Humanos por definição, fantasmas histéricos por lembrança minha. Saudade das pálidas ninféias, ou talvez da palidez ninféiaca da saudade dela. A castidade obscura de um lobo atrás da porta. Quem está aí? Além dos vagos aromas que me deixam de lado em busca de outros mundos. Mantenha o mundo perto do que te interessa e longe dos vícios e derradeiras ânsias.
Andando pela enorme rachadura que se fez em meu futuro, algo como o enterro de um sonho vivo. Ou talvez mais um acidente de carro. O sol não é o sol. Uma manhã sem os raios da estrela é só mais uma noite vazia. Saber que procura algo não te faz especialmente inclinado a achá-la. Sempre estão no último lugar em que se procura. As coisas que se perdem, obviamente, não os amores perdidos. Esses estão sempre no primeiro lugar em que se pensa não estar. Completamente diferente. Último natal ganhei o monótono ritmo de pensar que me afastou das coisas que eu queria fazer. Neste quero um coração, ouvi dizer que estão em falta.
Work No Longer In Progress
Ele escrevia pois se não o fizesse esqueceria. Se os pensamentos ficassem muito tempo na sua cabeça eles seriam certamente desviados de seus sentidos originais, tornando-se apenas devaneios, inferências e fantasias e não mais interpretações puras de sua visão de mundo. O pensamento cru expresso de forma aleatória e impensada é o único meio seguro de se trasmitir a insegurança e incerteza enraízadas em qualquer raciocínio. Regra não escrita de como escrever.
Ele escrevia sobre um cara que escrevia sobre ele mesmo em terceira pessoa. Abusava do pretérito imperfeito e das interrogações. Os vícios de linguagem e trejeitos mais do que suficientes para desqualificá-lo da disputa pela próxima cadeira na Academia Brasileira de Letras. O que era um nome idiota, alguém aí já viu um "B" bombadinho? Escrever por escrever. Escrever para que ela lesse. Essa era sua história. Acontecia um momento de cada vez. Se desperdiçava um segundo de cada vez. E quando ele não mais estivesse por aqui, a certeza de que essas palavras seriam tudo o que conteriam sua alma o mantinha são. Elas estariam ali, talvez provocando o choro de saudade de alguém que o amava, talvez acalmando a dor provocada por sua ausência. Deixando bem claro que era amor, desde a primeira vez que a olhou nos olhos pensando se era amor ou não. E que todas as vezes em que ele tomou a resposta como duvidosa, um beijo era mais do que necessário para mandá-lo de volta ao caminho certo e convencê-lo de que era um bobo.
Bad Move...
Estava correndo o mais rápido possível. Em sua perspectiva auto-centrada até mesmo mais rápido que a luz. Coma poeira leis da física e senso comum! O mundo moderno está cheio de perdedores. Ele estava decidido a não ser um deles. Sem nenhum motivo aparente, só decidira que não seria. Estava entediado, não podia criar boas justificativas entediado. Quando percebeu que correr não adiantava, que não podia fugir da máxima da existência, já era tarde. Resfolegava feito um cão com lentes de contato. Lentes de contato com pequenos gatos desenhados.
O seu nome tinha o mesmo som do fracasso. Não do jeito certo da frase, mas você entendeu. Era um desperdício de tantas maneiras diferentes que nem ele sabia contar tão alto. Mas não eram todos perdedores? Sem exceção. Num mundo com sete bilhões de pontos de vista, cada qual com a seu próprio critério para a definição de perdedor, a sobreposição é completa. Todo mundo. Perdedores. Não é de se estranhar que as pessoas fiquem deprimidas. Ele já havia se acostumado. Acostumar-se com qualquer coisa em doze segundos é uma das características genéticas que ele adoraria poder passar para sua prole ainda por vir. Se houvesse prole.
O universo, decidiu ele, era uma péssima idéia pra começo de conversa. O conceito não estava certo. O universo tinha que ser à prova de idiotas. O problema com as coisas à prova de idiotas é que elas normalmente subestimam o nível de idioticidade dos idiotas. Então o universo acabou só sendo à prova de pessoas muito burras. O que definitivamente não era a mesma coisa. Pessoas muito burras não usam o vaso da maneira certa, os idiotas colocam a cabeça nele.
