Break

As pílulas para dormir e a garrafa de scotch faziam compania à dois copos, um recentemente esvaziado e outro completamente imaculado, e atulhavam a mesa de centro. A maculada figura dela recortada contra a luz azul vinda do aquário na parede, única fonte de claridade. As sombras desenhadas esguias até os pés da poltrona dele do outro lado da sala. Sentado de lado, pernas balançando dependuradas por sobre o apoio de braço, estava o rapaz inimaculável que lançava furtivamente olhares em direção à garota azul. 

- Você se lembra? - Começou ele sem confiança o bastante para olhar em qualquer outra direção além da outra direção que deveria olhar. - Se lembra do dia em que estávamos deitados no sofá de bolinhas da varanda e você me disse que eu cheirava à sabão em pó e café torrado?

- Lembro.- Disse a garota depois de um segundo em que tentou não olhar para o lugar que olhou. O lugar que deveria olhar desde o começo. - Eu tive esperanças de que você me respondesse daquela vez. Quer dizer, você tem resposta pra tudo mesmo.

- Eu sei agora. A resposta. Eu sei. Não sabia antes mas agora eu sei.- Calou-se. Demorou alguns segundos até perceber que deveria dizer mais alguma coisa. - Quer saber? Quer que eu responda? - Aceno de cabeça. - Você cheira ao cheiro que a felicidade deve ter quando o sol bate nela.

As bolhas explodiam como balas na superfície no silêncio que se seguiu. Então uma bomba soou quando o peixe mais vermelho de todos os peixes vermelhos do aquário provocou ondas depois de abocanhar algo boiando e ela disse algo.

- Essa foi, de longe, a coisa mais estúpida que você já disse. Palavra. - Risos ecoaram pelos corredores vazios além do que a bruxuleante luz ambiente permitia enxergar e pararam dando lugar à outro silêncio retumbante.

- Você não acredita mas é verdade. Você me faz notar as mais estranhas coisas quando está perto de mim, como se fosse capaz de expandir minha percepção. Seu cabelo dobra a luz de um jeito diferente do resto das coisas e quando nos abraçamos sinto você mais perto do que o possível. Mais do que qualquer outra coisa poderia chegar.

- Você sabe que isso é fisicamente impossível não sabe?

- Sei sim, mas quem disse que a física importa? Nada é impossível. Eu digo que, se você quisesse, você poderia atravessar sua mão pelo aquário e não quebrar o vidro.

- Como?

- Simplesmente esticando ela atráves da coisa toda. É tudo uma questão de expectativa, quando eu te tenho nos braços, não espero que nos separemos e então fica difícil saber o que é você e o que sou eu. Se você não esperar que sua mão encontre resistência da parede, mas se concentrar na água por exemplo, esperar sentir a água, você atravessa.

Como que em desafio ela se levantou prontamente, marchou até o aquário virando as costas e esticou a mão. O barulho surdo dos dedos finos batendo no vidro acabou com o suspense e ela sorriu vitoriosa.

- Você não está tentando. Devia se envergonhar.

Ela bufou e deu as costas mais uma vez. Fechou os olhos e tentou se lembrar de como se sentia quando ele ria para ela. Esticou a mão e sentiu os pelos do braço levantarem-se quando sentiu a sombra de uma presença ao seu lado. Continuou a esticar e parecia que esticaria seu braço até o infinito, o impacto com o vidro não veio. A umidade na ponta dos dedos a assustou e ela puxou a mão molhada pingando no carpete. Virou-se eufórica para a sala vazia e não conseguiu se lembrar quem esperava sentado torto na poltrona oposta.

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