Entrei e notei sem querer a sacola plástica com a grande cruz vermelha impressa com tinta não bio-degradável em cima da mesa. Vazia. Notei também ele curvado perto do aquário, preguiçosamente atirando pequenos objetos na água suja e meio opaca do recipiente. Cada uma caía com um espirro e um barulho estranho parecido com aqueles que os eu estômago faz quando não deveria e te deixa desconfortável na frente dos pais da sua recém assumida namorada.
- Como foi a entrevista? Algum resultado? - Eu pergunto. Recentemente sugeri que ele procurasse algo com o que se ocupar, não se pode passar os dias escrevendo péssima poesia e riscando bigodes em pôsteres de vinte anos atrás. Esperava uma resposta, no mínimo. Por consideração. Um 'Não fui' pelo menos.
Ele olhou em minha direção e atirou algo. Algo pequeno e meio marrom.
- Aí o resultado. - Em minhas mãos um remédio tarja preta. 500 mg, Haloperidol 30 cápsulas. Vide bula para todas as cinquenta maneiras com que isso fode o seu cérebro. Antes que eu perguntasse o por que ele me disse. - As coisas ficaram meio fora de controle.
- Como você sai de casa com objetivo de arranjar um emprego e volta com medicação em dose cavalar Daquelas que as madames usam para dormir.
- Para a sua informação, isso não é Valium. Tudo ia bem até que me perguntaram onde eu me via daqui à vinte anos.
- E o que você disse?
- Que me via com uma barba, uma garrafa e três lunáticos, num bar enfumaçado tramando a derrocada do império das máquinas.
- Você não devia ter brincado numa situação dessas. Esse povo não tem senso de humor.
Seus olhos ficaram fixos e ele andou meio desinteressado até a parede, do lado da janela como se fosse um peão num jogo de xadrez. Depois disse:
- Não brincaria com algo tão sério quanto a queda dos robôs.
A bomba do aquário fazia barulho, mas o peixe havia morrido.

0 comentários:
Postar um comentário