O relógio bateu um milhão para a meia noite. A hora onde nem todos os gatos são pardos (nem gatos, mas sim guaxinins) e o céu tem três cores diferentes com o mesmo nome. Hora onde todos os sonhadores sonham a mesma coisa e nenhum deles entende nada. A hora da eterna ausência. E se perguntassem à ele, ele lhes diria que era a melhor do dia. Claro, se ele existisse.
Como é aquela palavra...
Escreveu uma carta para ela mas jogou fora. Não existiam mais palavras por serem ditas. Sem mais mensagens dignas de serem transmitidas, pelo menos por vias comuns e sem graça tais como palavras vãs e sem sentido. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. Amo. As palavras repetidas várias vezes perdem o sentido. Ou talvez elas nunca tenham sentido e a gente só acha que elas têm. De qualquer forma elas não mais serviriam. Servem somente de muletas para um ego cansado demais para apoiar-se nas próprias pernas.
Só queria que ela o curasse. Que lhe fosse um porto seguro em meio à tempestade que não parece ter mais fim. Um felizes para sempre depois da escuridão da incerteza, quando os vilões sem rosto nem coração são derrotados e esquecidos. Mas não haviam vilões. Nem tempestades. As feridas sim haviam, e muitas. O destino, disse ele, é uma vadia sem coração que adora jogar sal nas feridas alheias. Esse é seu único prazer. E era mesmo.
- Como é mesmo aquela palavra? Aquela palavra que se usa para descrever o exato momento onde você percebe que não existe mais você, não como uma entidade separada, mas só como parte integrante de uma coisa maior formada por você e quem você ama?
- Não existe essa palavra.
- Pois deveria existir.
I Really Want You
Não quero um salário maior. Não quero um Nintendo. Não quero Nikes novos. Não quero uma sósia da Angelina Jolie. Não quero a Angelina Jolie em pessoa. Não quero a ruiva dos olhos puxados, nem o amorzinho besta de infância. Não quero a namorada pré-adolescente nem a loira pequena. Não quero ir para o céu. Não quero $100 mil em barras de ouro (que valem mais do que dinheiro).
Quero ela. E só ela. Quero um beijo dela, para selar meus lábios e me impedir de falar alguma besteira. Quero que ela me esquente quando o tempo estiver frio e eu esquecer o moletom, por que eu sou estúpido assim. Quero ficar com ela para sempre, e fazer milhões de bebês com o meu nariz e os olhos dela. Quero andar por aí com uma estrela no dedo e duas nos olhos, por que eu a amo. É só o que eu quero. É pedir demais?
Absent Sentient Persona
- Aceitaria um lembrete constante de que ela não te pertence?
-Não obrigado, vou prosseguir para a simulação do abuso de opióides regulamentados por lei através de sons binaurais no meu canal auditivo. Talvez seja só uma coisa de macho alfa. Maldito orgulho. Fuja de si mesmo, não existe incerteza com o vicodin deixando sua mente nublada, extirpando sua capacidade de julgamento, limitando sua percepção. O mundo indolor ao alcance de um botão. Play.
-Homens não fogem.
-Sou um garoto. Um garoto bobo. Um garoto bobo e viciado. Dos que fogem antes de perder.
-Bem, acho que a coragem é inerente ao ser. Em qualquer nível. Demonstre alguma.
-Não serei então. Meramente existirei. E engana-se quando taxa-me como covarde. Não é covardice. Apenas poupo dos possíveis arranhões o brilhante mundo ilusório que criei às duras penas. Já não vivo sem ele. Contento-me com sonhos esparsos e interpretações dúbias. Faça de conta. Faça você mesmo. Faça a diferença. Faça alguma coisa. Qualquer coisa.
Halo-What?!
Ela é, no fim das contas, só uma garota. Uma garota boba. Como todas as outras garotas bobas da face da terra. Ele é um bobo. Não é mais um garoto, mas bobo do mesmo jeito. Ela não tem noção do efeito de suas ações nas pessoas à sua volta. Não vê que as interpretações podem ser muitas. Que as coisas devem ser claras, deixar dúvidas não é saudável. Ele simplesmente chegou ao ponto onde a destruição das ilusões que criou seria um alívio. Se todos os seus sonhos fossem esmagados agora mesmo por um pé gigante ele estaria feliz. Seria uma definição. Ele é bobo porque se apaixonou. Ela por deixar ele apaixonar-se.
A halogeneidade do caminho o incomoda. O brilho hepático das lâmpadas de iluminação pública deixa tudo muito deprimente. Num mundo ideal, a luz seria a luz e não essa coisa que não é nem uma coisa nem outra. Ora, não existem mundos ideais. Num mundo ideal, ele não criaria mundos ideais. Por que tudo seria ideal. Idéia de jerico essa. Tentar conter a imaginação é como segurar um sabonete, quando menos se espera ela voa fora de controle. Bobo. Metáfora boba para explicar algo ininteligível. Milhões de passos distante, algo ininteligível usou uma metáfora boba para explicá-lo. Sentiu a orelha arder e disfarçou fingindo tropeçar. Ótimo, ninguém percebeu.
Drip. Uma gota mancha o concreto num passo futuro. Drip. Mais uma. O gotejar constante tem um ritmo sem explicação. Drip. Drip. Drip. A garota dos sonhos bobos chora quando ele sonha em abandonar tudo. Mais um mundo ideal que passa voando por seus pensamentos, só um lampejo de idéia. Não fantasie o que não pode cumprir. Seria bobo. Não diga bobagens, seu bobo. Se as palavras são tudo o que ele tem a oferecer, o que ele expressa por elas?
Num mundo ideal, ele sabia. Num mundo ideal, para ela palavras bastavam.
Mistakes of a Rechargeable Brain
O silêncio lhe arranha os ouvidos. A falta do barulho o deixa inquieto. Presta-se muito mais atenção aos barulhos quando não se tem barulho nenhum. Estranho. O som dos pés arrastando pela calçada não fazem-se ouvir e os batimentos de seu coração são somente sussurros comparados ao zumbido dos pensamentos passeando feito mosquitos dentro de sua cabeça. As coisas são o que são, ou são o que parecem? O que quer que seja, não são como deveriam ser. Num mundo ideal, ele não existia. Num mundo ideal, nada além dela existia. Num mundo ideal, ele tinha baterias no pequeno dispositivo sonoro que o impedia de ter esse tipo de pensamento.
-Você não pode amá-la mais do que já ama. Já não é suficiente? - Disse a luz à sua volta.
-O suficiente para toda a eternidade e um dia. - Ele responde devaneando.
-Tem razão. Não é o suficiente. - A luz acrescenta o sub-entendido depois de um segundo, com um tom monótono que só a luz pode ter. Como se luzes fossem capazes de emitir som. Num mundo ideal podem. E num mundo ideal, seria o suficiente.
Quando ele põe as mãos nos bolsos, sua sombra prega-lhe peças, hora retratando-o como uma figura antropomórfica, hora como um borrão indefinido no concreto. Díficil definir uma sombra. Não há profundidade. Não pode-se saber claramente o que acontece quando o sol some. As coisas devem ser feitas às claras. Porque no silêncio, ele não tinha a coragem de adivinhar o que os outros pensam.
Empty Walls, Empty Veins
Paredes que recitam e copos que bebem à si mesmos. Uma casa como outra qualquer. Pois o que não o mata, só te deixa mais estranho. E o que te deixa mais estranho é o que te define. Seja o que for, não seja uma parede. Porquinhos da Índia são bonitinhos mas não são porcos e nem da índia. Só porque eles não tem paredes, só gaiolas por onde o mundo entra e não sai, eles são o que quisemos definir na situação. Nunca esteja à mercê de reles enganadores, diz a alvenaria. O rapaz não lhe dá a devida atenção, uma nota de sanidade turva-lhe a face.
Declama aos três ventos e uma leve brisa que vinha do mar, quinhentas milhas ao leste do que deveria ser a direita do último pensameto puro que tivera, um poema incompleto sobre a unidade das coisas. Fagueiro como há muito não o era. Melancólico como há muito se acostumara a ser. Uma promessa de neon a pintar-lhe os lábios e o brilho nos olhos mais falso que se pudera criar na face deste universo. A doce melodia das palavras não ditas, ou das ditas em hora malograda, a verter de todas as torneiras fechadas e as fotos que nunca foram tiradas penduradas nas paredes do seu subconsciente dividem sua atenção entre o que é e o que fora seu. O riso lhe escapa para nunca mais voltar. Volta arrependido por que não era o mais livre dos risos, melhor riso contido em cara familiar do que gargalhada tresloucada no rosto de ninguém.
Fosse ele mais curioso e um tanto mais atento perceberia que ferira a mais superficial das camadas da realidade. Culpa de uma topada que ocorrera da última vez que fora acalmar a sede no meio da noite.Talvez a noite esteja no meio do dia sem querer. Excusa-se por um momento e o dia toma-lhe o lugar que era seu por direito. Volta a interromper na claridade somente para provocar-lhe a ira flamejante. E é assim que as vezes o sol fica mau e todo mundo acaba queimado de bobeira. O ardor privando-lhes dos abraços e afagos que suas almas anseiam por conseguir. Se a realidade estivesse ferida, seria um problema maior, mas sendo a injúria mais emocional não teria remédio. Contemplaria a vida de uma perspectiva magoada e distorcida, simplesmente porque um dia a realidade comportou-se como uma garota.
Dead Kings, Dead Choices
As possibilidades que se desdobravam o forçariam a tomar uma decisão em breve. Definitivamente tinha que pensar no seu próprio futuro, mas por outro lado, não queria fazer parte de um futuro no qual ela não estivesse incluída. E ele sabia que não devia deixar uma mulher que ele não tinha influenciar sua cabeça, pôs-se então a escorraçar todo e qualquer pensamento que fosse remotamente ligado à ela. Acabou sem ter o que pensar.
Não queria decidir nada. Tinha decidido isso e isso lhe bastava. Alguns diziam que ele tinha talento, um jeito de dobrar as palavras. Era mentira, um exagero. Mas ela gostava do que ele escrevia, deliberou consigo mesmo por um momento. Decidiu que podia ser verdade no fim das contas.
Decidiu decidir. Decidiu que nada que ele jamais pudesse escrever, nem eu um mihão de anos, chegariam aos pés das palavras por ela ditas. Decidiu que nada que ele jamais pudesse desenhar ou descrever chegariam aos pés da beleza natural dela. Decidiu que não deixaria um centímetro da pele dela por beijar se a tivesse nos braços. E decidiu que deveria parar de sonhar, já não tinha mais idade para isso.
-"Não tinhas morrido, excomungado? Que fazes aqui que não estás queimando no inferno?"
-"E deixar você estragar tudo? Não seria tão imbecil. Por aquelas bandas não me querem, e eu não quero aquelas bandas por morada."
-"És um masoquista que aspira realeza, isso sim. Um néscio que mais serve de besta de carga do que de sumo regente."
-"A dor não me incomoda, tornou-se companheira querida. Zombes o quanto queira, desejarei para que obtenha o logro em tudo que faças e que o mundo ria junto de ti. Alerto-lhe porém, que ainda que já não possa mais ver nada além daqueles olhos e talvez até esteja fora de meu juízo perfeito, mas ainda assim sou teu rei enquanto ela for minha rainha."
Invincible
Ele nunca disse que era invencível. Invulnerável. Na verdade, sim, tinha dito, mas nunca tinha acreditado. Nunca tinha levado isso em consideração, nunca havia sido o imortal que deveria ter sido. Ele só espalhou isso aos quatro ventos e torceu por estar certo o tempo todo.
Nunca fora frio e inconcebivelmente inalcançável. Nunca fora distante e reservado. As coisas doíam mais do que ele deixava transparecer, sentia cada uma delas fazer seu estrago. Ele não era nem um pouco invencível. Ninguém é invencível. Nem mesmo quando se está apaixonado e sente-se invencível, com o mundo nas mãos. Isso é ilusão. Tanto não era invencível que estava morto agora mesmo.
Bang! Morto. Bang! Bang! Pra ter certeza. É. Morto mesmo. É estranho numa hora ter quase certeza que se sobreviveria à um ataque nuclear e no outro morrer por um motivo tão besta, pensa ele estirado no chão sangrando mas inabalado de qualquer jeito, as mão sob a cabeça e analisando uma nuvem que se parece bastante com a poça de sangue que se formou em torno dele. É estranho ter morrido uma vez, ressucitado pra então morrer de novo, pensa ele com a respiração complacente de quem sabe que não tem muito tempo. Então ele desiste finalmente:
-"Morri. Bleagh!*careta de dor*."
E se levanta. Enfia as mãos nos bolsos e sai andando na direção para onde as pessoas andam depois que morrem. Acho que é Sul-Sudoeste. Talvez não. Quem sabe as pegadas de pato levem-no até seu inferno particular. Talvez não.
Homewrecker, Heartbreaker, Soul Sneezing.
- "O que é essa angústia? Essa urgência em fugir e essa inexorável vontade de permanecer onde estou?"
-"É amor."
-"Amor? Simples assim? Então é amor o que aperta meu peito e faz minha cabeça rodar desde a primeira vez que olhei dentro daqueles olhos perguntando se era ou não amor o que apertava meu peito e fazia minha cabeça rodar?"
-"É. Isso é amor. O que te faz querer morrer toda vez. E o que vai te matar um dia. É essa coisa que te corrói por dentro e abre um buraco na sua alma. É aquilo que foge com o seu coração e te deixa parecendo um fantasma. Isso é amor, isso e muito mais é amor kiddo."
-"Queria que parasse. Só... só parasse."
Natural Blues, Unatural Grey
Um homem se pergunta se mais alguém ouve seus problemas além de seu deus. Claro que não, mas não custa nada se enganar às segundas-feiras. Andando sem rumo no escuro da noite, mãos nos bolsos. Talvez para protegê-las do frio, talvez para esconder suas reais intenções. Talvez só procurando uma intençãoque lhe sirva em meio aos fiapos da calça mais velha que o último governo.
Um cachorro vadio cruza seu caminho e subitamente ele sente saudades do cheiro da pólvora de um revólver recém disparado em suas narinas. O pelo preto da criatura reluz sob a lampada halógena da rua. Deve ser um mau presságio. Ou será que isso só acontece quando os gatos pretos cruzam seu caminho? Não consegue se lembrar. Não faz diferença, já estava amaldiçoado mesmo. O incomodava não saber para onde ia. Incomodava mais ainda não saber quem era.
Sentiu uma gota bater no peito. Não estava chovendo, o céu sem estrelas de um cinza inatural não tinha uma nuvem sequer. Demorou um segundo até sentir o sal das lágrimas. Se perguntou por quê. Se perguntou sobre todos os por quês, do por quê de tudo não ter sentido algum. Riu. A voz rouca de não ser usada. Achou engraçado por que não conseguiu responder.
Vultures, Stray Cats And Lonely Ducks
Digo que não sonho por que não sonho, tenho pesadelos. O mesmo. Sempre. Como tudo que é recorrente depois de um tempo você acaba se acostumando. Não deixa de ser desagradável todas as vezes. Ás vezes acordo e tenho a impressão que não tive sonho nenhum, que talvez tenha escapado, mas sempre tenho a sensação de que vi algo. De que as horas de sono não foram vazia, quando me esforço para lembrar lá está ele. É horripilante à sua própria maneira, interminável do jeito que só os pesadelos podem ser.
Um pato, um gato preto e um abutre. O fundo é de um laranja indefinido e tudo parece muito quente. O gato, grande e com aparência de vadio, à espreita do pequeno pato, presas à mostra o tempo todo e saliva brilhando no canto da boca aberta. O pato alheio à tudo isso só anda do seu jeito desengonçado em frente. Sempre em frente. Pateticamente insistindo na árida paisagem. O abutre feito uma maldição, um mau agouro sobrevoa os dois pontos distantes no chão. Descrevendo círculos no céu, cada vez mais baixo. Pios que congelariam sua alma e impiedosos olhos aos quais nada escapa. Mas o que faz essa cena tão perturbadora é o fato de não haver definição. Só expectativa. Sempre acordo antes do desenrolar dos últimos atos da estória.
Não pretendo entender. Não quero, acho. Não quero analisar e tentar definir as coisas que ocorrem. Traçar paralelos e revelar as metáforas envolvidas. Contento me em ser espectador do drama. Não disse nada à ninguém um mês atrás quando ele apareceu e não diria nada a não ser que fosse realmente importante.
Ontem eu vi o final. Um final hiper-realista que só uma mente como a minha podia criar. O gato pulou na garganta da ave com um guincho feio que os gatos fazem, talvez para combinar com a cara feia da criatura, mas errou. O alvo cambaleou debilmente por alguns instantes e por meio segundo tudo pareceu que ficaria bem. Meio segundo. Ouvi o pescoço da ave quebrar sob as pesadas garras do abutre. A carnificina que se seguiu é rápida e desordenada. Pedaços são separados pelo bico sujo do carniceiro com estalidos e sons guturais. O gato roubou uma das pernas e a trilha de sangue faz desenhos engraçados enquanto ele corre. Por fim, tudo que restou foi uma coroa de ossos,
Are You Alone Today? I'm Always Alone
Espaço demais o incomodava. Não incomodava antes, mas agora lhe fazia mal. Por isso abriu mão do conforto e entrou no trem atulhado de desconhecidos sem pestanejar. Sorveu o caos e a leve pressão nas suas costelas (causada por um insistente cotovelo) com a melhor cara que podia criar. Pensou que precisava de alguém que limitasse seu espaço, pensou que não queria um cotovelo junto ao peito, mas outra coisa. E depois tentou não pensar em nada, devanear num trem em movimento não é a mais saudável das atividades, tudo balança muito e ele sempre acaba pensando em mar. Achou sinceramente que tinha conseguido essa façanha quando olhou casualmente para o metal frio que o apoiava.
-"Você acredita em estrelas?"
-"Não. E você?"
Em algum lugar talvez uma estrela gêmea, tão borrada quanto aquela se perguntasse a mesma coisa. Mas eu não apostaria muito dinheiro nisso.
Starshine
Tem uma estrela no meu dedo anelar e eu não sei o que ela significa. Tem uma estrela no céu acima da minha cabeça e eu não sei o que ela significa. Piso no reflexo de uma estrela e me sinto grande. Esmagando estrelas. Sem entender o que elas significam.
Será que um dia vou entender as estrelas? Achar um significado pra elas? Talve ache. Talvez não. Talvez nem mesmo importe. Mas sei que serão sempre estrelas. Ofuscadas pelos raios de sol.
Words That We Couldn't Say
As palavras são os tijolos que constróem todos os aspectos da vida humana. São o único meio seguro e à prova de idiotas de se comunicar. Sejam elas ditas, não ditas, escritas. Sussurradas nos ventos da mudança ou no calor do marasmo de uma tarde irreal. Frases, períodos, toda uma norma e organização para a simples tarefa de expressar-se.
Por que palavras são antes de tudo ferramentas. Ferramentas pelas quais os amores são criados e perdidos. Ferramentas que moldam a realidade. Ferramentas subalternas à minha vontade de mudar o mundo. São irreversíveis. Depois de ditas não mais pertencem a quem as teceu. Tornam-se propriedade do receptor. Elas podem ser retorcidas e ignoradas. Jogadas num canto e esquecidas. Totalmente à mercê da interpretação. Do humor. Da opinião de outrem.
Ela tem não a minha palavra, mas todas as minhas palavras. Assim como tem todos os meus pensamentos. Até que suas palavras me digam o contrário.
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